Pedalar nas ruas de uma grande cidade vale a pena?

 

Pedalar nas ruas em meio ao trânsito motorizado é uma atitude definida como “apocalíptica”, não importa o conforto, os riscos, vale apenas o prazer, a praticidade e a economia de ser veloz em meio aos congestionamentos constantes.

Pedalar por opção ou necessidade sob qualquer condição é levar consigo a vontade de mudança, apontar outro rumo em meio ao que está posto nas cidades. Usar a bicicleta é promover um outro mundo possível como uma bandeira que soluciona a crise urbana de mobilidade de maneira individual e em caráter imediato.

Pedalar é solução tão simples, prática e prazerosa que rotineiramente torna-se vício. Experimentar a bicicleta e incorporá-la ao dia-a-dia tende a ser viciante, as outras alternativas de mobilidade tornam-se, por comparação, mais lentas, desconfortáveis, caras e maçantes.

Quem pedala é capaz de seguir quase indefinidamente por exemplos pessoais e convicções íntimas sobre a viabilidade de pedalar. Faz parte do confronto direto imposto pelas pessoas ao redor que porventura ainda não pedalam. Talvez o comportamento de fé nas duas rodas movidas a pedal seja uma barreira invisível para que mais pessoas pedalem. Uma barreira construída pelos próprios ciclistas que pregam com argumentações construídas dentro do séquito pedalante.

Talvez seja possível entender o sentimento dos ciclistas quando se coloca em perspectiva o que representa outra alternativa urbana, essa mais normatizada, veículos motorizados. Desconstruir, amistosamente, o que representa a escolha de mover-se em uma carruagem puxada por motor a explosão é natural para qualquer ciclista. Mas quando esse desmonte de discurso é proposto para quem desconhece a bicicleta como alternativa de mobilidade, o debate toma outro rumo.

Pedalar é assumir a responsabilidade pelos próprios atos, é ser protagonista do próprio movimento. Quem vai de bicicleta necessariamente assume para si os riscos dos próprios excessos de velocidade, assume que se errar, será punido de acordo com a lei do asfalto áspero. Tudo que é feito em cima da bicicleta implica em consequências para quem é o motor da ação. Sem proteção ou isolamento, pedalar é portanto garantia de aprender que o bem estar de todos no trânsito é responsabilidade compartilhada e que acima de regras está a integridade de si e dos outros.

Face a irresponsabilidade e irrealidade da imagem vendida na publicidade automotiva, defender a necessidade de assumir os próprios erros é garantir uma sociedade mais honesta. Em cima de uma bicicleta, qualquer ilusão de ser maior do que si mesmo fica pelo caminho. A bicicleta é apenas um objeto, sua força é tão somente aquela de quem a propulsiona, não há quadro de carbono, leveza de material ou qualquer outra artimanha tecnológica capaz de prevalecer sobre a potência muscular humana do condutor.

O poder da bicicleta é justamente sua fragilidade e num tempo de tantas opressões e imposições de condutas e comportamentos, reconhecer-ser frágil e indefeso é tornar-se livre. E para responder a pergunta do título: sim, vale a pena. Vale tanto a pena que mesmo face as dificuldades facilmente indentificáveis, cada ciclista urbano é também embaixador e propagador do ideário da bicicleta.

Basta garantir um fluxo constante de novos ciclistas nas ruas, que se mantenham nas ruas, e os espaços públicos de circulação e convívio em nossas cidades serão melhores no futuro. Com mais pessoas em mais bicicletas, mais vezes.

Bicicleta, qualidade e quantidade

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Os benefícios qualitativos da bicicleta estão e sempre estiveram postos, é preciso agora buscar os quantitativos.

Cada pessoa que por si só toma a decisão de dar a primeira pedalada, representa uma vitória emblemática contra a inércia. Mas é justamente isso, uma vitória individual, um momento de inspiração e motivação que que inicia um novo ciclo. Pode ser apenas a ida até a esquina para comprar pão, um passeio na ciclovia ou o deslocamento até o trabalho. Há sempre a vitória contra todas as forças físicas que mantém a bicicleta e o ciclista parados.

Há forças que agem nos indivíduos e suas máquinas, e uma força ainda mais forte é aquela que mantém um grande número de pessoas no mesmo estado de movimento, paradas. Lidar com forças coletivas requer naturalmente impulsos individuais, mas não é algo que possa se basear só nisso.

São Paulo, mas também o Brasil e o mundo, vivem um momento fundamental de quebra de inércia coletiva. Cada cidade está em um estágio na construção do movimento revolucionário de expansão do uso dos espaços públicos pelas pessoas. A prioridade para a circulação humana é uma necessidade do nosso tempo, um desafio herdado do século XX e que precisa ser encarado coletivamente. E coletivamente só é possível haver mudanças tendo a bicicleta no cardápio de todos os que queiram usá-la.

A figura do ciclista urbano como o destemido aventureiro das ruas e avenidas brasileiras está, espera-se, com os dias contados. Quando pedalar for a opção mais gostosa, rápida e segura para qualquer pessoa, deixará de haver a divisão entre ciclistas apocalípticos e integrados. Voltaremos a ter cidades que cumprem sua função, servem aos que nela vivem.

