{"id":766,"date":"2010-02-08T00:23:13","date_gmt":"2010-02-08T03:23:13","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ta.org.br\/2010\/02\/08\/reinvencao-do-mundo-pedalando\/"},"modified":"2022-12-04T21:24:14","modified_gmt":"2022-12-05T00:24:14","slug":"reinvencao-do-mundo-pedalando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=766","title":{"rendered":"A reinven\u00e7\u00e3o do mundo, pedalando"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista Arthur Dapieve escreveu uma resenha sobre o livro &#8220;Di\u00e1rios de Bicicleta&#8221; que foi publicada no jornal O Globo em 11 de dezembro de 2009. Mais do que bicicletas, o livro de Byrne fala sobre cidades, pessoas, culturas. Tudo pela perspectiva de quem, por acaso, utiliza a bicicleta como seu principal meio de transporte terrestre.<\/p>\n<blockquote><p><strong>O Leonardo pop<\/strong><\/p>\n<p><em>Byrne reinventa o mundo pedalando<\/em><\/p>\n<p>David Byrne chegou \u00e0 capa da \u201cTime\u201d na edi\u00e7\u00e3o datada de 27 de outubro de 1986. Ele j\u00e1 n\u00e3o era nenhum novato _ os Talking Heads haviam sido formados onze anos antes _ mas a revista reconhecia mais que isso. Segundo ela, Byrne era um homem da Renascen\u00e7a no rock, um Leonardo Da Vinci no CBGB\u2019s por conta de seus m\u00faltiplos talentos: m\u00fasica, claro, artes pl\u00e1sticas, espet\u00e1culos de dan\u00e7a e, este o gancho, um filme, \u201cHist\u00f3rias reais\u201d.<\/p>\n<p>O diretor e co-roteirista viria dos Estados Unidos apresentar a sua obra no ent\u00e3o FestRio, semanas depois. \u201cHist\u00f3rias reais\u201d era uma alegoria travestida de document\u00e1rio. Ou vice-versa. O personagem de Byrne visitava a fict\u00edcia cidade de Virgil, Texas, como se tivesse acabado de chegar de Marte. L\u00e1, ele se inteirava de estranhos tipos humanos e de bizarras formas de organiza\u00e7\u00e3o social. Seu olhar era c\u00e2ndido, ir\u00f4nico, brilhante.<\/p>\n<p>Bem, reencontrei o homem da Renascen\u00e7a no melhor livro que li em 2009, \u201cBicycle diaries\u201d, blague de um velho latin\u00f3filo com \u201cDi\u00e1rios de bicicleta\u201d, de Che Guevara, levado ao cinema por Walter Salles. A capa dura vermelha da editora Viking protege o pedalar e o pensamento de Byrne por Berlim, Istambul, Buenos Aires, Manila, Sydney, Londres e um punhado de cidades americanas, em especial S\u00e3o Francisco e Nova York, onde este escoc\u00eas sossegou depois de passar a inf\u00e2ncia em Hamilton, Canad\u00e1, e a adolesc\u00eancia<br \/>\nem Baltimore.<\/p>\n<p>Aos 57 anos, Byrne pedala habitualmente por toda Nova York. Ele conta que j\u00e1 teve de se desviar de Paris Hilton, que atravessava a rua com o sinal vermelho para pedestres, o seu c\u00e3ozinho na coleira e a express\u00e3o \u201ceu sou Paris Hilton, voc\u00ea n\u00e3o me reconhece?\u201d na cara. Em viagem, ele carrega uma bicicleta dobr\u00e1vel, o que lhe permite sentir o clima com mais liberdade do que se estivesse de carro e mais abrang\u00eancia do que se andasse a p\u00e9.<\/p>\n<p>O escritor ingl\u00eas Will Self gosta de fazer quase o mesmo caminhando, \u00e0s vezes at\u00e9 do aeroporto ao centro de uma cidade. Em \u201cPsychogeography\u201d, de 2007, ele diz que aderiu a longas caminhadas \u201ccomo um meio de dissolver a matrix mecanizada que comprime o espa\u00e7o-tempo e desconecta o humano da geografia f\u00edsica\u201d. No cap\u00edtulo dedicado ao Rio, Self ganha o apelido de Hitler na vizinhan\u00e7a suspeita de seu hotel por carregar o pocket de \u201cAscens\u00e3o e queda do Terceiro Reich\u201d, de William L. Shirer, com uma su\u00e1stica na capa.<\/p>\n<p>O estilo de Byrne \u00e9 diferente do de Self. N\u00e3o apenas no meio de transporte. Se o ingl\u00eas \u00e9 gong\u00f3rico-misantr\u00f3pico, como sempre, o nova-iorquino \u00e9 cristalino-humanista. Pode-se ler \u201cBicycle diaries\u201d como uma sequ\u00eancia de posts num blog. Claro, um blog bem escrito e n\u00e3o-eg\u00f3latra, cujos tags seriam ciclismo, urbanismo, artes pl\u00e1sticas, arquitetura, m\u00fasica, hist\u00f3ria, sociologia, psicologia, antropologia. O homem da Renascen\u00e7a, lembre-se.