Bicicleta e Ecologia

O Aquecimento Global e novas formas de energia têm sido temas recorrentes na agenda mundial. No entanto o problema ambiental que tanto se noticia precisa ser encarado de uma maneira menos pontual. Não haverá solução mágica sem que se pense no conjunto de situações que nos trouxeram ao atual estágio. O que não significa que devamos retroceder à idade da pedra.

Usar a bicicleta e estimular outros a faze-lo no atual contexto não é simplesmente ser “ecologicamente correto”, trata-se de uma inserção numa nova necessidade da espécie humana. Cada vez mais nos tornamos dependentes de recursos naturais distantes para nossa própria sobrevivência, quanto melhor soubermos usar o que já temos à disposição, mais equilibrada será a sobrevivência do “bicho homem”.

Não temos outra opção que não seguir à frente. Tanto a bicicleta, quanto a vida não tem marcha a ré. Além disso, o que nos mantém vivos é a mesma força que mantém de pé a bicicleta, o constante movimento.

O Não Transporte

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Foto Zé Lobo

Uma tese apresentada em maio de 1989 no VII Congresso Brasileiro de Transporte Público continua atual. As idéias partiram da Comissão de Circulação e Urbanismo da Associação Nacional de Transporte Público – ANTP, a tese: “Não Transporte: a reconquista do espaço tempo social”.

A tese defendia a idéia da redução das viagens motorizadas como solução para o deslocamento sustentável. Ao invés de vias ociosas nos horários de pico no contrafluxo, defendiam-se as mãos horárias, isto é, nos horários de pico, vias de mão dupla teriam todas as pistas funcionando num único sentido, acabando com a ociosidade no contrafluxo. Defendiam-se bairros com mais autonomia nas atividades de trabalho e cotidianas, através da descentralização de unidades públicas, industriais e comerciais, evitando assim o deslocamento das pessoas para outros bairros em busca destes serviços. Mostrava-se que o deslocamento a pé e de bicicleta poderiam ser tratados com a mesma seriedade de uma via de automóvel com planejamento, iluminação, orientação, e estar adequadamente pavimentada, sem buracos e com piso de qualidade. Defendia-se que o transporte coletivo podia ter serviços de qualidade no atendimento aos usuários, reduzindo o tempo de viagem com faixas e vias exclusivas, diversificando os serviços para atender os vários públicos. Além disso, apresentaram a idéia de um reordenamento profundo do espaço urbano através de políticas que obrigassem a ocupação dos espaços vazios em áreas infraestruturadas que estivessem retidos pela especulação imobiliária.

Passados 18 anos após o lançamento dessa primeira semente podemos ver o quão atual ela ainda é. Ao longo desse tempo, a Comissão de Circulação e Urbanismo escreveu outras teses complementares dando prosseguimento à proposta do não transporte. Atualmente, o conceito recebe também o nome de mobilidade sustentável, e ainda precisa percorrer um longo caminho para tornar-se hegemônica no nosso país.

Defender hoje a tese do não transporte significa introduzir o conceito do tempo no uso da cidade, o que é essencial à apropriação social do espaço de mobilidade. Dessa forma, ter pedestres, ônibus, carros e bicicletas compartilhando o tempo e o espaço na cidade, não se torna um sonho impossível. A rua poderia ser usada pelos pedestres e veículos. O tráfego de bicicleta seria demarcado apenas por um desenho na via. Isso já ocorre em cidades européias, onde também as vias de automóveis têm seu leito reduzido para ceder espaço às bicicletas, ou se compartilha o espaço entre todas as formas de deslocamento.

Uma revolução de valores acontece quando a calçada atravessa a rua e o carro é obrigado a pedir licença ao pedestre. As crianças podem voltar a ser crianças, os velhos e paraplégicos podem seguir como cidadãos seu ritmo próprio, e a grama deixar de ser estacionamento de automóveis.

