Velha Mobilidade

A humanidade está sempre caminhando rumo ao que se convencionou chamar de progresso, no entanto, um dos princípios básicos dessa jornada são as tentativas e erros. Muitas vezes algo que se mostra como uma solução, acaba sendo um equívoco depois.

O transporte urbano no começo do século XX era em grande parte, tracionado por cavalos. Uma série de problemas eram gerados em virtude dessa falta de diversidade na mobilidade das cidades. Por ruas mais limpas, surgiu o automóvel que não gerava fezes e não produzia o mal cheiro, como os cavalos.

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Avenida Rio Branco, Anos 50 – Foto “O Cruzeiro”

Via André Decourt.

Aproximadamente 50 anos foram necessários para que a supremacia do automóvel se tornasse um problema. Os efeitos malévolos de um planejamento urbano equivocado, produziram o que hoje se define como “Velha Mobilidade”. A expressão pode ser traduzida por ficar parado no engarrafamento, ou em um ponto de ônibus em dia de chuva, enquanto investimentos pesados continuam a ser feitos em infra-estrutura viária que privilegiam a mobilidade individual motorizada.



Avenida Rio Branco
Foto de alex robinson.

O século XXI já tem sido marcado pela intensificação de um processo ainda recente, mas que balizará o futuro dos transportes. São dois conceitos: Transporte Sustentável e Agenda da Nova Mobilidade. O primeiro visa moldar as políticas ambientais e de meio ambiente. O segundo conceito visa trabalhar a oferta de idéias sustentáveis que possam ser aplicadas. Cidades mais humanas serão construídas através de uma visão sistêmica, diversidade, participação de todos e amplo alcance. Tudo somado a uma vasta rede de parcerias, interações e colaboração sinergética.

Os ambientes naturais são ricos em diversidade para garantir a sua sobrevivência. Certamente a jornada evolutiva humana irá seguir os mesmos moldes. Na ótica urbana, isso quer dizer que deveremos cada vez mais ter ambientes ricos e diversos com inúmeras possibilidades habitacionais e de deslocamento para a população.

A Velha Mobilidade em Vídeo:

  • Mais informações (em inglês):
  • Vídeos sobre Velha Mobilidade.
    Agenda da Nova Mobilidade no wikiVelha Mobilidade.

    O Não Transporte

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    Foto Zé Lobo

    Uma tese apresentada em maio de 1989 no VII Congresso Brasileiro de Transporte Público continua atual. As idéias partiram da Comissão de Circulação e Urbanismo da Associação Nacional de Transporte Público – ANTP, a tese: “Não Transporte: a reconquista do espaço tempo social”.

    A tese defendia a idéia da redução das viagens motorizadas como solução para o deslocamento sustentável. Ao invés de vias ociosas nos horários de pico no contrafluxo, defendiam-se as mãos horárias, isto é, nos horários de pico, vias de mão dupla teriam todas as pistas funcionando num único sentido, acabando com a ociosidade no contrafluxo. Defendiam-se bairros com mais autonomia nas atividades de trabalho e cotidianas, através da descentralização de unidades públicas, industriais e comerciais, evitando assim o deslocamento das pessoas para outros bairros em busca destes serviços. Mostrava-se que o deslocamento a pé e de bicicleta poderiam ser tratados com a mesma seriedade de uma via de automóvel com planejamento, iluminação, orientação, e estar adequadamente pavimentada, sem buracos e com piso de qualidade. Defendia-se que o transporte coletivo podia ter serviços de qualidade no atendimento aos usuários, reduzindo o tempo de viagem com faixas e vias exclusivas, diversificando os serviços para atender os vários públicos. Além disso, apresentaram a idéia de um reordenamento profundo do espaço urbano através de políticas que obrigassem a ocupação dos espaços vazios em áreas infraestruturadas que estivessem retidos pela especulação imobiliária.

    Passados 18 anos após o lançamento dessa primeira semente podemos ver o quão atual ela ainda é. Ao longo desse tempo, a Comissão de Circulação e Urbanismo escreveu outras teses complementares dando prosseguimento à proposta do não transporte. Atualmente, o conceito recebe também o nome de mobilidade sustentável, e ainda precisa percorrer um longo caminho para tornar-se hegemônica no nosso país.

