Onde está o perigo nas ruas?

Arte: Heads

Arte: Heads

Qualquer busca sobre matérias que se relacionem a sinistralidades no trânsito para sempre buscar “chamar a atenção sobre o aumento de acidentes com ciclistas”.

Mais do que uma análise baseada em fatos, o discurso parece muito mais um reforço negativo de estigmatizar a bicicleta como um veículo “perigososo”. Mesmo que dados oficiais sempre comprovem que ao longo do tempo e com maiores incentivos ao uso da bicicleta, sinistralidades envolvendo ciclistas tendem a diminuir.

A famosa segurança em números diz na prática o que todo ciclista intui nas ruas. Mais pessoas em bicicleta é igual a menos ciclistas que sofrem as consequências da imprudência ou imperícia de condutores de veículos motorizados.

Os números mostram informações assustadoras (dados aproximados porque não as tenho em mãos agora): cerca de 50% das mortes no trânsito são de pedestres, outros cerca de 40% são de motoristas ou “caronas”.

Atenção inclusive para detalhe mais importante: 100% dos “acidentes” SEMPRE tem entre os envolvidos um veículo motorizado. Ou seja, a sinistralidade vem sempre movida a motor. Variam apenas as vítimas. Mais comumente são pedestres, mas podem ser condutores e passageiros e até ciclistas.

Resumindo, está muito errada a linha de raciocínio de quem quer dizer que pedalar nas ruas é perigoso. Os números mostram que perigoso é a combinação veículo motor+velocidade com a impunidade como outro incentivador.

O debate é antigo e durante o século XX foi vencido pelos promotores do uso do automóvel. Está na pauta a “propriedade” sobre o uso do espaço público das ruas. Por hora ainda sobrevive o conceito antigo, de que ruas são para motorizados, mas certamente esse discurso anacrônico perde espaço nos corações e mentes de quem pensa as cidades. Aos poucos perde também espaço no asfalto.

Infelizmente, até mesmo alguns ciclistas acabam muito focados nos “perigo da bicicleta” e esquecem a necessidade de resolver o real problema.

Chamam tanta atenção sobre a necessidade de se usar capacete, luvas, joelheiras, cotoveleiras etc. para pedalar, e esquecem dos reais causadores de mortes em nossas ruas. Que geralmente conduzem veículos pesados e velozes protegidos por enormes carcaças de aço presos apenas por cintos de segurança e eventuais air-bags. Mas sem qualquer dispositivo que salve as vidas de quem está do lado de fora, a pé ou de bicicleta.

Quem se preocupa muito com os “perigos da bicicleta”, acaba se prestando a dois papeis. Ou é inocente útil para reforçar o discurso do medo que garante a “propriedade das ruas” para os automóveis, ou tem realmente a intenção de manter a lógica das cidades presa ao século XX, aquele das guerras, do petróleo e do automóvel.

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5 comentários para Onde está o perigo nas ruas?

  1. Ricardo diz:

    Concordo em parte! Nos ciclistas também somos responsáveis por acidentes. Acredito que devíamos focar mais em nos educar a respeitar as regras de trânsito. Cansei de ver atletas pedalando na contra mão em avenidas, furando sinal vermelho pra não perder o ritmo de treino, ziguezagueando em avenidas abarrotadas de outros atletas treinando, utilizando ciclo faixas de lazer para realizar treinos, etc! As assessorais esportivas deveriam “educar” seus atletas, mas o técnico faz a mesma coisa, então o que esperar?
    Se entre atletas é assim o que dizer da maioria das pessoas que usa a bicicleta como meio de transporte??
    Sou da opinião que devemos “arrumar nossa casa” primeiro antes de arrumar a casa dos outros! Sugestão João Lacerda: lance uma campanha de educação do ciclista no trânsito!! Precisamos disso.

    • Eduardo diz:

      Ricardo, vale um ajuste na sua análise e sugiro considerar reler o texto, especialmente o trecho “100% dos ‘acidentes’ envolvem um motorizado”. O post não cita, mas no trânsito o maior SEMPRE deve zelar pela segurança do menor, portanto priorizar campanha para ciclistas não faz sentido. Deve-se cobrar campanhas para o convívio no trânsito em geral (motorizados, pedestres, ciclistas), mas com muita ênfase, em quem conduz motorizados (ciclomotores elétricos inclusos).

      • Ricardo diz:

        Eduardo, você tem razão mas acho que nós ciclistas também temos que zelar pela segurança. Não acho que a idéia de campanhas educacionais para ciclistas tenham que partir de orgãos que controlam o transito mas sim de nós ciclistas (a idéia de darmos o exemplo, entende?). Como você muito bem disse: no trânsito, o maior zela pela segurança do menor. O ciclista zela pela segurança do pedestre. Como zelamos pela segurança dos pedestres se andamos na contra mão, costuramos nos corredores, andamos na calçada, não sinalizamos quando vamos fazer uma conversão, não respeitamos faixa de pedestre? E se não fazemos isso, como poderemos cobrar que os maiores que nós façam?
        E como esse é um canal para ciclistas, de repente a gente poderia trabalhar a nossa educação! Principalmente pq vejo ciclistas jovens (adolescentes) sendo educados a cometer esses erros básicos no transito!
        Detalhe: quanto ao dado de 100% dos acidentes envolverem veículos motorizados, isso é um viés da fonte de coleta de dados (afinal ninguém chama a policia para fazer BO de batida de bicicleta, (risos). A esmagadora maioria de acidentes envolve veículos motorizados, mas como médico já atendi atropelamento de bicicleta inclusive com morte da vítima!

        • Eduardo diz:

          Ricardo, você ainda não entendeu. Dá uma lida nesta post do Robson e veja os gráficos: http://www.avidadebicicleta.com/2014/03/andar-de-bicicleta-e-perigoso.html
          E outra: pedestres não são só pedestres, ciclistas não são só ciclistas e motoristas não são só motoristas. Não existe isso de tribo na rua. Daí que é pedagogicamente muito pobre mirar num ou noutro estado temporário dos que estão na rua.
          O blog da TA não é um canal para ciclistas, é um canal para que mais pessoas usem a bicicleta. Simples assim, sem rótulos. :-)

  2. Luís diz:

    Arlindo ok. Mas pelo menos na area onde eu moro e frequente ver ciclistas imprudentes. Outro dia sai do ônibus pisei na calçada e quase fui atropelado por um. Bizarramente o tipo conseguiu co o guidom bike jogar longe um saco plástico com uma série de contas pagas… perdão mas hoje a discussão não pode ser apenas ciclistas x carros mas onde termina o direito de um e começa o do outro. No mais concordo com tudo que você disse abs

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