> A matéria apresentada baseou-se em artigo publicado na Revista dos Transportes Públicos – ANTP – Ano 23 – 2001 – 2º Semestre – “Não Transporte, 10 anos depois Resultados do trabalho da Comissão de Circulação e Urbanismo da ANTP” escrito pelo Vice-presidente da Associação Nacional de Transporte Público, presidente da Comissão de Circulação e Urbanismo e presidente do Instituto Ruaviva – Sr.Nazareno Stanislau Affonso.

Boulevard Ciclístico

A palavra francesa Boulevard designa as amplas avenidas implementadas com um paisagismo refinado e diversas pistas de rolamento.

Nos EUA o termo foi associado a bicicleta e se traduz em ruas mais estreitas para os automóveis que com isso devem trafegar em velocidade compatível com o trânsito não motorizado. A idéia de um “Boulevard Ciclístico” une ao mesmo tempo o conceito de “Ciclo-Rede” ao ideais de “Traffic Calming”. Ao invés de simplesmente construir infra-estrutura segregada para o deslocamento das bicicletas, o que se implementou foi a integração aos demais componentes do trânsito, sempre em rotas compartilhadas, sinalizadas e com facilidades exclusivas para pedestres e ciclistas.

Vale conferir os exemplos em vídeo (em inglês).

Portland:

Berkley:

  • Mais informações:

> A “Bicycle Transportation Alliance” de Portland defende a idéia:
Bicycle Boulevards Campaign
E tem uma série de textos sobre o tema.
BTA Blog – Boulevards

> A Escola de Bicicleta resume o conceito de Ciclo-Rede

> Traffic Calming

Pedestre é poesia

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Foto Mário Moreno

Ruas

Por que ruas tão largas?
Por que ruas tão retas?
Meu passo torto
foi regulado pelos becos tortos
de onde venho.
Não sei andar na vastidão simétrica
implacável
Cidade grande é isso?
Cidades são passagens sinuosas
de esconde-esconde
em que as casas aparecem-desaparecem
quando bem entendem

e todo mundo acha normal.
Aqui tudo é exposto
evidente
cintilante. Aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado.

> Carlos Drummond de Andrade.

Catorze de março no Brasil é o dia Nacional da Poesia. Poeta também é o pedestre, que flana pelas ruas e calçadas em diversos ritmos. Fazendo de labirintos urbanos, caminhos.

Amore Pedestre
Um filme de 1914, de Marcel Fabre. Toda a história contada sem diálogos e somente com os pés e pernas.

Num contexto mais alargado, a poesia aparece também identificada com a própria arte, o que tem razão de ser já que qualquer arte é, também, uma forma de linguagem.

Poesia na Wikipedia

Crônica Carioca

Uma excelente crônica de Tutty Vasques sobre o trânsito na cidade do Rio de Janeiro. Boas idéias cada vez mais circulando nas mentes cariocas. Nossas cidades cada vez mais precisam do oxigênio das boas idéias para que possamos nos locomover com mais eficiência.

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Ilustração de Pojucan.

Texto reproduzido mediante autorização do autor. Publicada originalmente na Revista Veja-Rio, disponível online.

Inteligência no trânsito

Ressaca, se ainda não passou, passa com o Desfile das Campeãs! O triste, depois do Carnaval, é o trânsito na cidade, que, se nas últimas semanas já não era a mesma maravilha de janeiro, a partir de agora vira o inferno de sempre. Os carros voltaram todos das férias. Vêm aí os engarrafamentos de março fechando o verão, sem qualquer promessa de solução para um problema que a certas horas fere os direitos humanos de qualquer cidadão que precise cruzar, por exemplo, Botafogo.

Cidades como o Rio de Janeiro deveriam manter um batalhão de especialistas em engenharia de trânsito 24 horas por dia em busca de idéias simples que facilitem o ir-e-vir da população no caos urbano. Se essa gente já existe, empregada na CET-Rio, por que não ousa mais soluções criativas como a faixa reversível da Rua Jardim Botânico no rush de fim de tarde? A medida vigora desde 1988 com ótimo resultado para o escoamento do trânsito que vem de Botafogo para a Barra da Tijuca, sem que o Detran precise gastar mais que uns baldes de tinta para demarcar faixas no asfalto, além de meia dúzia de placas de alerta a motoristas e pedestres.

