Minha cidade

Quando é verão, chove muito na minha cidade.

Minha cidade tem fluxo e bicicleta…

…fluxo de bicicleta.

Minha cidade já viu a passagem do tempo, e se faz de retalhos caóticos unidos.

Na minha cidade, tem diversidade de gente.

Tem arte moderna na minha cidade.

Tem gente triste e tem gente feliz, tem quem empine pipa e quem durma até tarde.

Minha cidade às vezes parece grande demais, mas só parece.

Todas essas fotos foram tiradas em uma mesma praça em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Um espaço discreto que une as ruas Mateus Grou e Virgílio Carvalho Pinto.

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O rio da minha aldeia


Passeio de bicicleta na margem norte do Tejo ao som de “Cais” do projecto “Os Poetas”. Por Nuno Trindade Lopes. Editado por Abilio Vieira.

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro

Carnaval, democracia nas ruas

O carnaval é quando as ruas voltam a pertencer as pessoas, sem concessões. Em massa e em festa milhares de enebriados foliões tomam conta dos espaços públicos Brasil afora. Durante alguns dias o que é de todos passa ser verdadeiramente de quem queira. O lúdico e o “estar” deixam completamente de lado o fluir e o circular.

Durante o reinado do Momo a circulação se faz por outras vias, bicicletas e veículos motorizados devem procurar alternativas para fluir, por ser grande demais, a massa em alegria toma conta de todos o espaço. De porta a porta, do lado de fora, apenas gente.

A força incontrolável da festa inspira outras cidades possíveis. Quatro dias no ano são muito pouco para ter a cidade aos pés de quem está a pé. A demanda reprimida fica clara por mais espaços públicos de qualidade. Pessoas gostam de pessoas e o excesso e densidade do Carnaval evidenciam também que o aperto só é tolerável com música e festa.

Durante os outros 361 dias do ano o casamento entre circulação e diversão perde espaço. A cidade para as pessoas que funcionou durante a folia fica fechada. Será que precisaremos esperar até o próximo Carnaval para libertar a vontade de estar em companhia e em alegria nas ruas?

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Cães, bicicletas e o cavalo-vapor

O mais famoso site de leilões no Brasil é uma boa maneira para conhecer o que está disponível no mercado de bicicletas, mas funciona também como fórum de debates sobre produtos e outros assuntos.

Um anúncio simples com uma única foto. Uma bicicleta nacional com suspensão dianteira e traseira, paralamas e bagageiro. E nas palavras do anunciante: “pronta para sair pedalando depois da compra”. No espaço para perguntas, algumas ofertas de troca e uma saltou aos olhos:

Amigo, tenho um cachorrinho shi tzu com pedigree, preto e branco com 60 dias, vacinado e vermifugado, que vale mais ou menos $700. Te interessa fazer esta troca?

A resposta dada pelo vendedor discorre sobre algumas incongruências da nossa sociedade em relação ao tratamento com os animais.

Amigo, animais são criaturas sencientes e não mercadorias. Esse filhote merece ter uma vida digna. Você me ofereceria uma criança por R$ 700? Então como oferece um cão? Do ponto de vista ético (e não jurídico ou cultural), qual a diferença? Aliás, será que há uma diferença de fato? Será que essa diferença não foi inventada? Ou só porque todo mundo faz está correto? Vou lhe dar um conselho: se não quiser ficar com ele, doe o cachorrinho para alguém que lhe inspire confiança, alguém que não vá abandoná-lo ou negociá-lo sob hipótese alguma. Não utilize como critério de escolha a disposição em pagar algumas centenas de reais por um ser capaz de sentir dor e expressar emoções. O abandono de animais em São Paulo é altíssimo, e as ruas – pode apostar – são um péssimo lugar para se sobreviver… Desculpe a franqueza, mas você tocou num princípio nevrálgico da minha ética. Boa noite e muita paz para você.

Rever o conceito das cidades em que vivemos também é repensar a maneira com que nos conectamos a outras formas de vida que habitam esse mesmo planeta. Antes da invenção da carruagem sem cavalos que hoje domina nossas ruas, dois graves problemas nas grandes cidades eram os dejetos de animais e as carcaças dos mortos. Trocamos cavalos de carne e osso pelo “cavalo-vapor”. Com isso os cães que perambulavam nas ruas com tranquilidade hoje encontram-se apenas nas periferias com menos trânsito motorizado ou em pequenas cidades.

A cena de abertura do clássico “Meu Tio” de Jacques Tati retrata esse momento histórico em que as cidades tornaram-se menos amigáveis com os vira-latas e mais convidativas as carruagens movidas a cavalo-vapor.

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Fábulas com animais

Explicar cidades por meios de metáforas e fábulas resvala em duas imagens fundamentais: o bode na sala e o touro na loja de porcelana.

Um chefe de família tinha de ouvir reclamações sobre o quanto a situação da casa era ruim, era mal conservada e cheia de consertos a serem feitos. Ao invés de resolver o problema, o homem trouxe para a sala o bode mais fedorento que tinha. A situação ficou insuportável. Depois de algumas semanas, o benevolente pai e marido tirou o bode e milagrosamente a família passou a só lhe tecer elogios.

O que está ruim, pode sempre ficar pior e basta ficar menos pior para aliviar a situação. A escalada da poluição e congestionamentos abrem espaço para que bodes entrem na sala e piorem ainda mais a qualidade de vida da população. Olhos atentos servem justamente para não deixar entrar o fedorento animal e nem esquecer como era antes caso ele realmente entre.

O grande problema em relação ao “bode” urbano é que ele é cheiroso e silencioso por dentro, mas gera barulho e desconforto para quem está do lado de fora. A metáfora do touro na loja de porcelana ajuda a explicar a diferença de tratamento que o bode recebe.

Tanto faz se é um elefante na loja de cristais ou um touro na loja de porcelana, a imagem é a mesma. Um bicho grande e forte, cercado de fragilidade por todo o lado. Quem iria convidar quadrupedes enormes para um ambiente tão delicado. De certa maneira foi o que aconteceu com nossas cidades. Mais do que isso, o touro e o elefante tornaram-se sagrados.

Estamos passando pelo ponto de inflexão em que é fundamental parar de tentar tirar a porcelana da loja, só porque agora entrou um touro. Temos de tomar medidas para domar o touro, já que ainda iremos conviver com ele por mais algum tempo.

Moderação de tráfego, segurança para os componentes mais frágeis do trânsito são medidas que terão de ser tomadas. Não apenas para garantir qualidade de vida para as pessoas, mas para assegurar a sobrevivência das cidades.

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