Uma confusão elétrica

Bicicleta é bicicleta, outra coisa é outra coisa. Pode parecer óbvio, mas por conta da apreensão de um ciclomotor elétrico em uma ciclovia no Rio de Janeiro criou-se uma disputa federal em torna da definição e regulamentação do que é afinal uma “bicicleta elétrica”.

O Denatran, órgão federal encarregado de organizar o trânsito brasileiro na esfera federal, define muito bem que ciclomotores elétricos se equiparam em direitos e deveres a todos os outros ciclomotores. Ou seja, tem motor e acelerador, é ciclomotor, não importa a energia que move o motor. Já um decreto municipal da prefeitura do Rio de Janeiro definiu que ciclomotor elétrico é bicicleta. Ambos no entanto pecaram em um ponto fundamental, excluíram as bicicletas eletroassistidas. Aquelas que tem um motor, mas que apenas servem para dar um impulso extra ao condutor, que deve pedalar o tempo todo. Além disso, costumam também ter uma limitação de velocidade para a assistência, normalmente acima dos 25 km/h a assistência motorizada cessa.

As distinções são importantes e foram ignoradas tanto na esfera federal, pelo Denatran, quanto na esfera municipal. É uma pena que para manter um ambiente favorável a circulação de ciclomotores elétricos, a prefeitura do Rio tenha legislado em favor de uma minoria de condutores, em detrimento da segurança da maioria dos ciclistas que circulam pelas ciclovias cariocas.

O principal motivo para distinguir bicicleta de ciclomotor é o peso da máquina. Ciclomotores elétricos pesam em torno de 50kg, com um ciclista de 70kg, o conjunto pesa 120kg e é capaz de trafegar a velocidades de mais de 30 km/h sem qualquer esforço pro conta do condutor. Já uma bicicleta costuma pesar em torno de 12kg, dando ao conjunto um peso total de 82kg. A partir daí as diferenças aumentam. Um ciclista para trafegar acima dos 20km/h precisa gerar uma quantidade considerável de energia e mais do que isso, precisa ter familiaridade com o veículo e forma física, e, a não ser que seja um atleta profissional, não mantém um ritmo constante. As freiadas e retomadas de velocidade, tão comuns nas ciclovias, drenam energia que seria usada para manter o ritmo.

A distinção entre motor e propulsão humana, portanto, é fundamental para garantir a segurança dos ciclistas e pedestres. Afinal, a malha cicloviária do Rio de Janeiro está estruturada em torno de ciclovias segregadas, ciclofaixas e também faixas compartilhadas entre pedestres e ciclistas.

Para além do direito de trânsito dos ciclomotores, o erro está em colocar todos os ciclomotores elétricas no mesmo pacote. Na cidade de Nova Iorque, por exemplo, esse tipo de veículo é ilegal, em Hong Kong e no Havaí podem circular mas devem ser emplacadas como ciclomotores. Em Sevilha, na Espanha, nenhum tipo de ciclomotor elétrico pode circular em ciclovias.

Em geral, na maioria dos lugares com maior densidade populacional as “bicicletas elétricas” são consideradas ciclomotores. Ou seja a resolução do Contran é muito boa e o decreto carioca foi feito sem o devido critério técnico, previlegiou 5 mil condutores de bicicletas elétricas em detrimento de 500 mil ciclistas que com certeza estarão em ambiente mais inseguro com a presença dos velozes e silenciosos ciclomotores elétricos.

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6 comentários para Uma confusão elétrica

  1. FElipe Fernandes diz:

    Concordo com a necessidade de regulamentar as e-bikes e que existem coisas que deveriam ser consideradas bicicletas e outras que não, porém discordo de alguns argumentos e números apresentados.
    Possuo uma bicicleta elétrica que nos finais de semana eu troco a roda trazeira (onde está o motor) e retiro a bateria, ficando assim com uma bicicleta normal para passear, no domingo a noite destroco e coloco a bateria ficando pronto para o trabalho na segunda.
    Com base neste uso misto que faço posso dizer que a diferença de peso não é tão grande com motor e bateria minha bicicleta pesa 25kg sem motor e bateria fica com 15kg, ou seja a diferença não tão grande como foi colocada.
    Outra coisa é a questão da velocidade máxima, a minha o motor para de ajudar ao atingir 30Km/h acima disso somente nas pernas, porém quando estou com motor e bateria ir dos 30 aos 40 é extremamente difícil por conta dos 10kg a mais, de forma que minha velocidade máxima com motor e bateria no plano não passa dos 37Km/h enquanto que sem motor já atingi 42Km/h no plano.
    Sei que existem vários tipos de e-bikes e esses números podem variar muito, mas não acho que estou colocando em risco outros ciclistas quando uso o motor, é verdade que estou mais pesado, porém somente 10kg comparado a mesma bicicleta sem motor e bateria e 13kg comparado a uma bicicleta normal, e apesar de cnseguir manter uma velocidade média maior com o motor minha velocidade final é maior sem.

    • Felipe,

      Você levantou um outro ponto importante que também foi esquecido, as bicicletas elétricas adaptadas. O peso de referência usado no post é de um modelo estritamente movido à eletricidade.

      O ponto principal é que bicicleta como motor é menos segura para os demais usuários da ciclovia do que uma com motor. Esses seus 10kg à mais podem parecer pouco, mas é bem difícil uma bicicleta normal tão pesada, ser capaz de alcançar mais do que 20km/h de velocidade máxima.

      A conversa é longa, uma pena que ainda não tenha sido devidamente entendida pelo poder público.

  2. Pingback:Cicloviarismo motorizante | O Último Baile dos Guermantes

  3. adriano diz:

    Se partir do principio que uma bicicleta é um veiculo que se move através de propulsão humana, qualquer variação descaracterizaria como sendo bicicleta. Sendo assim, a regulamentação do Denatran esta correta. Não tem o que discutir.

  4. Pingback:Uma boa solução para regulamentar as bicicletas elétricas

  5. Rodrigo diz:

    Concordo com o Adriano. Hoje, qualquer coisa que não seja exclusivamente movido pela propulsão humana é ciclomotor, e a Prefeitura do Rio não tem competência para legislar sobre isso. Defendo a regulamentação para igualar pedelecs a bicicletas, mas considero de difícil implementação — a mudança começaria pela indústria, já que praticamente todas as bikes elétricas à venda no Brasil hoje estariam em desconformidade e exigiria fiscalização qualificada, pois a distinção seria tênue para um leigo. Mais do que isso, falta diálogo. O prefeito saiu resolvendo na canetada, sem debater. O Denatran, se as notícias estiverem corretas, segue pelo mesmo caminho. Uma audiência pública, inicialmente, seria o melhor caminho para discutir o tema.

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