É sempre bom lembrar que a inércia depois de vencida, tende a manter o movimento. Com a expansão de infraestruturas cicloviárias nas cidades brasileiras, o desafio deixa de ser a vitória contra a falta de ação e passa a ser um constante equilíbrio face as diversas resistências.

Terror, fuga e felicidade

A cidade de São Paulo mede os quilômetros de seus congestionamentos e eles costumam ser maiores quando antecedem feriados prolongados. Mas a cada 4 anos surge o fenomenal congestionamento pré-jogo do Brasil.

Logo na estréia o terror se impôs sobre quem depende da mobilidade urbana motorizada que se faz no asfalto. A fuga para a alegria e êxtase de acompanhar a estréia do Brasil na Copa do Mundo foi precedida pelo que mais próximo até hoje do “congestionamento final”, aquele em que finalmente as ruas da cidade se tornarão um único e gigantesco estacionamento.

Refém das grandes distâncias, o cidadão paulistano naturalmente evita o “congestionamento final”. As viagens se reorganizam e o fluxo segue nas ruas saturadas. O espaço restrito funciona como inibidor de vontade e muitos optam por deixar as carruagens guardadas ao invés de se somar a imobilidade na rua.

Essa foi a lição para o segundo jogo da seleção Brasileira. Em uma mesma segunda-feira a volta de um feriado prolongado se somaria a interdições viárias no centro da cidade e na zona leste. Além do Brasil nos gramados, haveriam também 22 em campo no Itaquerão e milhares de pessoas a caminho do estádio.

Novamente o terror tomou conta, o prefeito buscou decretar feriado municipal e o legislativo barrou a iniciativa. Mas o medo do maior congestionamento de todos os tempos exerceu seu papel e quase que por milagre a cidade fluiu.

Enquanto isso, a cidade de quem pedala segue imune ao terror e fuga. Todo ciclista cotidiano além de esbanjar felicidade no ir e vir diário (a famosa injeção de endorfina diária), é capaz de descobrir no restrito espaço urbano de circulação a alegria da liberdade. A rua além de meio de deslocamento é também espaço de lazer e a diversão cotidiana é poderosa.

O ciclista, por ser livre, não anseia pela fuga. Seja a fuga através do congestionamento nas estradas em feriados, seja a fuga para ir logo para casa assistir ao jogo do Brasil. Nesta simples constatação está parte do segredo subversivo da bicicleta.

Reescrever o espaço urbano das ruas é possível, pedalemos.

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Bicicletas e efemérides

Dia das mães, dos pais, dos namorados, Natal e tantas outras datas comemorativas ou feriados. Amamos efemérides, seja para comemorar, vender mais ou relembrar fatos históricos importantes.

A segunda sexta-feira do mês de maio ficou definida no Brasil como o dia “De bike para o trabalho”, uma adaptação do “Bike to work day”, invenção da Liga de Ciclistas Estadunidenses no ano de 1956, parte das festas do mês da bicicleta.

No Brasil a data é promovida pelos BikeAnjos e por isso tem como grande propósito oferecer aquela dose gratuita, voluntária e colaborativa de bicicleta no dia a dia de quem ainda não pedala sempre.

Escolher uma data em que muitas pessoas farão algo juntas é, pelo amor humano às efemérides, um hábito socialmente difundido. Os estigmas brasileiros tradicionalmente associados a bicicleta: esporte e transporte para quem não tem dinheiro, podem ser desconstruídos na prática. Quem pedala por lazer acaba por descobrir o quanto é mais simples e agradável incluir a bicicleta no dia a dia e livrar-se do stress e dos congestionamentos urbanos.

Mais do que datas, o objetivo é ter mais pessoas em mais bicicletas, mais vezes. Ou, na definição desse cientista, ter uma massa crítica capaz de mudar nosso coletivo coletivo rapidamente.

O objetivo final portanto é “naturalizar” a bicicleta nas cidades e para isso é possível pensar em um número fundamental com base no vídeo acima, 10% da população. Hoje apenas algumas cidades brasileiras apresentam índice próximo a dez porcento das pessoas em bicicleta. Tornar realidade essa massa transformadora requer portanto um esforço coletivo enorme de quem hoje promove a bicicleta.

Ir de bicicleta ao trabalho um dia é certamente uma pedalada à frente no caminho para reconstruir o entorno. Primeiro o neo-ciclista irá perceber o ambiente e irá logo em seguida perceber as inconsistências e inadequações da cidade. Idealmente quem enxerga a bicicleta e sente a importância delas para sua cidade irá ser favorável a mudanças e quem sabe até envolver-se diretamente nas transformações necessárias.

Nem todos irão de bicicleta todas as vezes a todos os lugares, mas uma cidade onde 10% da população usa a bicicleta é uma cidade em que as magrelas são parte da paisagem e por isso mesmo o ambiente urbano torna-se adequado a seres humanos.

Pedalemos pois, ao trabalho, à escola, ao lazer à padaria, ao mercado e aonde mais for da vontade de cada ciclista.