Ética das ruas

No zoológico humano gigante das nossas cidades os usos dos espaços de circulação são construídos através das idéias. Ao longo do século XX que foi criada e disseminada a noção de que as ruas são espaços de circulação exclusivos de veículos motorizados, um conceito que tem sido revisto ao longo do mundo.

As cidades e seus usos foram construídas primeiro no mundo das idéias e com o passar do tempo certos conceitos se cristalizaram. O vídeo abaixo é uma campanha colombiana de 1941 que coloca crianças e adultos a pé como culpados pelos seus infortúnios.

A abordagem pode soar bizarra, mas infelizmente o século XX no que se refere a campanhas de trânsito ainda não acabou. A cidade do século XXI cada dia mais volta a ser a cidade das pessoas, uma cidade com espaços públicos para todos e circulação segura e prioritária dos mais frágeis.

Infelizmente ainda existem exemplos ineficientes de campanhas de culpabilização da vítima. Quando mais eficaz e correto é sempre investir no incentivo para que pedestres e ciclistas possam circular tranquilamente pelas ruas das cidades. Nessa lógica, os veículos motorizados são coadjuvantes, com o transporte público sendo sempre um ator com mais espaço do que os meios de transporte motorizados individuais.

Na comunicação publicitária institucional, como é o caso de campanhas de trânsito em Nova Iorque e em São Paulo os velhos conceitos ainda estão presentes.

Valorizar os mais frágeis é além de mais correto, também o mais racional. Vale sempre ter a mão os dados sobre vítimas de trânsito e “acidentes” (o nome oficial para colisões, atropelamentos e crimes de trânsito) no Brasil:

Ciclistas são 7% dos deslocamentos e 4% dos “acidentes”
Carros 24% dos deslocamentos e 27% dos “acidentes”
Motos 12,6% dos deslocamentos e 22% dos “acidentes”.
Fonte – cruzamento de dados das seguintes pesquisas:
Pesquisa IPEA –Mobilidade Urbana 2011
Mapeamento das Mortes por Acidentes de Trânsito no Brasil – Confederação Nacional de Municipios 2009

Dados da secretaria de saúde de São Paulo apontam que em 2011, 3,4 mil ciclistas sofreram lesões no trânsito e foram internados na rede do SUS, o que gerou um gasto de R$ 3,25 milhões ao Sistema Único de Saúde. Dados da cidade do Rio de Janeiro apontam 811 internações entre 2000-2007 e 114 óbitos no período.

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Um comentário para Ética das ruas

  1. Eduardo diz:

    Artigo muito interessante e importante, mas coloco em discussão o uso do termo frágil ou 'mais frágil' para designar pedestres e ciclistas. Nas grandes metrópoles este conceito pode ser invertido até pelo aspecto estatístico colocado no texto da proporção percentual de deslocamentos e acidentes. Os mais suscetíveis a acidentes podem não ser os mais frágeis, mas estão mais fragilizados em termos de segurança pura e simples. Além disso motoristas engarrafados são mais frágeis em relação à sua saúde, prejudicada pela concentração de poluentes em seu trajeto. Também ficam mais tempo parados e suscetíveis a assaltos. Isso sem contar que gastam mais dinheiro e perdem saúde pelo aspecto sedentário e psicológico de se deslocarem em engarrafamentos gigantes. Se a bicicleta é mais rápida, mais barata, mais limpa, mais saudável, mais eficiente e mais prática, em termos de qualidade de vida os mais frágeis são as vítimas de uma cultura de uso do carro que não é mais uma unanimidade e nem faz tanto sentido assim. Se fortaleça, vá de bicicleta!

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