Carnaval, época de ruas para pessoas

O carnaval no Brasil é o período do ano em que as ruas são devolvidas as pessoas para comemorações e festas.

Ainda assim, as cidades e suas administrações municipais ainda buscam aprender como readequar, ainda que de maneira excepcional, o espaço público para circulação e ocupação exclusiva de pedestres.

O já tradicional carioca molda a cidade semanas antes dos desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Os blocos de rua atraem multidões para a festa o que impacta negativamente o fluxo motorizado.

Ciente da importância da festa para seus cidadãos e turistas, a prefeitura do Rio de Janeiro sempre faz campanha pública para que as pessoas priorizem o transporte público e também a bicicleta. photo 2

A enormidade do fluxo humano é ao mesmo tempo beleza e drama. O fluxo carnavalesco é festa, mas dada a quantidade de pessoas que atrai, tem também graves problemas. Para listar o principal deles, resíduos da festa. Seja a serpetina, as latinhas de cerveja ou a urina.

Felizmente os fluxos diários, fora da época de festas são mais equacionáveis, mas precisam levar do carnaval a lição principal, as ruas pertencem as pessoas e é necessário garantir que o espaço público possa ser usado com prioridade absoluta para as pessoas.

A direção e o propósito dos deslocamentos é secundário, seja para festa ou para a ida ao trabalho, as ruas pertecem aos cidadãos e devem ser usadas de maneira eficiente para os diversos fluxos urbanos.

Bicicletário Cultural colaborativo

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Bicicletário do Teatro Vila Velha em Salvador.
Foto: Pablo Vieira Florentino

Cidade que optou pela solução moçárabe de construir-se sobre cumeadas artificiais, como nos lembra o grande geógrafo Milton Santos, Salvador é marcada por suas praças em belvedere, sempre debruçadas do alto dos morros ora com vista para o mar, ora para os vales. Dentre estas, apenas uma funciona como pequeno parque de bairro: o Passeio Público de Salvador.

Construído dentro do paradigma da reforma neoclássico-iluminista e da expansão urbana sob o vice-reinado do Marquês de Pombal, o Passeio Público abriga em uma de suas entradas o Palácio da Aclamação, hoje um museu estadual. Dentro dele já se localizou a Galeria Oxumaré, berço do modernismo na Bahia, e hoje fica o lendário Teatro Vila Velha – complexo cultural com dois placos, quatro salas de ensaio, três grupos residentes (entre os quais o Núcleo Vila Dança e o Bando de Teatro Olodum), e que sedia diversos eventos internacionais. Do Velho Vila surgiram nomes como Glauber Rocha, lá estreou Gal Costa, e a frente dele está há décadas o hoje ex-Secretário Estadual de Cultura Marcio Meirelles.

Recentemente, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da Bahia (IPAC) resolveu erradicar as vagas de estacionamento para automóveis que equivocadamente se encontravam dentro da área do parque. Aproveitando esse fato, e aliado a enorme expansão do uso de bicicleta por freqüentadores e funcionários do Teatro Vila Velha, o Coletivo Mobicidade e a Associação Psicólogos do Trânsito e Mobilidade Humana (PATRAMH) resolveram fazer algo a respeito (veja mais sobre a ação).

No entorno do Passeio Público, dia 18 de janeiro à noite (horário de pico de demanda para o teatro), foi realizada a primeira contagem fotográfica de usuários de bicicleta, seguindo a metodologia desenvolvida pela Transporte Ativo; e no dia seguinte, 19, sábado pela manhã, fez-se um mutirão para instalar um bicicletário de seis vagas no local. Em contrapartida, o Teatro Vila Velha tem estabelecido preços promocionais nos ingressos de suas atividades para aqueles que o frequentarem de bicicleta.

