Uma Polêmica Reversível

O trânsito motorizado no eixo viário que liga a praia de Botafogo a Lagoa no Rio de Janeiro para por completo durante o pico de fim de tarde. Automóveis e ônibus movem-se lentamente. As motocicletas trafegam com enorme dificuldade. Apenas ciclistas são capazes de seguir devagar e sempre em meio ao enorme engarrafamento.

Equacionar esse problema é desejo da administração municipal, dos moradores da região e de todos que passam por lá. Como medida para desafogar o trânsito a Prefeitura implantou uma faixa reversível com 530 metros de extensão no sentido Botafogo-Lagoa. A medida visa facilitar o escoamento de automóveis, mas já chegou coberta em polêmica.

No primeiro dia um atropelamento, congestionamentos no sentido oposto e desaprovação por parte dos moradores. Faixas reversíveis são comuns na cidade. Funcionam no sentido centro pela manhã e na direção oposta durante o pico da tarde. Elas trouxeram benefícios para a fluidez motorizada, mas não ajudam a equacionar o problema dos congestionamentos na cidade.

Para fazer o carioca ir e vir com mais facilidade, a Prefeitura precisa pensar além dos automóveis. A mobilidade deve estar ligada ao fluxo de pessoas, a capacidade de transportar cidadãos de casa até o trabalho de manhã e no retorno ao lar no fim do dia. Dentro dessa lógica, criar facilidades para o trânsito do carro particular irá apenas dificultar o cotidiano de todos.

Moradores reclamam com razão dos transtornos trazidos pelo excesso de congestionamentos. São os que mais perdem em qualidade de vida por terem engarrafamentos gigantescos na porta de casa. Para garantir a qualidade de vida dos moradores da região e dos que precisam cruzar o bairro de Botafogo, a Prefeitura do Rio de Janeiro deve trabalhar em favor dos cidadãos, criando facilidades e opções para que as pessoas possam optar pelo transporte público, pela bicicleta ou até ir a pé.

Faixas exclusivas para ônibus, calçadas melhores, e a inserção da bicicleta no trânsito irão beneficiar a todos e colocar o Rio de Janeiro no rumo certo para equacionar o problema dos congestionamentos.

 

Sobre Construir Cidades Verdes

Prédios verdes e arquitetura sustentável são termos atualmente em voga. Mas construir novas estruturas com a mais alta tecnologia talvez não faça de nossas cidades ambientes sustentáveis e menos danosos ao planeta.

Alguns urbanistas e planejadores já apontam como os efeitos do aumento da “mancha urbana” das cidades européias tem causado danos. Mais do que isso, o aumento das grandes conurbações na Europa não tem sido causado pelo crescimento da população, mas sim por uma diminuição na densidade nas cidades.

Essas preocupações foram divulgadas na III Conferência Internacional de Mudanças Climáticas e Desenho Urbano em Oslo. Afinal, o crescimento das cidades gera enormes emissões de gases do efeito estufa além de agredir ambientes naturais e terras agriculturáveis.

Fazer prédios sustentáveis pode acabar sendo a “parte fácil”. A maior dificuldade está em criar ambientes densos, na escala humana em que a população possa se deslocar a pé ou de bicicleta e tenha transporte público com qualidade.

A solução pode ser traduzida para realidade brasileira, afinal o Estatuto das Cidades estabelece a obrigatoriedade das cidades brasileiras acima de 20 mil habitantes terem o seu Plano Diretor. Ele é um: “instrumento básico para orientar a política de desenvolvimento e de ordenamento da expansão urbana do município.”

Afinal, só através de um planejamento organizado, a longo prazo e de acordo com as necessidades e desejos da população é possível construir comunidades agradáveis de se viver. E um ambiente agradável é fator fundamental para uma cidade sustentável.

Mais:
Via TreeHugger.
The New Urbanists: Tackling Europe’s Sprawl

Sobre a Necessidade do Verde

A Organização Mundial da Saúde estabelece que cada cidade deve ter ao menos 12 metros quadrados de área verde por habitante. Os números são frios e não explicam porque cada cidadão deve ter um mínimo de verde para chamar de seu.

