Para repensar a linguagem

O uso corrente de diversos termos no que se refere √† mobilidade urbana s√£o baseados no vocabul√°rio da engenharia de tr√°fego dos 1950, 1960. Repesensar os significados das palavras √© um caminho fundamental para mudar o entendimento sobre a forma e fun√ß√£o da cidade. De maneira brilhante a cidade norte-americana de West Palm Beach na Fl√≥rida produziu um documento dirigido aos t√©cnicos da √°rea de tr√Ęnsito para que pudessem substituir palavras tendeciosas relativas √† investimentos e pol√≠ticas p√ļblicas de tr√Ęnsito.

A diretiva é bastante clara, já na definição do que é tráfego:

A palavra tr√°fego √© corriqueiramente usada como sin√īnimo de tr√°fego de ve√≠culos motorizados. Existem no entanto diversos tipos de tr√°fego nas cidades: tr√°fego de pedestres, tr√°fego de bicicletas, tr√°fego de trens. Para garantir a objetividade, se voc√™ quer dizer tr√°fego de ve√≠culos motorizados, ent√£o diga tr√°fego de ve√≠culos motorizados. Caso esteja se referindo a todo tipo de tr√°fego, ent√£o diga tr√°fego.

Outro termo empregado de forma errada e que tem definição mais precisa é em relação ao uso da palavra acidente:

Acidentes s√£o eventos danosos em que algo acontece por um azar inesperado ou por acaso. Acidentes implicam na aus√™ncia de culpados. √Č amplamente sabido que a grande maioria dos acidentes (de tr√Ęnsito motorizado) s√£o previniveis e al√©m de ser poss√≠vel apontar culpados. O uso da palavra acidente tamb√©m reduz o grau de responsabilidade e da gravidade associada √† situa√ß√£o e invoca um certo grau de simpatia √† pessoa respons√°vel. A linguagem objetiva inclui os termos colis√£o e batida.

Por conta dessa vis√£o, que ap√≥s o atropelamento dos ciclistas de Porto Alegre em fevereiro de 2011 durante a bicicletada, o termo #naofoiacidente foi um dos mais comentados no twitter. A situa√ß√£o se repetiu na √ļltima sexta-feira, 02 de mar√ßo, quando mais uma ciclista foi morta por um √īnibus na avenida Paulista e tamb√©m em outras cidades brasileiras. O tema foi gancho para um debate ao vivo com Z√© Lobo, presidente da Transporte Ativo, e o jornalista ambiental Andr√© Trigueiro, assista.

O manual de West Palm Beach ainda trata de diversos outros termos, alguns mais, outros menos simples de serem traduzidos para a realidade brasileira. Em portugu√™s por exemplo a maior distor√ß√£o do planejamento vi√°rio tupiniquim √© o uso do termo “n√£o-motorizado” para tratar de pedestres, ciclistas e outros meios de transporte ativos. Assunto j√° tratado em um outro post (Transporte n√£o-motorizado).

Exemplos a serem resignificados existem em abund√Ęncia. Quando uma via fica restrita √† circula√ß√£o de ve√≠culos motorizados a comunica√ß√£o oficial √© de que a via foi “fechada”, quando o correto seria dizer justamente o contr√°rio, que a via foi aberta exclusivamente para o tr√°fego de pessoas.

Repensar o discurso e o uso das palavras é um primeiro passo fundamental para ordenar prioridades e atualizar o planejamento urbano. Afinal, nada mais antiquado do que usar gírias de meados do século XX em pleno século XXI e de certa forma é isso que temos aceitado fazer no que se refere à mobilidade urbana.

A publica√ß√£o original do manual da prefeitura de West Palm Beach est√° dispon√≠vel em pdf. Mais informa√ß√Ķes no blog Human Transit. O blog “V√° de Bike”, tamb√©m traz sua vis√£o sobre porque “acidente” n√£o descreve os atropelamentos de ciclistas.

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2 coment√°rios para Para repensar a linguagem

  1. Rodrigo diz:

    João, magnífica observação. Devemos evitar a "normalização" do uso equivocado e tendencioso de muitos termos. O caso citado, da palavra "tráfego", é emblemático. Todos os veículos (!) de comunicação usam tráfego como sinônimo de tráfego motorizado -- quem não conhece a clássica frase "os ciclistas atrapalharam o tráfego"?

  2. Rodrigo diz:

    (cont.)
    Mas é necessário, também, não banalizar no sentido contrário. Não podemos partir para um clima de ódio cego em que toda colisão de automóvel contra ciclista para a ser um "não acidente". Eu, como ciclista que dirige, que guarda a distância de 1,5 metro, que "cuida" do ciclista quando está ao volante, que obedece às regras de trânsito, não me sinto nem um pouco à vontade com isso, por mais que possa também, hoje, estar numa Bicicletada ou amanhã indo de bike em vez de carro para o trabalho. O motorista que se envolve num choque contra o ciclista deve parar, ajudar, levar ao hospital, mas não pode ser apontado, por definição, como bandido. É também absurdo e não ajuda em nada nossa causa.

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