Blog da Transporte Ativo
16nov/1112

Perdendo tempo com capacetes


O texto a seguir é tradução do artigo de Ceri Woolsgrove, publicado pela Federação dos Ciclistas Europeus - ECF, em 20/10/2011


O Ministro dos Transportes da Alemanha, Peter Ramsauer, disse que, se o índice de uso de capacete não começar a ficar acima dos 50%, ele vai pensar em instituir uma lei que torne o capacete obrigatório na Alemanha. Embora a coligação do partido FDP não concorde, ele acha que os menores devem ser obrigados a usar capacetes.

"Se a taxa de uso de capacetes, que hoje está em 9%, não aumentar significativamente para bem mais de 50% nos próximos anos, certamente temos que introduzir uma lei do capacete", Ramsauer disse em uma entrevista em Berlim. O ministro disse que 450 ciclistas foram mortos no ano passado na Alemanha, metade deles por causa de lesões na cabeça. Ele disse que muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas se os ciclistas estivessem de capacete.

Infelizmente é uma estatística quase impossível de comprovar. Capacetes conseguem mesmo eliminar ferimentos fatais na cabeça naqueles que se envolvem num acidentes de verdade? Como é que capacetes protegem de carros em alta velocidade? Estes são números que não temos e realmente precisamos descobrir. Mas, até aqui, o que nós sabemos? Sabemos que os países que introduziram leis tornando o capacete obrigatório simplesmente não reduziram nem ferimentos na cabeça nem acidentes; na verdade há bons motivos para argumentar que houve um aumento de lesões na cabeça (por exemplo, o caso clássico da Austrália em 1992).

Em certo sentido, parece estranho que leis do capacete obrigatório poderiam realmente aumentar ferimentos na cabeça! Mas o que aconteceria aos 90% dos ciclistas, que não usam capacete, se forem forçados a usar um capacete? Eles ainda andariam de bicicleta? Quão seguras parecerão as ruas aos olhos de quem quer começar a andar de bicicleta, se todos forem obrigados a usar capacetes e houver bem poucos ciclistas nas ruas ao redor? É um tanto quanto intimidador para qualquer ciclista iniciante. E menos bicicletas nas ruas certamente significa menos infraestrutura, e, portanto, ruas menos seguras, pois sabemos que quanto menos ciclistas nas ruas, menos seguras elas são (o princípio da “segurança pela quantidade”). Mais igualdade, mais segurança.

Qual é o lugar mais seguro para andar de bicicleta na Europa? Aqui está a pista: eles adoram laranja, tem o maior número de ciclistas e raramente se vê um capacete. Andar de bicicleta é uma coisa normal, uma atividade diária e segura.

Uma lei obrigando uso do capacete pode parecer de baixo custo, mas é uma gambiarra, e estamos convencidos de que seria muito onerosa se adotada e colocaria na contramão tudo o que se sabe sobre segurança cicloviária. Eu juro que se passássemos todo esse tempo falando de infraestrutura para bicicletas ou características de segurança dos carros e caminhões ou educação do motorista ou planejamento urbano etc etc, do mesmo modo que gastamos tempo discutindo capacetes, poderíamos estar muito perto de eliminar mortes de ciclistas de uma vez por todas, de modo linear e generalizado.

Estamos convencidos de que uma lei do capacete obrigatório tornaria as ruas mais perigosas e com menos ciclistas. Isto é o que se ganha. Perderíamos todas as calorias a serem queimadas, todos os corações cada vez mais fortes e todas aquelas pernas fortes trabalhando para conter as emissões poluentes de nossos carros!

Por fim, uma estatística. Na Europa:
• Há 6,4 mortes de pedestres por 100 milhões de kms trafegados;
• Há 5,4 mortes de ciclistas por 100 milhões de kms trafegados

Vamos levar as coisas a sério e acabar de vez com as mortes de ciclistas. Mas é preciso lembrar que ciclistas enfrentam riscos semelhantes aos pedestres e não devemos obrigar nem um nem outro a usar equipamentos de proteção em suas atividades corriqueiras e cotidianas.

