Audax 200 km Niterói – Saquarema – Niterói

Percorrer 200 km de bicicleta dentro do tempo de 13 horas e 30 minutos, equivalente à velocidade média de 15 km/h, pode não parecer uma atividade saudável, agradável ou mesmo útil, visto que a chegada é no mesmo local da largada. Mas o gosto pela mobilidade por bicicleta pode transformar uma prova de Audax, um tipo maratona não competitiva promovida em todo o planeta, num dia único, para os que souberem aproveitá-lo.

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Foto: Gustavo

Quando um grupo de amigos percorreu um trecho do trajeto da prova algumas semanas antes, puderam perceber quão dura poderia ser a viagem e também que o companheirismo ajudaria a amolecer as dificuldades. Que pedalar em grupo é ótimo ninguém nega, mas que tal percorrer 170 dos 200 km do tal Audax num grupo de 4 amigos, que juntos enfrentaram o dia mais quente do ano no Rio de Janeiro, paralelepípedo, terra, vento contra e até uma estrada movimentada à noite?

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Foto: Bruno

Na manhã do dia 10 de março deste ano 37 ciclistas de quatro estados alinharam pra largada do Audax 200 km Niterói – Saquarema – Niterói e treze horas e meia depois, 34 haviam completado o percurso. Qualquer veículo a propulsão humana pode participar de uma prova de Audax e isto inclui, patins, skates e patinetes, mas a bicicleta é unanimidade visto que é mais eficiente para este tipo de desafio.

Após uma manhã inteira de pedaladas administrando o calor, a poeira, os buracos, a preocupação com o trajeto, a localização e horário dos Postos de Controle e a ansiedade pela metade final da prova, chegamos a Saquarema para o almoço. Quase todos almoçaram no mesmo lugar e parecia mesmo um grande passeio entre amigos. Só parecia, pois depois do almoço as mesmas dificuldades da ida estavam bem piores na volta. Só as belas paisagens ainda eram as mesmas.

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Foto: Bruno

Foi aí que os 4 amigos puderam vivenciar um Audax diferente de quem pedalava sozinho, pois a esta altura já estavam num ritmo semelhante e decididos a ir juntos até o fim. A bicicleta aproxima as pessoas e deve ser por isso que tantos amigos ou conhecidos decidem enfrentar a estrada juntos. Pedalar em grupo é ótimo e ninguém nega, mas percorrer 170 dos 200 km do Audax num grupo de 4 amigos enfrentando asfalto, terra, paralelepípedo, vento contra, o dia mais quente do ano e chegar à noite, em último, cruzando a linha de chegada lado a lado é inesquecível.

Bicicleta na estrada

Muitos usuários da bicicleta como meio de transporte acabam, mais cedo ou mais tarde, caindo na estrada com a magrela. Uma viagem turística ou apenas de deslocamento soa, para muitos, como loucura. É verdade que a velocidade dos veículos automotores é muito maior nas estradas e os acidentes costumam ser graves. Porém há estradas e estradas. Parte do processo de viajar de bicicleta inclui o planejamento das distâncias, paradas e a escolha da rodovia. Estradas secundárias com acostamento e pouco trânsito são as mais seguras e prazerosas aos que viajam a pedal. Mesmo estradas principais podem ser uma boa escolha quando já conhecidas pelo ciclista por sua tranqüilidade e pela sinalização.

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Rodovia Santos Dumont (Rio – Teresópolis).
Foto Edu

Um atrativo a mais é a solidariedade que se pode encontrar na estrada, principalmente de caminhoneiros, que ao entenderem que aquela bicicleta com alforjes está sendo usada numa viagem se identificam com o ciclista que tem gosto pela estrada. A bicicleta, aliás, é muito mais querida na estrada do que na cidade e é um cartão de visita capaz de quebrar barreiras de comunicação e aproximar as pessoas do viajante.

Para quem quer começar a dica é escolher estradas mais calmas e procurar um companheiro mais experiente. Depois é só curtir os finais de semana em viagens curtas no entorno de sua cidade.

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Estrada secundária na região de Vassouras RJ.
Foto Edu

Se o ciclista já estiver acostumado com a sua bicicleta pode experimentar uma viagem curta sozinho, se bem planejada será uma viagem memorável. Quando já estiver mais tarimbado pode começar a se aventurar em viagens mais longas, com alguns dias de duração e por lugares inóspitos onde o contato com a natureza e o auto-conhecimento são ainda maiores. Para isso o planejamento deve ser ainda mais detalhado e a companhia de amigos já conhecidos de outras pedaladas é muito importante pra concluir a viagem sem aborrecimentos e com boas histórias e fotos para mostrar.