<\/p>\n<p>Byrne articula esses posts n\u00e3o apenas por cidades _ algumas visitadas mais de uma vez no decorrer dos anos_ mas tamb\u00e9m por assunto. Cada cap\u00edtulo constitui um pequeno ensaio, com um tema central. O de Istambul, por exemplo, trata das tens\u00f5es entre Ocidente, representado por um festival de rock proibido, e Oriente na cultura turca. O de Sydney trata das hostilidades da natureza australiana com o ser humano, como se uma dissesse ao outro \u201cvoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 bem-vindo aqui\u201d, e do colonizador europeu com os nativos abor\u00edgenes.<\/p>\n<p>Ele descreve como o sapo-cururu, introduzido na Austr\u00e1lia para combater insetos nas lavouras, tornou-se ele mesmo uma praga, e uma praga cuja pele secreta um veneno que, em pequenas doses, causa del\u00edrios e, em grande doses, pode matar. Alguns c\u00e3es ficaram viciados em lamber sapos-cururus. \u201cPessoas tamb\u00e9m morreram por causa deles\u201d, escreve Byrne. \u201cPorque, como nos c\u00e3es, uma lambida num sapo-cururu pode estimular alucina\u00e7\u00f5es que duram cerca de uma hora, e alguns caras n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o espertos quanto c\u00e3es.\u201d<\/p>\n<p>S\u00e3o essas pequenas ilumina\u00e7\u00f5es, centenas delas, \u00e0s vezes zen-budistas, que tornam \u201cBicycle diaries\u201d t\u00e3o bom. Byrne \u00e9 um tr\u00eas-em-um: viajante n\u00e3o-etnoc\u00eantrico, observador inteligente e escritor habilidoso. Pegue-se o post do aviso na porta girat\u00f3ria da catedral de St. Paul, em Londres: \u201cEsta n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a casa de Deus. Este \u00e9 o port\u00e3o do Para\u00edso.\u201d Byrne se espanta com tamanha solenidade numa mera porta girat\u00f3ria e conjectura: \u201cAcho que diz isso de tr\u00e1s pra frente quando voc\u00ea est\u00e1 dentro.\u201d<\/p>\n<p>Na pesquisa para o estranho projeto de um filme que relacione Imelda Marcos e cultura discot\u00e8que, Byrne vai parar em Manila. Pedalando pela orla da cidade, ele se espanta com a quantidade de karaok\u00eas e toma conhecimento de que alguns filipinos reclamam para o pa\u00eds a inven\u00e7\u00e3o dessa modalidade de divers\u00e3o. A\u00ed vem a sacada: \u201cH\u00e1 at\u00e9 um canal de karaok\u00ea na TV. Infinitos v\u00eddeos baratos e cafonas com m\u00fasica tocando e letras rolando. Voc\u00ea pode ficar em casa e cantar junto com a sua televis\u00e3o. \u00c9 como algum tipo radical de obra de arte conceitual _ mas, diferentemente de arte conceitual, \u00e9 superpopular.\u201d<\/p>\n<p>\u201cBicycle diaries\u201d termina com uma s\u00e9rie de desenhos sugeridos por Byrne para novos biciclet\u00e1rios em Nova York. O homem da Renascen\u00e7a, lembre-se.<\/p>\n<p>*************<\/p>\n<p>\u201cDi\u00e1rios de bicicleta\u201d acabou de sair no Brasil, pelo selo Amarilys, da editora Manole, com pref\u00e1cio de Tom Z\u00e9. A vers\u00e3o brasileira, amarela, est\u00e1 t\u00e3o bonita quanto a americana, mas sobre a tradu\u00e7\u00e3o que apenas folheei qualquer coment\u00e1rio seria precipitado.<\/p><\/blockquote>\n<p>Relacionados:<br \/>\n&#8211; <a href=\"http:\/\/blog.transporteativo.org.br\/2007\/01\/10\/chute-carro\/\">Chute em um Carro<\/a><br \/>\n&#8211; <a href=\"http:\/\/blog.transporteativo.org.br\/2007\/07\/10\/vias-humanas\/\">Vias Humanas<\/a><br \/>\n&#8211; <a href=\"http:\/\/blog.transporteativo.org.br\/2007\/04\/25\/liberdade-propulsao\/\">A Liberdade da Propuls\u00e3o Humana<\/a><br \/>\n&#8211; <a href=\"http:\/\/blog.transporteativo.org.br\/2009\/04\/13\/dez-mandamentos-para-uma-cidade-melhor\/\">Dez Mandamentos para uma Cidade Melhor<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=766\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[134,33,44,23,141,18],"class_list":["post-766","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-buenos-aires","tag-cultura","tag-dicas","tag-na-imprensa","tag-resenha","tag-ser-ciclista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/766","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=766"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/766\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16815,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/766\/revisions\/16815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}