{"id":5568,"date":"2014-07-22T22:57:13","date_gmt":"2014-07-23T01:57:13","guid":{"rendered":"http:\/\/transporteativo.org.br\/wp\/?p=5568"},"modified":"2022-12-06T20:18:28","modified_gmt":"2022-12-06T23:18:28","slug":"trens-burca-capacete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=5568","title":{"rendered":"Trens, burca e capacete"},"content":{"rendered":"<p>Uma nova lei estadual em S\u00e3o Paulo quer minimizar o ass\u00e9dio, t\u00e3o comum, sofrido pelas mulheres nos trens. Sim, a justificativa aborda n\u00e3o a necessidade de punir assediadores ou criar meios de den\u00fancia para coibir crimes. Vale ler a \u00edntegra da justificativa do PL 175\/2013 (<a href=\"http:\/\/www.al.sp.gov.br\/propositura\/?id=1123031\" target=\"_blank\">Lei do Vag\u00e3o Rosa<\/a>) aprovado recentemente na Assembl\u00e9ia Legislativa de S\u00e3o Paulo (Alesp):<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00c9 comum constatarmos reclama\u00e7\u00f5es de mulheres que necessitam usar as linhas do metr\u00f4 e da CPTM de abusos cometidos contra as mesmas, nos trens em hor\u00e1rios de grande pico.<\/em><\/p>\n<p>Sabemos que, infelizmente, grande parte da popula\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 obrigada a conviver com abusos pela falta de espa\u00e7o nas composi\u00e7\u00f5es. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 constrangedora para quem \u00e9 obrigada a utilizar esse meio de transporte para ir e vir do trabalho, \u00e0 escola, e outros, pois na falta de espa\u00e7o nos vag\u00f5es, as mulheres n\u00e3o tem outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o \u201cag\u00fcentar\u201d esse constrangimento durante todo o percurso, que muitas vezes \u00e9 longo.<\/p>\n<p>Infelizmente as mulheres n\u00e3o s\u00e3o respeitadas nessas composi\u00e7\u00f5es nem mesmo quando acompanhadas por filhos menores.<\/p>\n<p>Diante do exposto, tomo a liberdade de apresentar a esta propositura, pois os problemas de ass\u00e9dio \u00e0s mulheres s\u00e3o comuns e cabe a n\u00f3s minimizarmos, diante do poss\u00edvel, essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Toda viol\u00eancia sexual \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de poder. O homem, armado de seus &#8220;instintos&#8221;, ou qualquer outra justificativa estapaf\u00fardia, acredita estar em uma situa\u00e7\u00e3o de superioridade e para afirmar sua cren\u00e7a, subjuga a mulher pelo uso da for\u00e7a. H\u00e1 algo em comum entre a viol\u00eancia sexual e a viol\u00eancia do tr\u00e2nsito: reafirma\u00e7\u00e3o de poder por quem o det\u00e9m somada a culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de buscar reverter distor\u00e7\u00f5es sociais que tornam aceit\u00e1vel a viol\u00eancia, o &#8220;vag\u00e3o rosa&#8221; simplesmente reafirma como natural\/normal a conduta violenta.<\/p>\n<p>Tr\u00eas frases escritas no texto &#8220;<a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/07\/21\/opinion\/1405949263_547794.html\" target=\"_blank\">Vag\u00e3o rosa, para n\u00e3o ser encoxada<\/a>&#8221; ajudam a definir o absurdo:<\/p>\n<blockquote><p>&#8211; Comete-se viol\u00eancia sexual contra as mulheres nos trens, segrega-se as v\u00edtimas. Seguindo essa l\u00f3gica, em breve poderia se propor que, nas ruas e espa\u00e7os coletivos, as mulheres passassem a usar burca. Assim, os homens n\u00e3o seriam \u201ctentados\u201d a cometer crimes sexuais.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; a culpada \u00e9 a v\u00edtima. Seja porque usou \u201croupas sensuais\u201d, seja porque \u201cse exp\u00f4s\u201d a uma situa\u00e7\u00e3o potencialmente perigosa.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>&#8211; A outra ideia fincada no imagin\u00e1rio de homens (e tamb\u00e9m de mulheres) \u00e9 mais interessante. As mulheres \u00e9 que s\u00e3o a amea\u00e7a. (E n\u00e3o aqueles que abusam de seus corpos e de suas almas.) Confina-se, cobre-se, esconde-se aquilo que nos envergonha e aquilo que nos coloca em perigo.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel fazer um paralelo claro com a situa\u00e7\u00e3o da bicicleta do tr\u00e2nsito e o abuso contido no discurso que pune ciclistas:<\/p>\n<p>&#8211; Em um tr\u00e2nsito violento, cabe aos mais fr\u00e1geis (ciclistas, pedestres etc) se protegerem\/serem protegidos;<br \/>\n&#8211; Cientes de sua fragilidade, os mais fr\u00e1geis podem ser culpabilizados por se exporem ao risco;<br \/>\n&#8211; O ciclista\/pedestre na rua precisa estar adequadamente equipado\/vestido j\u00e1 que sua simples presen\u00e7a \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 si mesmo e ao entorno.<\/p>\n<p>Naturalmente o Estado pode agir em defesa dos mais fr\u00e1geis com uma certa dose de segrega\u00e7\u00e3o vi\u00e1ria e redu\u00e7\u00e3o da velocidade dos motorizados. Mas n\u00e3o &#8220;por causa dos ciclistas&#8221;, tratados como v\u00edtimas e algozes da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o indefesa. Tornar vi\u00e1vel uma circula\u00e7\u00e3o nas ruas que seja compat\u00edvel com a vida humana \u00e9 justamente corrigir distor\u00e7\u00f5es que se tornaram culturalmente aceit\u00e1veis ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Da mesma forma o machismo precisa acabar n\u00e3o &#8220;por causa das mulheres&#8221;, mas tamb\u00e9m\u00a0para que o homem possa se libertar da figura do &#8220;macho-brucutu&#8221; e se permitir &#8220;deixar o motor em casa e caminhar&#8221;. Ou seja, a humaniza\u00e7\u00e3o das cidades \u00e9 tamb\u00e9m uma feminiliza\u00e7\u00e3o das ruas.<\/p>\n<p>A\u00a0opress\u00e3o assume v\u00e1rias formas, a mais comum delas \u00e9 o abuso verbal, e os ciclistas costuma receber alguns. Desde o &#8220;v\u00e1 pra ciclovia\/parque&#8221;, at\u00e9 o &#8220;use capacete\/luz\/luva&#8221;, ou seja, procure seu lugar &#8220;seguro&#8221;\/segregado e proteja-se do abuso dos outros com trajes\/acess\u00f3rios adequados.<\/p>\n<p>Por mais mulheres em mais bicicletas mais vezes e menos opress\u00e3o nas ruas, nos trens e em qualquer lugar.<\/p>\n<p>Leia mais:<\/p>\n<p>&#8211; <a href=\"http:\/\/ciclobsb.wordpress.com\/2014\/07\/22\/em-caso-de-apocalipse-nao-use-fone-de-ouvido\/\" target=\"_blank\">Em caso de apocalipse, n\u00e3o use fone de ouvido<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma nova lei estadual em S\u00e3o Paulo quer minimizar o ass\u00e9dio, t\u00e3o comum, sofrido pelas mulheres nos trens. 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