Era cedo e caí da cama para ir ao trabalho. Uma névoa fria dominava São Paulo e o trânsito de carros estava congestionado. Meu caminho normal é descer até o Rio Pinheiros. Seguia ladeira abaixo pela Cardeal Arcoverde, trânsito parado, cruzei o sinal amarelo no corredor dos carros. Passei a faixa de pedestres e fiquei mais tranquilo.
Ainda com a mão no freio vi um homem entre os carros. Nada que eu pudesse fazer evitaria o choque. Freiando calculei a melhor maneira de acertar minha “vítima” sem machucar a mim, nem a ele nem tão pouco a bicicleta. Não sei se o guidão acertou o corpo dele, mas senti o impacto no meu corpo. O freio deu para reduzir bastante a velocidade e não caí da bicicleta.
Parei menos de um passo depois do pedestre, no meio da rua, culpado e preocupado de te-lo machucado. Ele sorria nervoso, reconheceu o risco de atravessar em meio aos carros em uma cidade como São Paulo, onde um fluxo paralelo sobre duas rodas flui entre os automóveis. Para sorte minha e dele eu estava de bicicleta. Apenas 12 quilos de metal mais 70 kilos de carne e ossos. Seguimos nossos caminhos. Ele rumo à calçada e eu pelo mar de motores parados ou quase parados.
Reavaliando o choque, foi realmente quase engraçado. Estava mais para um esbarrão no meio da rua entre dois seres humanos do que um atropelamento propriamente dito. Ambos soubemos de antemão do choque inevitável, nos preparamos para ele. O pedestre se encolheu eu reduzi a velocidade e joguei meu corpo contra o dele.
Uma cidade é melhor quando as pessoas se cruzam por acidente sem que uma machuque a outra. Assim foi mais esse choque entre humanos.