    Defender hoje a tese do não transporte significa introduzir o conceito do tempo no uso da cidade, o que é essencial à apropriação social do espaço de mobilidade. Dessa forma, ter pedestres, ônibus, carros e bicicletas compartilhando o tempo e o espaço na cidade, não se torna um sonho impossível. A rua poderia ser usada pelos pedestres e veículos. O tráfego de bicicleta seria demarcado apenas por um desenho na via. Isso já ocorre em cidades européias, onde também as vias de automóveis têm seu leito reduzido para ceder espaço às bicicletas, ou se compartilha o espaço entre todas as formas de deslocamento.

    Uma revolução de valores acontece quando a calçada atravessa a rua e o carro é obrigado a pedir licença ao pedestre. As crianças podem voltar a ser crianças, os velhos e paraplégicos podem seguir como cidadãos seu ritmo próprio, e a grama deixar de ser estacionamento de automóveis.

    > A matéria apresentada baseou-se em artigo publicado na Revista dos Transportes Públicos – ANTP – Ano 23 – 2001 – 2º Semestre – “Não Transporte, 10 anos depois Resultados do trabalho da Comissão de Circulação e Urbanismo da ANTP” escrito pelo Vice-presidente da Associação Nacional de Transporte Público, presidente da Comissão de Circulação e Urbanismo e presidente do Instituto Ruaviva – Sr.Nazareno Stanislau Affonso.

    Boulevard Ciclístico

    A palavra francesa Boulevard designa as amplas avenidas implementadas com um paisagismo refinado e diversas pistas de rolamento.

    Nos EUA o termo foi associado a bicicleta e se traduz em ruas mais estreitas para os automóveis que com isso devem trafegar em velocidade compatível com o trânsito não motorizado. A idéia de um “Boulevard Ciclístico” une ao mesmo tempo o conceito de “Ciclo-Rede” ao ideais de “Traffic Calming”. Ao invés de simplesmente construir infra-estrutura segregada para o deslocamento das bicicletas, o que se implementou foi a integração aos demais componentes do trânsito, sempre em rotas compartilhadas, sinalizadas e com facilidades exclusivas para pedestres e ciclistas.

    Vale conferir os exemplos em vídeo (em inglês).

    Portland:

    Berkley:

    • Mais informações:

    > A “Bicycle Transportation Alliance” de Portland defende a idéia:
    Bicycle Boulevards Campaign
    E tem uma série de textos sobre o tema.
    BTA Blog – Boulevards

    > A Escola de Bicicleta resume o conceito de Ciclo-Rede

    > Traffic Calming

    Mais Rápido de Bicicleta

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    Imagens – Edu

    Assim na vida como no trânsito, menos é mais. Um passeio no tráfego pesado do Rio de Janeiro ilustra a superioridade do transporte à propulsão humana no uso do espaço urbano. Devagar e sempre 3 ciclistas e uma câmera ilustram através de imagens em movimento que o bom uso das ruas é uma possibilidade tanto quanto uma necessidade.

    Como diz o CTB, lugar de bicicleta é na rua. Ao compartilharmos o espaço, mostramos aos motoristas a fluidez possível em meio à imobilidade. Parafraseando Chico Science: uma pedalada a frente, e não estamos mais no mesmo lugar.

    A Media Player is required.
    Clique para baixar o vídeo: “Vou mais rápido de Bicicleta

    Bicicleta Integrada

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    Foto retirada do Apocalipse Motorizado

    Integrar a bicicleta aos meios de transporte de massa é uma questão fundamental para a mobilidade das cidades. Em São Paulo, aos sábados e fins de semana isso já é possível. Uma video reportagem de Renata Falzoni ilustrou a recente inauguração.

    No entanto, cidades no exterior, o acesso dos ciclistas aos trens é facilitado e permitido em qualquer hora. Naturalmente que ninguém têm a idéia infeliz de usar o metro lotado na hora do rush carregando sua bicicleta. Prevalecendo o bom-senso e uma infra-estrutura mínima dentro dos trens, bicicletas e transporte de massa tem muito a se complementar.

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    Em São Francisco, a bicicleta tem espaço nos trens.
    Foto de Jym Dyer