{"id":8614,"date":"2007-01-10T23:50:10","date_gmt":"2007-01-11T02:50:10","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.transporteativo.org.br\/2007\/01\/10\/chute-carro\/"},"modified":"2007-01-10T23:50:10","modified_gmt":"2007-01-11T02:50:10","slug":"chute-carro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=8614","title":{"rendered":"Chute em um Carro"},"content":{"rendered":"<p>[photopress:ChuteiumCarroWeb.jpg,full,centered]<\/p>\n<p>Num momento de f\u00faria um homem se vira contra a m\u00e1quina. Por achar uma quest\u00e3o relevante para seus leitores o personagem humano desse fato escreve uma coluna para o jornal e sai de f\u00e9rias.<\/p>\n<p>O pedestre \u00e9 o elemento mais fr\u00e1gil do tr\u00e2nsito e por isso a legisla\u00e7\u00e3o brasileira enfatiza que \u00e9 dever de todos protege-lo. A realidade nas ruas n\u00e3o costuma ser assim. Rotineiramente quem domina a m\u00e1quina mais pesada intimida os mais fracos.<\/p>\n<p>Seja por m\u00e1 f\u00e9, ou simples ignor\u00e2ncia, o motorista brasileiro em geral desconhece  seu dever de proteger a vida dos demais componentes do tr\u00e2nsito. Cabe sempre um alerta por parte dos mais fracos. Quanto mais educado, simples e direto, mais possibilidade de se obter sucesso em difundir o respeito.<\/p>\n<p>Em sua coluna mais recente, o jornalista Artur Dapieve dedicou o espa\u00e7o semanal que ocupa a quest\u00e3o da opress\u00e3o que passa o pedestre na rua e tamb\u00e9m como o tr\u00e2nsito pode ser um indicador de desrespeito c\u00edvico.<\/p>\n<p>Vale a pena conferir.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Chutei um carro<\/strong><br \/>\n<em>Na esquina de Ataulfo com Rainha Guilhermina<\/em><\/p>\n<p>Mas foi em legitima defesa. Eram 1h30m de s\u00e1bado, mais ou menos, e eu e minha mulher \u00edamos atravessar da cal\u00e7ada do Polis Sucos para a do Jobi. Embora estivesse vermelho para o tr\u00e2nsito, alguns motoristas avan\u00e7avam o sinal. Apontei pra cima, olhei em frente, como costumo fazer, e botamos o p\u00e9 na faixa de pedestres. Um carro branco insistiu em for\u00e7ar caminho. Passou na nossa frente, ao alcance do meu p\u00e9, e chutei a lataria.<\/p>\n<p>N\u00e3o forte o bastante para deixar mossa, mas chutei. O motorista solit\u00e1rio ficou olhando para tr\u00e1s e pelo retrovisor, conforme prosseguia pela Ataulfo de Paiva, em busca de mais leis de tr\u00e2nsito para infringir. Nem sei se ele entendeu direito o que aconteceu. E, como mostrou n\u00e3o saber a diferen\u00e7a entre verde, amarelo e vermelho, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que compreenda um c\u00f3digo bem mais complexo, como o alfabeto latino.<\/p>\n<p>O sinal estava vermelho para o tr\u00e2nsito, aquela esquina estava bem iluminada, e as ruas do Leblon estavam cheias de gente pelas cal\u00e7adas, festejando a iminente chegada de 2007 &#8211; apesar dos agourentos ataques terroristas patrocinados pelo tr\u00e1fico de drogas na v\u00e9spera. N\u00e3o era um cruzamento mal iluminado, ermo, amea\u00e7ador. Eu e minha mulher n\u00e3o us\u00e1vamos toucas ninja. E, ainda assim, o motorista avan\u00e7ou o sinal vermelho.<\/p>\n<p>Obviamente, aquela n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica esquina desta cidade a ter o sinal vermelho avan\u00e7ado, aquele n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico hor\u00e1rio em que se avan\u00e7a sinal vermelho nesta cidade e aquele n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico motorista desta cidade a avan\u00e7ar sinal vermelho. Da\u00ed o meu h\u00e1bito de apontar para cima e olhar em frente, enquanto atravesso a rua. No m\u00e1ximo, j\u00e1 abrira os bra\u00e7os ou dera uns tapinhas quase amistosos na lataria do infrator, tipo &#8220;vai, animal&#8221;. Talvez o pr\u00f3ximo est\u00e1gio da neurose urbana seja carregar um taco de beisebol.<\/p>\n<p>O motorista poderia estar armado, poderia ter descido do carro branco e e voc\u00ea poderia ter lido o meu breve obitu\u00e1rio na edi\u00e7\u00e3o de domingo, sim. E da\u00ed? O que isso provaria? Que \u00e9 mais s\u00e1bio botar o rabo entre as pernas enquanto b\u00e1rbaros avan\u00e7am sinais? J\u00e1 notou o absurdo de termos de ensinar \u00e0s crian\u00e7as que n\u00e3o basta esperar  o sinal ficar vermelho para o tr\u00e2nsito, mas que \u00e9 preciso esperar e ver se os carros est\u00e3o a fim de parar? Se nos acostumamos com uma indignidade cotidiana, nos acostumamos com todas as outras: pitbulls sem focinheira, seq\u00fcestro coletivo de avi\u00f5es, \u00f4nibus incendiados.