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Travessia da Praia do Cassino no Rio Grande do Sul.
Foto Marcelo Kulevicz Bartoszeck

> Saiba mais em: www.clubedecicloturismo.com.br

Inclusão Social sobre Duas Rodas

O último passeio noturno de uma loja de bicicletas no Rio de Janeiro teve uma novidade socialmente engajada. O deficiente visual Geraldo, 52 anos, interno da Associação Aliança dos Cegos participou pedalando. O feito é fruto de uma parceria da loja com Pedro Zöhrer, projetista de reclinadas que tem entre seus produtos um modelo tandem. Trata-se de uma bicicleta para duas pessoas, gentilmente cedida para a ocasião.
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Ao piloto da magrela de 2,50m e 26 kg coube a importante missão de conduzir o co-piloto com segurança nos cerca de 30 km pelas ciclovias da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Para agradável surpresa de todos os presentes ao passeio Geraldo não só se adaptou rapidamente às pedaladas como fez todo o trajeto sem demonstrar cansaço, desconforto ou sensação de insegurança. O tamanho e o peso do conjunto não são um problema na hora de pedalar, mas em meio a outros 50 ciclistas havia um receio, não confirmado, de que ocorresse algum choque com outro participante.
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O novo ciclista adorou a experiência e não parava de repetir que isso devia estar sendo filmado. Pela experiência bem sucedida a noite agradável, própria para um passeio ciclístico ganhou cores, sons, odores e sensações especiais tanto para os que enxergam quanto para o novo amigo e colega de pedaladas.
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Piloto, co-piloto e Thiago, responsável por juntar esta equipe.

Cicloviagem Rio-Resende

O Natal dos Membros da Transporte Ativo foi marcado por muitos quilômetros de estrada. Naturalmente em bicicleta.

Confiram o relato pessoal do Eduardo.

Cicloviagem

A cicloviagem Rio – Resende foi intensa. Confesso que fui inundado por uma confusão de pensamentos e sensações. Ao mesmo tempo que me surpreendi comigo e com a Zöhrer EXD 20×26, também me decepcionei um pouco. Eu já sabia que seria uma experiência de aprendizado com muito conteúdo e em pouco tempo. Cheguei a ficar com dor de cabeça de tanto que o cérebro funcionou durante e após a viagem.

A instalação do bagageiro traseiro atrasou muito, mas valeu a pena. O Paulinho (Diamond Bike) me entregou a EXD em casa com uma adaptação muito bem feita na minha avaliação. Mas esqueceu de trazer meu capacete que eu tinha deixado na loja dele (eu também não pedi). Sem condições de ir buscar (eram 22 horas) consegui um emprestado, mas que não tinha viseira, o que me fez adaptar um boné por baixo, fundamental para conter o sol que faria. A adaptação ficou ruim e fui assim mesmo, uma hora atrasado em relação ao meu planejamento. Às 6:30 estava no portão de casa. Ao chegar na Praia de Botafogo decidi ir pela ciclovia, pois já era dia e qual não foi minha surpresa ao achar, na passagem subterrânea, uma viseira de capacete perfeita para o capacete que tinha. Surreal!

Outra grata surpresa do tipo que te incentiva a encarar o desafio. Nunca consegui regular o câmbio traseiro da EXD e nesse dia ele funcionou perfeitamente.

Não tive nenhum problema mecânico, apenas uma situação mecânica. A trepidação na Avenida. Rodrigues Alves perto do Rodoviária foi tão violenta que a corrente escapou da polia e eu só fui notar na Dutra uns 30 km depois.

Até a Serra das Araras a relação com a EXD foi de Lua-de-Mel. Mantendo 24 km/h de média e fazendo um sucesso danado por onde parasse e por toda a estrada. Cheguei a perder o equilíbrio acenando pra dois motoristas que me saudavam. Há que se abrir um parênteses. A bicicleta é, definitivamente uma forma de unir as pessoas. Foram tantas as pessoas que acenavam, buzinavam, aceleravam e gritavam frases ininteligíveis que depois da trigésima perdi a conta. O fato de estar num veículo diferente contribuiu muito e acho que esse é um forte ponto positivo da EXD na estrada. Acho que é até mais seguro. Tanto que depois da segunda parada em postos, quando fui cercado por curiosos decidi só parar de novo num deles se fosse realmente necessário, afinal de contas me preocupava demais o fato de ter saído uma hora atrasado. No Belvedere fiquei parado uma hora e não consegui sossego por mais de 10 minutos.

