{"id":5391,"date":"2014-05-08T22:14:04","date_gmt":"2014-05-09T01:14:04","guid":{"rendered":"http:\/\/transporteativo.org.br\/wp\/?p=5391"},"modified":"2014-05-08T22:14:04","modified_gmt":"2014-05-09T01:14:04","slug":"violencia-e-transito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=5391","title":{"rendered":"Viol\u00eancia e tr\u00e2nsito"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5393\" src=\"http:\/\/transporteativo.org.br\/wp\/blog\/uploads\/2014\/05\/look-bikes-sign.jpg\" alt=\"look-bikes-sign\" width=\"560\" height=\"298\" \/><\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito urbano \u00e9 pensado para ser ordenado. Pinturas no asfalto, placas, luzes e regras, muitas regras. Mas toda a constru\u00e7\u00e3o f\u00edsica e simb\u00f3lica das ruas parece esquecer que existem seres humanos em circula\u00e7\u00e3o e conduzindo ve\u00edculos.<\/p>\n<p>Quando seres humanos e seus ve\u00edculos colidem, ou atropelam, a maioria das pessoas ainda define essas ocorr\u00eancias como &#8220;acidentes&#8221;, com toda a tentativa de isentar os envolvidos de quaisquer responsabilidades. Principalmente se um dos envolvidos for o condutor de um ve\u00edculo automotor e a outra parte forem pedestres ou ciclistas.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do que \u00e9 &#8220;acidente&#8221; e como a terminologia \u00e9 favor\u00e1vel a irresponsabilidade \u00e9 assunto para outro(s) post(s) e at\u00e9 mesmo para teses de doutorado. Vale ressaltar no entanto como os pr\u00f3prios ciclistas discutem e reverberam ocorr\u00eancias no tr\u00e2nsito, com ou sem v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Exemplo bem conhecido s\u00e3o as bicicletas brancas. S\u00edmbolo de revolta de ciclistas com a morte evit\u00e1vel (e ofensivamente chamada de &#8220;acidente&#8221; por n\u00e3o-ciclistas) de &#8220;um dos seus&#8221;. O ritual de marcar um espa\u00e7o na rua como local de um crime de tr\u00e2nsito \u00e9 interpretado de diversas maneiras\u00a0a pior certamente \u00e9 a de refor\u00e7ar um medo difuso que muitos tem de pedalar nas ruas.<\/p>\n<p>Uma bicicleta branca comunica que o risco da morte \u00e9 algo que assombra quem pedala. Conceito que por vezes reativa o estere\u00f3tipo de que pedalar nas ruas das cidades &#8220;que n\u00e3o foram feitas para bicicletas&#8221; \u00e9 uma atitude temer\u00e1ria e arriscada. Ao inv\u00e9s de buscar responsabilizar a imprud\u00eancia e imper\u00edcia de condutores homicidas, uma bicicleta branca pode ser simplesmente refor\u00e7ar nas mentes urbanas que \u00e9 preciso armadura para transitar pelos espa\u00e7os p\u00fablico de circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de homenagens p\u00f3stumas, h\u00e1 outro fator mais sutil no discurso e nas conversas sobre viol\u00eancia, tr\u00e2nsito e bicicletas. \u00c9 a pr\u00f3pria fala entre os ciclistas e o discurso de medo que propagam.<\/p>\n<p>O medo vai desde as &#8220;amea\u00e7as de morte&#8221; que um ciclista sem capacete sofre de seus pares capacetudos, at\u00e9 as conversas retroalimentadas de incidentes, tombos e momentos de tens\u00e3o no tr\u00e2nsito. \u00c9 quase natural que um encontro entre v\u00e1rios ciclistas\u00a0a conversa em algum momento siga o caminho de confession\u00e1rio de desventuras, riscos e medo.<\/p>\n<p>Tal iniciativa est\u00e1 longe de ser postura individual de um ou outro ciclista, mas pr\u00e1tica corriqueira entre qualquer pessoa que pedala nas ruas das grandes cidades. Espa\u00e7o &#8220;de guerra&#8221; e que foi legitimado como pertencente aos condutores de ve\u00edculos motorizados. O confession\u00e1rio de desventuras faz pouco para mudar a situa\u00e7\u00e3o e trazem o debate sobre o uso da bicicleta entre ciclistas para uma esfera de melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o humana nas ruas.<\/p>\n<p>Bicicletas brancas e o confession\u00e1rio de desventuras acabam por cumprir um mesmo papel, unir a comunidade dos ciclistas. Para unidos, reeducar, subjugar ou idealmente dominar os condutores motorizados e ganhar a guerra pelo espa\u00e7o das ruas.<\/p>\n<p>Ainda que comunidades fortes tenham um papel fundamental na constru\u00e7\u00e3o de cidades humanas, o discurso do medo refor\u00e7a cis\u00f5es entre pedalantes e n\u00e3o-pedalantes ao inv\u00e9s de unir prop\u00f3sitos e esfor\u00e7os. Resolver o problema como algo &#8220;do outro&#8221;, \u00e9\u00a0afirmar que se hoje temos uma cidade motorizada que oprime os desmotorizados, h\u00e1 que se travar a batalha pela liberta\u00e7\u00e3o dos n\u00e3o-motorizados.<\/p>\n<p>Como reordenar os discursos para produzir melhorias \u00e9 tarefa \u00e1rdua, ainda mais em uma sociedade fascinada por crime, viol\u00eancia e cultura do medo. O termo &#8220;confession\u00e1rio de desventuras&#8221; \u00e9 livremente inspirado na &#8220;fala do crime&#8221;, magistralmente definido no livro &#8220;<em><a href=\"http:\/\/books.google.com.br\/books?id=NZyjOmbHseEC&amp;lpg=PA27&amp;ots=386V188uou&amp;dq=fala%20do%20crime&amp;hl=pt-BR&amp;pg=PA25#v=onepage&amp;q=fala%20do%20crime&amp;f=false\" target=\"_blank\">Cidade de muros: crime, segrega\u00e7\u00e3o e cidadania em S\u00e3o Paulo<\/a>&#8220;<\/em> de\u00a0Teresa Pires do Rio Caldeira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=5391\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-5391","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espaco-publico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5391","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5391"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5391\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5391"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}