A importância dos cruzamentos

 

Em cada esquina está o maior risco que um condutor, ciclista ou pedestre enfrenta nas cidades. São nos cruzamentos entre ruas e avenidas que as mais graves ocorrências de trânsito acontecem. As vítimas em geral são os mais frágeis, mas nem sempre a carcaça de aço de veículos motorizados representa defesa suficiente.

Com essa lógica em mente arquitetos da Universidade George Mason projetaram “cruzamentos protegidos”, uma adequação para as esquinas típicas nas cidades norte-americanas e como eles podem ser modificados para se adequarem aos cidadãos em bicicleta. O mais importante no projeto no entanto talvez não seja exatamente a solução de arquitetura, mas sim a necessidade de adaptação dos espaços de circulação nas cidades as pessoas que por ela circulam.

 

Ainda é comum vermos ruas de bairro que se prolongam ao infinito (ou ao menos até o próximo cruzamento) sem qualquer barreira física ou até mesmo visual. Reordenar cruzamentos é uma maneira de lembrar as pessoas que por ventura estejam ao volante que existem pessoas do lado de fora e que a cada esquina, elas tem a oportunidade e os incentivos para cruzarem. As ruas do mundo precisam de mais atenção para as pessoas que estão nelas e ao redor delas. As soluções de projeto serão implementadas no seu devido tempo, até lá é preciso imaginá-las.

Para isso, vale assistir o vídeo demonstrativo (em inglês) que conta melhor o conceito de “cruzamentos protegidos”.

Protected Intersections For Bicyclists from Nick Falbo on Vimeo.

A construção de um plano cicloviário

Os impactos da bicicleta na percepção das cidades pelos ciclistas são quase óbvias. O desafio está em alastrar a mudança na visão do ambiente urbano para pessoas que por acaso ainda não pedalam.

Uma das formas, simbólicas, está na sinalização do asfalto. Um espaço que foi simbolicamente promovido como pertencente as máquinas, quando na realidade é apenas uma rua, local de uso múltiplo e cidadão para circular e viver a cidade.

O Rio de Janeiro definiu que o compartilhamento das ruas é meta e tem investido nessa maneira simples de dar um novo significado as ruas para que elas possam voltar a ser das pessoas. Espaço de circulação seguro para seres humanos, sejam qual o meio de transporte que as pessoas optem por utilizar em seus deslocamentos.

São apenas pinturas no asfalto, mas também um primeiro passo para definir como será o asfalto e o espaço das ruas no futuro.

Enquanto isso em São Paulo, os amigos da Ciclocidade pressionam para que bicicletas no asfalto tornem-se o símbolo da mudança de percepção que as cidades precisam. Iniciativa que mostra o valor da representação do espaço das ruas como áreas para bicicletas e, naturalmente, para pessoas. Uma questão quase óbvia, mas que ainda tem um longo caminho até ser senso comum.

Veja o mapa das rotas cicloviárias do Centro do Rio de Janeiro.

Um bairro para pessoas

Simulação do Túnel Major Rubens Vaz

Simulação do Túnel Major Rubens Vaz

Quem pedalava em Copacabana sempre soube que o bairro era perfeito para os deslocamentos em bicicleta. Um microcosmo em que tudo estava disponível a apenas algumas pedaladas. O mercado, a farmácia, a escola, o escritório, a praia e o metrô. Uma pequena cidade autossuficiente em muita coisa e com fácil acesso a outras vizinhanças.

Natural portanto que em meio a tantas ruas sem espaço para mais carros o morador do bairro e também os prestadores de serviço saberem que a bicicleta era a melhor solução. Para facilitar a vida de quem mora e circula pela bairro apresentamos ainda em 2008 um plano cicloviário para Copacabana. Ruas com velocidade máxima de 30km/h, número mágico que facilita a fluidez e segurança das pessoas.

Do papel a idéia ganhou as ruas em forma de plano piloto que se espalhou pela cidade. Agora a conquista se consolida e Copacabana será mais do que um exemplo piloto, mas uma implementação real de como podem ser os bairros cariocas do futuro. Afinal, o projeto piloto de anos atrás já chegou a outras regiões do Rio de Janeiro.