Por mais que muitas pessoas sejam reticentes em admitir, somos apenas mais uma forma de vida que habita esse planeta. Moramos em cidades há muito pouco tempo, por volta de 5 mil anos. Enquanto demoramos centenas de milhares de anos para evoluirmos em meio a natureza. Dentro dessa lógica portanto, a cidade não é nosso habitat. Trata-se apenas de uma maneira conveniente de vivermos, face ao número enorme de seres humanos no mundo.

Cidades são de certa forma nosso zoológico. Dependem de alimento vindo de fora e apresentam uma densidade populacional sem precedentes e impossível de ser repetida na natureza. Sendo um zoo, temos de mimetizar alguns aspectos do mundo natural que não encontramos normalmente.

Parques e áreas verdes são agradáveis por um motivo bem simples, nos levam as nossas reais origens. Áreas verdes tem um valor por si só, mas tem também o valor utilitário de trazer prazer aos moradores de uma cidade. Um prazer ancestral que remete ao que realmente somos.

Qualidade de vida não é um dado objetivo, medido com uma régua, no entanto, pode-se trabalhar para sua melhoria. Pacientes efermos recebem alta mais rápido em hospitais com vista para o verde. Esse dado deveria ser levado em conta também no planejamento urbano. Uma população mais saudável objetiva e subjetivamente precisa ter contato com a natureza, seja em parques urbanos ou florestais. Afinal, áreas verdes nos fazem mais felizes e ao mesmo tempo garantem nossa saúde. Parques são “externalidades positivas“, um bem de valor inestimável.

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Paulistanos carentes de áreas verdes – O Eco

Integrar-se à Cidade

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Cidades são aldeias sem fim, um horizonte de prédios cercados por ruas e avenidas. Mas o que dá vida a esse ambiente construído são as criaturas responsáveis por todas as construções.

As pessoas que caminham na ruas, que moram e trabalham nos prédios são o elemento visível e mais importante para garantir a alegria e a qualidade de uma cidade. Muitas vezes somos levados a solidão e ao afastamento e tudo ao redor se torna pouco amistoso.

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Mas o mesmo asfalto que isola e impermeabiliza o solo é quem ajuda a pavimentar o caminho da própria cidade e encurta distâncias. Basta pedalar no asfalto liso, desbravar cada rua. Conhecer o melhor e o pior caminho. Sentir os cheiros, aproveitar as melhores correntes de vento, as sombras mais especiais. Durante a noite ir pelos caminhos escuros na busca pelo silêncio perdido, ou perder-se nas luzes, acima, abaixo e por todos os lados.

Nossa cidade é o que fazemos dela e será cada dia melhor quanto mais soubermos saber estar e não apenas cruzar por tudo como passageiros. A bicicleta é um pouco da mudança que queremos ter. O veículo ideal para sentir-se parte do ambiente que nos circunda.

Se Essa Rua Fosse Minha

Talvez não pusesse ladrinhos na minha rua, mas certamente ela seria aberta apenas aos meios silenciosos de transporte.

Pedestres e ciclistas teriam prioridade se essa rua fosse minha.

Nessa rua, se apenas ela fosse minha, as calçadas seriam uma extensão das lojas e das casas. Lugar convidativo aos passos leves. Nada de trotes apressados.

Tudo isso apenas se essa rua fosse minha. Mas parece que ela vai deixar de ser.

As obras de expansão do Metrô de São Paulo seguem seu ritmo. Por conta disso a interdição da rua Fradique Coutinho irá terminar. Até hoje, somente ciclistas e pedestres podiam acessar a rua dos Pinheiros. No lugar do asfalto para a circulação motorizada, um grande canteiro de obras. Os buracos foram tampados e voltou reluzente o asfalto.

Essa rua deixará de ser minha. Deixará de ser silenciosa para quem nela mora, deixará de ser tranquila e de interesse apenas para quem quis estar nela. Virará mais um local de passagem, mas eu vou continuar passando por ela.

Ah mas se ela fosse minha…

Livremente inspirado na cantiga popular “Se Essa Rua Fosse Minha“.

Vale conferir o vídeo abaixo com intervenções em uma outra rua, que também não é minha, mas é humana e alegre.