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Escrito por Denir

Comentários (12) Trackbacks (1)
  1. Excelente reflexão. Concordo que a obrigatoriedade pode desincentivar as pessoas, mas se a adoção do capacete for voluntária é provável que uma boa parte dos acidentes envolvendo apenas os ciclistas não resulte em nenhum problema mais grave. Nós no Pedala Manaus incentivamos fortemente a utilização de capacete em todas atividades urbanas.

  2. "Mas é preciso lembrar que ciclistas enfrentam riscos semelhantes aos pedestres e não devemos obrigar nem um nem outro a usar equipamentos de proteção em suas atividades corriqueiras e cotidianas." DISCORDO totalmente desse parágrafo… Semelhantes onde? Estatística deve abranger mais informações… Quantos são os pedestres e quantos são os ciclistas, na Europa? Isso faz uma diferença enooorme… O capacete DEVE ser adotado sempre, como forma de diminuir sequelas em acidentes simples e não só em atropelamentos com veículos em alta velocidade! Segurança é o que todos buscamos e depende diretamente do grau de educação que temos no País, Estado ou Município…

  3. Eu estou 100% com esse argumento, ao mesmo tempo que eu SEMPRE PEDALO DE CAPACETE, e recomendo a todos o fazerem. Motivos eu tenho muitos, já quebrei dois no asfalto de SP, as duas vezes por minha própria imprudência somada ao péssimo qualidade do asfalto da cidade.

  4. Os argumentos primarios de alguem que insiste em nao usar equipamento de segurança…

    Na ultima pedalada em grupo ate rolou um debate sobre o tema… eu comentei sobre os sem capacete e um dos amigos falou que tem gente que nao tem grana pra comprar capacete… (realmente tinha uns meninos de short e bike rekenga no pelotão) mas eu estava me referindo a um sujeito de bike importada, freio a disco, amortecedor e bermudinha de grife. Será que ele realmente esta tão quebrado assim pra nao conseguir comprar um "casco"de 50 merréis?

  5. DrSal, parece que você não entendeu o ponto, ou então desconhece o problema. Usar capacete é bom. A obrigatoriedade de capacete é nefasta porque implica em combater um problema (as mortes pelos tais acidentes) ignorando completamente as causas dele: os carros dirigidos de forma inadequada. O capacete pode salvar sua vida, e é ótimo. Eu até mesmo uso um. Não se pode entretanto confundir as coisas: bicicleta não é um meio de transporte perigoso. Perigoso é organizar as cidades de forma a privilegiar, sempre, o deslocamento dos carros individuais. É isso que mata as pessoas, e não a falta de capacete. Mata as pessoas em 'acidentes' e contribui para piorar a qualidade de vida de todos – até mesmo dos que dirigem!

  6. DrSal, parece que você não entendeu o ponto, ou então desconhece o problema. Usar capacete é bom. A obrigatoriedade de capacete é nefasta porque implica em combater um problema (as mortes pelos tais acidentes) ignorando completamente as causas dele: os carros dirigidos de forma inadequada. O capacete pode salvar sua vida, e é ótimo. Eu até mesmo uso um. Não se pode entretanto confundir as coisas: bicicleta não é um meio de transporte perigoso. Perigoso é organizar as cidades de forma a privilegiar, sempre, o deslocamento dos carros individuais. É isso que mata as pessoas, e não a falta de capacete. Mata as pessoas em 'acidentes' e contribui para piorar a qualidade de vida de todos – até mesmo dos que dirigem!
    Os seus argumentos é que são primários: argumentos que isentam de responsabilidade pelos problemas daqueles que são os verdadeiros culpados.
    O capacete não salva ninguém num atropelamento e é ridículo combater atropelamento dessa forma. Só serve mesmo pra afugentar as pessoas das bicicletas.
    Por favor: procure alguma informação e não especulação, pare de espalhar ignorância. http://www.cycle-helmets.com/ http://cyclehelmets.org/papers/c2022.pdf

  7. Discordo Totalmente, uso capacete no meu dia a dia de bike e me sinto muito mais seguro. E outra coisa, não é difícil apertar um botãozinho.