Simulação do BikeBox na Rua Hilário de Gouveia esquina com Nossa Senhora de Copacabana

Simulação do BikeBox na Rua Hilário de Gouveia esquina com Nossa Senhora de Copacabana

Mais do que um plano que sai do papel, as Zonas 30 de Copacabana são o símbolo máximo de respeito a circulação das pessoas. Serão consideradas parte da malha cicloviária, afinal a sinalização irá deixar claro a todos que os veículos automotores serão permitidos e cidadãos em bicicleta serão os convidados especiais. e

Rua Toneleros com Rua Anita Garibaldi

Simulação de travessia na Rua Toneleros com Rua Anita Garibaldi

Exemplo de mobilidade em bicicleta, Munique na Alemanha tem grande parte dos seus 1.700 km de infraestrutura para bicicletas como Zonas 30, assim como Viena na Austria e diversas outras cidades. As Zonas 30 são o acesso a porta das pessoas, ruas residenciais que recebem tratamento especial para garantir a mobilidade sem destruir a vizinhança.

A esperança é que Copacabana passe a ser o bairro mais completo do país quando se fala em infraestrutura ciclística e sirva de inspiração para todo o Rio de Janeiro e por consequência o Brasil.

bairro-para-ciclistas-o-globo

Será que somos ciclistas?

Uma pergunta fundamental precisa ser feita regularmente, quem são afinal os “ciclistas”. Em geral a resposta é bastante direta, são seres quase especiais que por diversos motivos pedalam. Pode ser a definição do triatleta, do entregador da farmácia, de quem se deslocam até o trabalho, ou um pai ou mãe que aproveita a rapidez da bicicleta para deixar o filho na escola.

Ainda assim, o uso do termo costuma também designar a “tribo” dos ciclistas. Aqueles que tem paixão pelo esporte, necessidade pelo transporte ou utilizam a bicicleta como ferramenta profissional. E aí que reside um pequeno grande problema. Os “nichos” que buscam definir e compartimentalizar a existência humana e todas as suas atividades de maneira a afastar justamente o fator humano.

Vale experimentar definições mais claras. Pessoas a pé, pessoas de carro, pessoas de ônibus, pessoas em motocicletas, pessoas de patins, pessoas de skate e pessoas de bicicleta. Em todas essas últimas expressões o mais importante são justamente os seres humanos que optaram por um ou outro meio de transporte. Esse fato pode ser melhor exemplificado em uma releitura de estatísticas na mortalidade no trânsito.

Para cada número que fala de “pedestres” mortos em atropelamentos, certamente é mais grave a morte de “pessoas a pé” no trânsito. As maiores vítimas, frágeis por estarem a pé e por serem pessoas como todos nós. O mesmo se aplica aos “motociclistas”, “motoristas”, “ciclistas” etc. Para cada definição dessa natureza, é possível entender que “não faço parte desse grupo” e esquecer que cada número é uma vida.

Pela simplicidade e empatia que gera, é que temos especial apreço pelo nosso slogan: “por mais pessoas em mais bicicletas mais vezes”. Pouca diferença faz qual o nicho, subgrupo ou cultura pertence aquele que pedala, mas será sempre um ser humano que optou pela bicicleta. Ao priorizar as pessoas, daremos uma pedalada certeira em direção a uma humanização dos espaços em que essas pessoas vivem e circulam.

Dentro dessa lógica, querer aumentar o número de “ciclistas” pode parecer contra intuitivo para quem está de fora e até a defesa da vontade de um pequeno nicho de ativistas em detrimento da vontade da maioria. A definição do senso comum para “ciclista” costuma ser restritiva e para o “ciclista urbano” vir acompanhada de elogios distanciados. Comentários em geral elogiosos ao “ciclista” pela “coragem” em pedalar, seguida de uma desculpa genérica na linha de “não é para mim”. Ser uma pessoa que pedala portanto é uma quebra do senso comum que busca devolver a quem acredita na bicicleta como uma “nave especial nas ruas” uma resposta simples e inclusiva. Afinal, é preciso apenas tomar uma opção em pedalar para ser uma “pessoa em bicicleta”.

Certamente promover o uso da bicicleta passa menos por máquinas sem alma e mais por carne, osso e mentes que conduzem objetos sem vida.

– Esse texto foi inspirado na leitura do artigo: Can Saying “People on Bikes” Instead of “Cyclists” Make Biking Safer?