<\/p>\n<p>Na nossa sociedade autoc\u00eantrica, heran\u00e7a maldita de Juscelino Kubitscheck, na qual a posse de um carro substitui um bom transporte p\u00fablico e\/ou uma vida sexual saud\u00e1vel, o tr\u00e2nsito \u00e9 o m\u00ednimo denominar comum da doen\u00e7a coletiva. Sintom\u00e1tico que, aqui, o pedestre tenha de deter o passo e deixar o motorista prosseguir. Afinal, vigora a lei do tr\u00e2nsito mais forte: \u00e9 apenas uma besta contra cem ou mais cavalos-vapor. Dos pa\u00edses que conhe\u00e7o, o nosso \u00e9 o \u00fanico onde o carro tem sempre a prefer\u00eancia informal.<\/p>\n<p>(Nisso, quem diria, Bras\u00edlia \u00e9 quase solit\u00e1ria exce\u00e7\u00e3o de respeito ao mais fraco no tr\u00e2nsito brasileiro. L\u00e1, o pedestre p\u00f5e o p\u00e9 na faixa e os carros ou reduzem a velocidade, ou para por completo. Bem, nalguma coisa Bras\u00edlia teria de n\u00e3o avan\u00e7ar o sinal&#8230;)<\/p>\n<p>Outro dia, ouvi de um colega o relato de um epis\u00f3dio emblem\u00e1tico de como o tr\u00e2nsito simultaneamente informa e macaqueia o confronto di\u00e1rio entre o p\u00fablico e o privado no Brasil. O carro \u00e0 frente do dele furou o sinal vermelho e arremeteu contra um grupo de colegiais uniformizados da rede municipal, diante do Miguel Couto. Dentro, iam papai ao volante, mam\u00e3e de carona e, no banco de tr\u00e1s, o filhinho do casal, com o uniforme de uma escola particular, seguro pelo cinto. Tremenda aula de sociologia.<\/p>\n<p>Essa flexibiliza\u00e7\u00e3o das leis de tr\u00e2nsito em benef\u00edcio pr\u00f3prio marca, talvez mais do que qualquer arcabou\u00e7o institucional, a dist\u00e2ncia entre uma democracia e uma republiqueta de bananas. Do mesmo modo que a ind\u00fastria automobil\u00edstica da qual emergiu o presidente Lula foi a matriz escolhida por JK para o desenvolvimento p\u00e1trio, a vista grossa para a infra\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito que ela trouxe a reboque \u00e9 a matriz do desprezo p\u00e1trio pelo Outro.<\/p>\n<p>Ao sermos tolerantes com o avan\u00e7o de sinal vermelho, com a fila dupla no meio da via, com o motorista que n\u00e3o d\u00e1 nem seta (e logo) nem satisfa\u00e7\u00e3o na hora de entrar numa rua, com o que buzina na frente do hospital, com aquele outro que estaciona com duas rodas sobre uma cal\u00e7ada estreita e obriga os carrinhos de beb\u00ea a contorn\u00e1-lo pelo asfalto, com o jogador de futebol que disputa um pega no seu carr\u00e3o importado e mata tr\u00eas jovens, estamos prontinhos para outras leni\u00eancias, em outras esferas da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Ora, quem n\u00e3o faz caixa dois, n\u00e3o \u00e9 esse o papo?<\/p>\n<p>Tudo isso, claro, \u00e9 uma racionaliza\u00e7\u00e3o <em>a posteriori<\/em> da minha madrugada de f\u00faria, que se renova enquanto escrevo. Mas sei que n\u00e3o chutei a lataria do carro branco apenas pelo que o seu motorista solit\u00e1rio de fato era: um infrator sem vergonha de desrespeitar o nosso direito de atravessar a rua na hora combinada e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sem vergonha de amea\u00e7ar a nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia pedestre. Chutei tamb\u00e9m o que ele, sem saber, simboliza: uma na\u00e7\u00e3o que se reiventa como desterro a cada troca de verde por vermelho.<\/p>\n<p><strong>*******<\/strong><\/p>\n<p>Como se l\u00ea, ando estressado. Preciso sentir um pouco de saudade da minha cidade. Por isso, estou saindo de f\u00e9rias. Retorno \u00e0 p\u00e1gina no dia 9 de fevereiro. At\u00e9 l\u00e1.<\/p><\/blockquote>\n<p>Publicado no Jornal O Globo no dia 5 de janeiro de 2007. Reproduzido com autoriza\u00e7\u00e3o do autor.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.experimenteoglobo.com.br\/flip\/index.php?playerType=double&#038;idEdicao=e1f030ad6fa4991ca194220e9472d32f&#038;idCaderno=73f623ca7d54cc1ec852a0e4d0e929e3&#038;page2go=7\">Clique aqui para ler a coluna<\/a> (usu\u00e1rios cadastrados).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num momento de f\u00faria um homem se vira contra a m\u00e1quina. Por achar uma quest\u00e3o relevante para seus leitores o personagem humano desse fato escreve uma coluna para o jornal e sai de f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Em sua coluna mais recente, o jornalista Artur Dapieve dedicou o espa\u00e7o semanal que ocupa a quest\u00e3o da opress\u00e3o que passa o pedestre na rua e tamb\u00e9m como o tr\u00e2nsito pode ser um indicador de desrespeito c\u00edvico. <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/?p=8614\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[33,20,31],"class_list":["post-8614","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-cultura","tag-noticias","tag-relatos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8614"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8614\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/transporteativo.org.br\/ta\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}