{"id":5840,"date":"2014-09-29T23:21:51","date_gmt":"2014-09-30T02:21:51","guid":{"rendered":"http:\/\/transporteativo.org.br\/wp\/?p=5840"},"modified":"2022-12-06T20:23:24","modified_gmt":"2022-12-06T23:23:24","slug":"um-pouco-de-antropologia-das-estradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=5840","title":{"rendered":"Um pouco de antropologia das estradas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_5843\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5843\" class=\"size-full wp-image-5843\" src=\"http:\/\/transporteativo.org.br\/wp\/blog\/uploads\/2014\/09\/bicicleta-na-estrada-projeto_transite.jpg\" alt=\"Bicicleta na estrada - Foto: Projeto Transite\" width=\"560\" height=\"200\" \/><p id=\"caption-attachment-5843\" class=\"wp-caption-text\">Bicicleta na estrada &#8211; Foto:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/96759246@N04\/15356291056\/\" target=\"_blank\">Projeto Transite<\/a><\/p><\/div>\n<p>O tr\u00e2nsito \u00e9 excelente fonte de boas pesquisas para entender um povo. H\u00e1 no comportamento de condutores, passageiros e pedestres um retrato fiel da natureza dos comportamentos sociais de uma cidade e um pa\u00eds. Infelizmente esse fen\u00f4meno, talvez por demais flu\u00eddo, seja pouco estudado.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel conhecer uma etnografia das estradas atrav\u00e9s dos impactos de sua constru\u00e7\u00e3o, reforma ou amplia\u00e7\u00e3o, mas est\u00e1 por ser feito um estudo sobre os comportamentos dos usu\u00e1rios desses espa\u00e7os e a maneira com que se apropriam dos caminhos. Um observador atento pode, no entanto, reparar em algumas pistas sobre como se d\u00e3o as intera\u00e7\u00f5es e como se mede a hierarquia de for\u00e7as.<\/p>\n<p>Fosse um fen\u00f4meno pouco comum, a &#8220;tomada da faixa da esquerda&#8221; em rodovias talvez passasse desapercebida, mas trata-se de um comportamento consistente com uma certa \u00e9tica de comportamento do condutor brasileiro. O &#8220;desejo de pot\u00eancia&#8221; \u00e9 t\u00e3o forte que se manifesta pela defesa aguerrida do direito de n\u00e3o ser ultrapassado, ou de querer ultrapassar a todos. Tal comportamento tem menos a ver com o tamanho do motor da m\u00e1quina e mais com um certo desejo de quem a guia.<\/p>\n<p>M\u00e1quina e gente fundem-se, a identidade humana fica transferida para as quatro rodas movida \u00e0 motor. Chega a ser quase inadmiss\u00edvel abrir m\u00e3o da pista de ultrapassagem, sinal de fraqueza ou de admiss\u00e3o da pr\u00f3pria impot\u00eancia. Na corrida das vaidades dos que pagaram \u00e0 vista ou parcelado o direito de uso da rodovia atrav\u00e9s de um autom\u00f3vel sobrevive apenas o sonho de exercer o pleno potencial do produto adquirido.<\/p>\n<p>Com a inevit\u00e1vel frustra\u00e7\u00e3o que a realidade propicia \u00e0 todos, condutores tornam-se ainda mais agressivos e buscam a velocidade a qualquer pre\u00e7o mirando um certo nirvana inalcan\u00e7\u00e1vel promovida na publicidade. Nos congestionamentos nas rodovias esse escape pode ser extravasado no acostamento ou em ultrapassagens pela direita. Seja qual for a conduta escolhida, o risco acelera na mesma medida e ajuda a evaporar o bom senso e atropelar as quase sempre desconhecidas normas de tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p><strong>Os usu\u00e1rios mais fr\u00e1geis nas rodovias<\/strong><\/p>\n<p>A l\u00f3gica rodoviarista de expans\u00e3o dos povoamentos ao redor das estradas traz tamb\u00e9m para al\u00e9m dos comportamentos de condutores, elementos externos \u00e0s rodovias. Mais invis\u00edveis do que dentro das cidades, pedestres e ciclistas praticamente tornam-se apenas borr\u00f5es na paisagem. O tratamento dado a quem deveria ser protegido vai da toler\u00e2ncia ao uso dos acostamentos, at\u00e9 placas de proibi\u00e7\u00e3o sem que sejam dadas condi\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o. Passam ainda pelos alertas de pontos de travessia, feitos por conta e risco dos pedestres. Al\u00e9m \u00e9 claro das sempre long\u00ednquas passarelas.