O caldo engrossou a partir da subida da Serra das Araras. Juntando minha falta de preparo específico para reclinadas e um possível ajuste ergonômico ruim (confesso que nem avaliei se tava certo ou não) meu desempenho caiu muito. Em qualquer subidinha só conseguia atingir 7 ou 8 km/h. A partir da serra, no km 98 de uma viagem de 185, começou o drama. Freqüentes subidas e muito lentas, as descidas, efêmeras, resultaram numa viagem fisicamente dedicada a escalar.

Numa dessas ladeiras o sol, até então, tímido e escondido nas nuvens surgiu forte e experimentei a conhecida e desagradável sensação de coração batendo no pescoço, muito suor e um calor muito forte. Ciente de que muitos atletas tem problemas sérios com o aumento da temperatura corporal, tratei de parar logo e mais uma vez fui brindado com um incentivo. Há barracas de frutas na Serra das Araras que canalizam um filete de água de algum riacho próximo e instalam uma mangueira na beira do acostamento. Me salvei em duas ou três delas ao longo da subida.

Cicloviagem

Minha maior motivação estava atrás. Pelo espelho controlava a aproximação dos ônibus da Expresso Brasileiro. Às 14:20 vi um deles se aproximando. Era o 512 que minha esposa Carol tinha me avisado ser o ônibus dela.

Parei e comecei a acenar. Vi a Carol me acenando e me emocionei de verdade… O motorista piscou os faróis, buzinou, acionou os piscas em saudação e não parou. Ela passou por mim e eu estava tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Nos 20 km seguintes pedalei sem ânimo. Já não respondia aos cumprimentos dos passantes e pra piorar surgiu na minha frente uma das ladeiras mais longas e íngremes. O calor ia me torturar, mas eis que outro incentivo me surpreendeu. Começou a chover, não muito, mas o suficiente pra renovar o ânimo e as forças. Subi a 8 km/h.

Próximo de Resende, já no final da tarde, mais chuva. Foi depois que parei na casa de parentes da Carol em Floriano, a 20 km do meu destino. Uma boa pancada de chuva cai como um bálsamo e alivia a tensão e o cansaço, mas nessa hora surgiu uma dor chata nos joelhos que só parou na noite de domingo. Juntando uma dor bumerangue no cotovelo direito e a certeza de que meu preparo está aquém do desejado e imaginado.

Sem treinar e sem adequar a ergonomia da EXD a mim, não rola.

Cicloviageme]

Resumindo: 185 km em 12 horas, das quais 9 pedalando, 20 km/h de média, 58 de máxima, nenhum problema mecânico, algumas dores, mas muito o que aprender e muito a treinar. Talvez seja essa uma das maiores lições que uma cicloviagem traz pro nosso cotidiano. Não importa o quanto saibamos, sempre temos algo a aprender.

Um grade abraço

Edu

Outra coisa: viajar sozinho é bom, mas dá próxima uma companhia cai bem.

Viajar de Bicicleta

Fui infectado pelo vírus da viagem de bicicleta ao ler “No Guidão da Liberdade”, de Antônio Olinto, 286 páginas, Edição Independente, 1993.
Em julho de 2000 tive um ataque agudo deste vírus. Fazia um estágio em Ubatuba – SP e levei minha Caloi 18 marchas numa loja de bicicleta. Saí de lá com bagageiro, cestinha, garrafinha e tratei de enchê-los de comida e bebida no primeiro supermercado. Ainda anestesiado pela força que a realização de um sonho nos dá, creio que só dormi por obra divina.
Quando as rodas tocaram a estrada rumo a Parati, um misto de euforia, felicidade e apreensão tentavam me dominar. Minha preparação foi bem deficiente, mas toca pra frente.
Aquela estrada foi feita para cruzar de bicicleta ou a pé, pois só assim é possível ouvir as ondas quebrando na praia e os pássaros cantando na mata ao lado.
Decidi cumprimentar todos que cruzavam o meu caminho, foi o diferencial da viagem. Só se conhece um caminho se for devagar e se falar com as pessoas. A pé, de carro, moto, ônibus e em bicicletas acenei para todos. Surpresa: poucos não responderam. Motoristas piscavam faróis, motociclistas em potentes máquinas aceleravam em ponto morto e os que estavam a pé até perguntavam como eu estava!
Nunca na vida falei com tanta gente desconhecida e aquela que seria uma viagem em solitário ficou longe disso. Se alguém ainda duvida eu posso afirmar: a bicicleta aproxima as pessoas.

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Bicicleta, veículo convidativo.