Outra que fez um bem danado àquelas bandas da cidade foi a “obra” dos três blocos de concreto que fecharam a saída do Túnel Zuzu Angel para a Gávea. Quem vinha da Barra tinha o hábito de duplicar o engarrafamento da auto-estrada, entupindo também a Marquês de São Vicente. Os motoristas não ganhavam um minuto com isso e paralisavam o bairro nos horários de rush. Naquela região, aliás, algo poderia ainda ser pensado para estimular os estudantes da PUC a ir de bicicleta para a universidade. A garotada sai motorizada do Leblon, de Ipanema, da Lagoa, desprezando a teia de ciclovias que desembocam no bicicletário do campus. A juventude dourada da Zona Sul prefere encarar fila no estacionamento.

A cultura carioca não conseguiu, lamentavelmente, assimilar o projeto de ciclovias como alternativa de transporte saudável, não poluente e econômico. Salvo honrosas exceções, as bikes – um negócio que cresceu de forma espetacular no Rio – só saem da garagem nos fins de semana e feriados como equipamento de lazer, tal qual skates, patins, pranchas de surfe… O que é maravilhoso numa cidade solar como o Rio de Janeiro, mas a verdade é que pouca gente vai trabalhar ou estudar pedalando.

Talvez porque o clima deixe as pessoas receosas de chegar ao destino suando em bicas, alguns trechos de ciclovia mais afastados da orla caíram em desuso. Ficam lá ignorados primeiro pelos ciclistas, depois pelos motoristas e transeuntes, até ganhar o esquecimento também dos responsáveis pela conservação da malha cicloviária. Essa história toda me veio à cabeça no trânsito lento da General Polidoro, ali em frente ao cemitério São João Batista, itinerário freqüente nos meus deslocamentos para chegar ao trabalho. Olhando para a calçada oposta à dos mortos comecei a me dar conta de que está desaparecendo o trecho de ciclovia entre o Mercado das Flores e a Rua da Passagem – se localizou? –, lá onde Botafogo ficou parecido com São Cristóvão.

Tem coisas que você só presta atenção em engarrafamentos. Eu vinha reparando ultimamente que nesse trajeto a pista das bicicletas foi gradativamente invadida por automóveis e motos estacionadas, ambulantes, sacos de lixo, cavaletes, poças d’água… Como também nunca vi ciclistas por ali, me pus a pensar de onde vinha e para onde ia aquele equipamento urbano que aparentemente não serve pra nada. Um dia parei o carro e fui conferir. Achei o princípio da ciclovia 10 metros adentro da Rua Sorocaba. Mal virei a General Polidoro à esquerda, apareceu no chão a marca de que eu já havia percorrido 1 200 metros em vinte passos.

É preciso uma certa noção de arqueologia para seguir a pista que de vez em quando desaparece sob a calçada de prédios novos. Reaparece adiante cheia de buracos e obstáculos, uma imensa bagunça. Nenhuma bicicleta me ultrapassou no percurso, que, enfim descobri, vai dar na Mena Barreto, seguindo à direita para a Praia de Botafogo e à esquerda até o metrô.

Como uma lei que fica só no papel, aquele trecho da ciclovia existe só no chão, por decreto. É o desperdício de uma boa idéia que os militantes verdes conseguiram agregar ao projeto Rio Orla em 1992. De lá para cá, foram construídos 140 quilômetros de ciclovias, do Recreio dos Bandeirantes à Praça Mauá, de Ipanema a Bangu. Está na hora de avaliar os exageros, entender por que o projeto deu mais certo em determinados trechos, fazer respeitar ou eliminar as pistas de pouco movimento e, sobretudo, estimular o carioca a se locomover de bicicleta fora dos horários de lazer. Deve haver alguma coisa inteligente para pensar a respeito, né não?

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

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