Uma vida perdida no trânsito é inaceitável

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Confiança cega nas máquinas e a ilusão de segurança propiciada por elas transformou nossas cidades em arenas de destruição de vidas. Ruas tornaram-se espaços de opressão dos pedestres quando deveriam ser apenas áreas de circulação. Reverter essa situação passa também pela adoção do conceito de “visão zero”, uma política pública criada na Suécia que busca chegar a zero o número de mortos e feridos com sequelas nos sistemas de trânsito rodoviário.

A perda de qualquer vida no trânsito é moralmente inaceitável, liberdade e mobilidade tem de ser garantidas a todos sem o alto custo em vidas humanas que temos hoje. A solução é bastante simples, é preciso pensar o transporte urbano de pessoas e cargas como algo em que esteja sempre previsto o erro humano.

Basta ter em mente um lema simples: “em qualquer situação uma pessoa pode falhar, o sistema viário não.”

Em uma tradução do site da Iniciativa Visão Zero, é possível entender melhor o conceito.

Sistemas de transporte tradicionais são projetados para alta capacidade e fluxo, com a segurança deixada de lado. Isso significa que os usuários das vias são responsáveis pela sua própria segurança. A Iniciativa Visão Zero tem uma abordagem que é justamente o oposto. A responsabilidade recai principalmente no desenho viário, por reconhecermos a fragilidade da vida humana e sua baixa tolerância frente a forças mecânicas. Em resumo, ninguém deve morrer ou sofrer graves sequelas no trânsito.

Da conceituação à lei
O conceito de visão zero foi criado em 1994 e apenas três anos depois, o Congresso sueco aprovou uma lei de segurança viária que transformou a idéia em política pública. A lei definiu como meta que não aconteçam mortes ou graves sequelas nas vias da Suécia e não deixa espaço para a redução no número de ocorrências viárias para um nível economicamente aceitável. Desde então o país tem adequado seu sistema rodoviário com a abordagem de “visão zero”.

Nova Iorque recentemente também adotou o conceito e lançou seu plano bastante detalhado que aos poucos vem sendo colocado em prática. A mais eficiente e simples medida a ser tomada é reduzir imediatamente o limite de velocidade na cidade. Mais uma vez, quem promove o uso da bicicleta em São Paulo (e no Brasil), mostra que está à frente do seu tempo e de maneira uníssona defende a vida em detrimento da ilusão de fluidez propiciada pela leniência com velocidades incompatíveis com a vida humana.

A promoção de valores éticos em defesa da vida mostra-se com clareza após a leitura de textos editoriais publicados em 2014, mas que atendem a mesma lógica do século XX em que simbolicamente as ruas e a regras de circulação eram focadas apenas no fluxo e num mínimo de preservação de danos dos condutores de motorizados contra eles mesmos, cabendo as vítimas migalhas e a defesa contra a opressão. Leia o editorial “Direitos sem deveres” caso tenha paciência de viajar ao passado do pensamento urbano.

Saiba mais:

Iniciativa Visão Zero da Suécia
Visão Zero em Nova Iorque

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Um comentário para Uma vida perdida no trânsito é inaceitável

  1. A morte no trânsito foi banalizada. Ela é contabilizada. Aceita como parte inevitável de uma visão ultrapassada de progresso que tinha o veículo motorizado particular como símbolo maior. O problema é que grande parte dos brasileiros ainda tem essa concepção, inculcada em seus subconscientes por décadas de campanhas explícitas na mídia e implícitas na cultura (filmes, novelas, etc.). E essa filosofia da posse do carro como autonomia, conforto e liberdade vai de encontro à lógica de convívio com ciclistas e pedestres: o motorista e o motociclista interpretam propostas de redução da velocidade de seus veículos como um limitador de suas liberdades individuais. Enquanto essa filosofia não for trabalhada de forma a provar que essa medida será benéfica à sociedade como um todo, nós ciclistas continuaremos a ser encarados como os “penetras do asfalto” por pessoas desinformadas (quer por desconhecimento ou por escolha das leis de trânsito, quer por pura falta de civilidade e noção de cidadania).

    PS: Há cerca de um mês, uma emissora de televisão fez uma matéria de quase 5 minutos dedicada ao atropelamento de um idoso por um ciclista em São Paulo. O ciclista vinha pela ciclofaixa e o idoso (que encontrava-se num ponto cego para o ciclista, atrás de um poste), atravessou a via sem se assegurar de que não havia bicicletas trafegando a ciclofaixa. Foi uma fatalidade, cuja culpa claramente foi do pedestre. Mas a emissora tratou o incidente de forma a demonizar os ciclistas, estigmatizando ainda mais as pessoas que buscam ativamente uma alternativa amigável, ecológica e humana para o deslocamento em centros urbanos.

    Atropelamentos por automóveis tomam menos de 30 segundos de qualquer telejornal….

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