<\/p>\n<p>Justamente no tratamento concedido por quem construiu e por quem opera as rodovias fica clara mais uma vez a conduta social aceit\u00e1vel quanto aos elementos mais vulner\u00e1veis. Comportamento que se replica de diversas maneiras, sempre tendo nos elementos mais fr\u00e1geis um certo &#8220;estorvo social&#8221;. Sejam os ciclistas e pedestres das comunidades cortadas por rodovias, cicloturistas, peregrinos ou atletas em treinamento. S\u00e3o tratados como problema ou pior, v\u00edtimas a serem responsabilizadas em caso de irresponsabilidade ou imprud\u00eancia dos condutores de motorizados.<\/p>\n<p><strong>Desafio civilizat\u00f3rio das estradas<\/strong><\/p>\n<p>Com cidades repletas de vias expressas, condutas de tr\u00e2nsito urbano s\u00e3o transplantadas para viagens de longa dura\u00e7\u00e3o, o ego\u00edsmo de ser o primeiro at\u00e9 o pr\u00f3ximo sem\u00e1foro se multiplica por centenas de quil\u00f4metros e a \u00e9tica, ou falta dela, que contaminou as condutas nos espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o urbana se agiganta nas rodovias.<\/p>\n<p>Nas cidades \u00e9 poss\u00edvel e desej\u00e1vel falar em humaniza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o, com ruas e avenidas capazes de se adequarem ao compartilhamento entre diferentes meios de locomo\u00e7\u00e3o. J\u00e1 nas estradas o desafio vai al\u00e9m da inser\u00e7\u00e3o e adequa\u00e7\u00e3o aos mais vulner\u00e1veis, passa por rever condutas ainda mais amplas da sociedade que construiu e ampliou estradas e rodovias para que fosse poss\u00edvel desfrutar da velocidade movida \u00e0 combust\u00e3o e pavimentada com muito asfalto.<\/p>\n<p>Humanizar cidades tem portanto um papel respeit\u00e1vel no combate a agressividade e mortalidade das estradas. Mas o desafio vai al\u00e9m, passa principalmente pela separa\u00e7\u00e3o entre pessoa e ve\u00edculo. \u00c9 preciso deixar claro que os sonhos e pot\u00eancias promovidas pela publicidade automobil\u00edstica s\u00e3o metas imposs\u00edveis de felicidade individualista, que se traduzem em riscos e irresponsabilidade cotidianas.<\/p>\n<p>Por fim, a promo\u00e7\u00e3o da civilidade como valor e o respeito \u00e0s minorias como\u00a0preceito\u00a0democr\u00e1tico fundamental s\u00e3o aprendizados futuros poss\u00edveis atrav\u00e9s de um estudo do que representam as condutas dentro e ao redor das rodovias e estradas brasileiras.<\/p>\n<p><strong>Outras leituras:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/www.aca-m.org\/w\/images\/c\/c6\/Na_berma_da_antropologia.pdf\" target=\"_blank\">\u201cGuerra nas estradas: na berma da antropologia\u201d <\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.routledge.com\/books\/details\/9781138803572\/\" target=\"_blank\">Roads and Anthropology &#8211;\u00a0Ethnography, Infrastructures, (Im)mobility<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.upenn.edu\/pennpress\/book\/14689.html\" target=\"_blank\">Landscapes of Movement &#8211;\u00a0Trails, Paths, and Roads in Anthropological Perspective<\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tr\u00e2nsito \u00e9 excelente fonte de boas pesquisas para entender um povo. 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