{"id":5872,"date":"2014-10-16T22:04:28","date_gmt":"2014-10-17T01:04:28","guid":{"rendered":"http:\/\/transporteativo.org.br\/wp\/?p=5872"},"modified":"2014-10-16T22:04:28","modified_gmt":"2014-10-17T01:04:28","slug":"quando-um-ciclista-e-o-atropelador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=5872","title":{"rendered":"Quando um ciclista \u00e9 o atropelador"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/transporteativo.org.br\/wp\/blog\/uploads\/2014\/10\/look_bikes.jpg\" alt=\"look_bikes\" width=\"560\" height=\"369\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5873\" \/><\/p>\n<p>A chance de um ciclista atropelar e &#8220;levar a \u00f3bito&#8221; um pedestre no tr\u00e2nsito \u00e9 \u00ednfima, mas nem por isso quer dizer que n\u00e3o aconte\u00e7a. E eis que aconteceu.<\/p>\n<p>Em uma movimentada avenida paulistana, ainda sem infraestrutura ciclovi\u00e1ria, um ciclista &#8220;em alta velocidade&#8221; atropelou um senhor de 90 anos que mais tarde veio a falecer em decorr\u00eancia dos ferimentos sofridos. \u00c9, como se define no jornalismo, o caso em que o cachorro morde o homem. Algo t\u00e3o raro que pelo ineditismo merece ser not\u00edcia. Assim foi.<\/p>\n<p>No tr\u00e2nsito urbano que temos hoje, as mortes de pedestres por ve\u00edculos motorizados s\u00e3o apenas estat\u00edsticas, raramente despertam interesse midi\u00e1tico e em geral produzem conte\u00fado que criminaliza o pedestre e isenta de responsabilidade os condutores que deveriam zelar pela seguran\u00e7a dos mais fr\u00e1geis. <\/p>\n<p>Exemplos de reportagens televisivas como o v\u00eddeo abaixo s\u00e3o recorrentes e chegam a ser a t\u00f4nica geral.<\/p>\n<p><iframe width='448' height='315' frameborder='0' marginheight='0' marginwidth='0' scrolling='no' src='http:\/\/player.r7.com\/video\/i\/5331759c1d4206bcb9002dd5?layout=wide252p'><\/iframe><\/p>\n<p>A conclus\u00e3o final do v\u00eddeo \u00e9 de que a responsabilidade \u00e9 &#8220;n\u00e3o s\u00f3 de quem caminha por a\u00ed&#8221;, mas do poder p\u00fablico que n\u00e3o fiscaliza as condi\u00e7\u00f5es das cal\u00e7adas. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso tamb\u00e9m &#8220;preservar as ruas e avenidas&#8221;. Nenhuma palavra sobre a imprud\u00eancia dos condutores de motorizados e nenhuma cr\u00edtica ao desrespeito comumente praticado e inclusive mostrado na reportagem.<\/p>\n<p>Com o senso comum que promove a culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, chega a ser ir\u00f4nico tratar como algoz das ruas um \u00fanico ciclista quando ele \u00e9 respons\u00e1vel por interromper uma vida. Mas \u00e9 exatamente o que aconteceu na reportagem sobre o <a href=\"http:\/\/videos.band.uol.com.br\/programa.asp?e=noticias&#038;v=15237677&#038;pr=\" target=\"_blank\">ciclista que atropelou um idoso.<\/a><\/p>\n<p><strong>Cultura do Medo<\/strong><\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com os prim\u00f3rdios da humanidade, nunca estivemos t\u00e3o seguros, ainda assim, vivemos dominados pelo medo. Um medo constru\u00eddo socialmente e que muitas vezes nos paralisa por completo. O medo da incontrol\u00e1vel &#8220;bala perdida&#8221;, o medo de sermos atropelados, o medo de ser morto por simplesmente pedalar nas ruas dominadas por carros. Para cada medo, uma ina\u00e7\u00e3o. Para cada cada ina\u00e7\u00e3o, a naturaliza\u00e7\u00e3o das condutas irrespons\u00e1veis que deveriam ser combatidas.<\/p>\n<p>Ao se falar sobre a viol\u00eancia contra a mulher, o senso comum quase busca incentivar cintos de castidade e burkas. Em rela\u00e7\u00e3o a bicicleta e ao pedestre, o comportamento \u00e9 t\u00e3o irracional quanto e as vitimas passam a ser as respons\u00e1veis pelas fatalidades que as acometem. Viola\u00e7\u00f5es, abusos e a irresponsabilidade dos causadores ficam em segundo plano, relegadas ao plano do esquecimento e taxadas de comportamentos &#8220;naturais&#8221; ou atitudes socialmente toler\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mulheres efetivamente sofrem com a viol\u00eancia machista e ciclistas se machucam e eventualmente s\u00e3o mortos nas ruas. No entanto, o que \u00e9 revers\u00edvel de maneira bastante simples \u00e9 a responsabilidade de cada um. A cultura do medo busca promover a l\u00f3gica de que o risco est\u00e1 na vulnerabilidade da bicicleta e que seu usu\u00e1rio deve buscar prevenir-se desses riscos, idealmente utilizando uma armadura ou pedalando apenas em parques e em locais isolados do tr\u00e2nsito motorizado.<\/p>\n<p>As ruas foram socialmente definidas como espa\u00e7o exclusivo de circula\u00e7\u00e3o motorizada ao longo do s\u00e9culo XX. A contesta\u00e7\u00e3o dessa constru\u00e7\u00e3o social \u00e9 dever de todos que acreditam que as mortes no tr\u00e2nsito, todas elas, s\u00e3o inadmiss\u00edveis. Quando todo atropelamento por motorizado for tratado como um epis\u00f3dio fora da normalidade, teremos progredido. At\u00e9 l\u00e1, \u00e9 preciso responsabilizar <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=5872\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[21,25,35],"class_list":["post-5872","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espaco-publico","tag-pedestre","tag-sao-paulo","tag-seguranca"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5872","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5872"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5872\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}