  8. Também sou usuário de capacete cotidianamente, como tantos outros acima, e recomendo a todos que o usem mas discordo da obrigatoriedade. Acredito que inibiria os adolescentes a usarem a bicicleta diariamente e equivaleria ao "ridículo" que se obriga um condutor de uma moto, ou uma motoneta…

  9. Eu vi um TED falando exatamente sobre isso, mas o país em questão era a Dinamarca.

    Os argumentos são muito bons, especialmente o fato de já ter pedalado com holandeses e eles NUNCA usarem capacete, nem mesmo fora da Holanda.

    Mas o debate me parece geograficamente deslocado. Há um oceano de diferenças entre nós. Eles estão décadas a nossa frente e já partiram de uma cultura mais respeitadora das leis. Então propor e propagar no Brasil que o ciclista não use capacete me parece temerário.

    Eu uso capacete e recomendo a todos.

  10. Para mim, sinalizar ao motorista, usar as luzes à noite e trafegar por vias mais calmas fazem mais do que o capacete, mas cada um sabe da sua demanda. Para ciclistas urbanos que percorrem caminhos mais acidentados e de asfalto irregular, talvez ele seja mesmo um item importante, mas certamente que não evita a morte. Basta lembrar do sr. Antonio Bertolucci, morto na Sumaré provavelmente porque o motorista de ônibus não guardou o 1.5m de distância. Ele estava de capacete. A Marcia Prado, morta anos antes na av. Paulista nas mesmas condições, também usava. Um dos problemas mais graves que enfrentamos diariamente na cidade é o desrespeito por parte dos motoristas e, contra isso, nenhum capacete será capaz de nos proteger. Políticas mais contundentes de educação, fiscalização e punição servem melhor.

  11. Prezados todos, prezadas todas,

    Todos(as) têm razão, todos(as) não têm razão. Entendo quando a Renata, nossa querida maluquinha de plantão – é favor do uso. Já tentei pedalar com ela, mas não consegui. Ela é muito ligeira, muito arisca, uma ciclista das melhores que conheço, se não a melhor. Mas eu continuo com os holandeses, com os dinamarqueses e com os alemães de Munique, não uso capacete não. E, de mais para menos, capacetes de R$ 50,00 não protegem contra impacto algum. Para gerar uma proteção real precisaria comprar um capacete muito bom, que custa mais de R$ 350,00. Portanto, duas vezes o preço de uma bici de supermercado, para as quais nossa população não tem renda, nem tampouco disposição para comprar.

    A polêmica é grande e antiga. Acho que o ministro alemão está equivocado. A Alemanha é hoje o país com a maior quantidade de infraestrutura cicloviária implantada. Somente junto a rodovias tem mais de 180 mil km. E tem duas das três cidades com maiores infraestruturas cicloviárias no planeta – Hamburgo, com mais de 2.200 km; e Munique, com mais de 1.600 km.

  12. O problema é a inibição que uma medida dessas pode gerar sobre os usuários e os ainda não usuários. A Holanda é o país com maior uso da bicicleta no mundo, tendo 31% das viagens diárias realizadas por bicicleta em todo o país (dados disponíveis). A participação da bicicleta na divisão modal na Alemanha anda por volta de 10 a 12%. Como aumentar este percentual se tem de usar de forma obrigatória o capacete?

    Os dados da Austrália revelam que houve uma queda significativa a partir da obrigatoriedade. Relatei isto num trabalho apresentado em Congresso da ANTP, em 2003. É só ir lá e ver. O problema é complexo e concordo com o Tiago Barufi. Temos de aumentar nossa infraestrutura e medidas voltadas ao incentivo do uso. Discussões como esta, gerada a partir do pretendido pelo ministro alemão, não devem nos dividir. Capacete e proteção à cabeça é como poesia: usa quem dela precisa. E sigamos nas pedaladas. Grande Abraço.


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