A localização do bicicletário é estratégica, não só por ser perto da entrada de serviço do teatro e da rampa de acesso a sua bilheteria, mas também porque libera a visualidade do totem do teatro e a usabilidade do sofá de concreto que pode ser visto na foto. Antes vedado pela presença de automóveis, esta área tem sido sempre freqüentada por grupos de pedestres que se sentam e conversam animadamente, como numa sala de estar, uma vaga-viva permanente.

Mais ainda, é sempre bom lembrar que sendo o Passeio Público uma das entradas para o Circuito Osmar do Carnaval (Avenida Sete de Setembro e Campo Grande), quem quiser pode ir pedalando e guardar a bicicleta dentro dele.

Nota, o post é de autoria do Lucas Jerzy Portela d’O Último Baile dos Guermantes.

Lições de Ano Novo nas ruas

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O Ano Novo em Copacabana é festa de milhões, na virada para 2013 estima-se que foram no total quase 2,5 milhões de pessoas na Orla para conferir a queima de fogos e celebrar a chegada do novo ano.

Garantir aos pedestres a exclusividade na circulação em todas as ruas do bairro provou-se uma medida acertada. O horário inclusive teve de ser aumentado. Inicialmente Copacabana estaria só para pedestres das 22h do dia 31 às 4h do dia 01, mas o horário foi entendido até as 5:15h para garantir a fluidez e segurança das pessoas.

Houve exceções, claro, com alguns motoristas particulares circulando no horário proibido. A Prefeitura informou que os infratores serão multados. Mas nem isso apagou a tranquilidade nas ruas, a massa de pedestres obrigou a todos a manterem velocidades seguras, afinal, as ruas voltaram a ser, ainda que por algumas horas, das pessoas.

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Algo para melhorar em relação ao próximo ano é a logística de abastecimento e limpeza da festa. Proibidos de circular desde as 18h dentro de Copacabana, os caminhões de gelo não foram levados em consideração, junto com seus parceiros inseparáveis, os triciclos de carga. No próximo ano esse produto tão necessário à festa precisa ser levado em consideração. Basta separar um espaço de estacionamento de caminhões de gelo dentro do bairro até as 18h e outro fora após as restrições de circulação.

Já em relação as sobras da festa, pouco ou nada mudou. A quantidade de resíduos aumentou e a dependência dos caminhões nas ruas e tratores nas areias permaneceu a mesma. Encerrada a festa, já na manhã do dia 01, entra em cena a marcha dos garis, responsável pela remoção de toneladas de resíduos, muitos deles recicláveis, direto para os aterros sanitários da cidade.

Uma festa tão grande, com tanta alegria não deveria acabar com tanta sujeira. É possível manter o bairro todo para a circulação humana e investir na limpeza ainda durante a festa, sem esperar os caminhões, mas com triciclos de carga também para o transporte de resíduos para fora do bairro para facilitar a reciclagem e manter o bairro limpo ao invés de remediar as consequências.

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Réveillon em Copacabana para pessoas

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Todos os anos Copacabana é palco do grandioso espetáculo de fogos. Todos os anos, milhões de cariocas e turistas deslocam-se até as areias de Copacabana.

O volume enorme de pessoas implica em uma organização logística dos deslocamentos e em um aprendizado constante da cidade. A restrição de acesso dos veículos motorizados ao bairro já é tradicional e somada as restrições de estacionamento limita a quantidade de carros e motos, resguardando a circulação de todos.

Desde a inauguração das estações do metrô em Copacabana, os trilhos entraram na equação logística, mas por sua eficiência tornaram-se também um componente a ser levado em consideração. As enormes filas de usuários depois da queima de fogos implica em uma barreira humana para os ônibus cruzarem o bairro.

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Em 2012 esse problema, espera-se, será solucionado através da completa restrição de veículos motorizados particulares e coletivos dentro de Copacabana a partir das 22 horas. Assim, depois da festa as pessoas deverão caminhar até fora de Copacabana para acessar os ônibus. Assim, ambulâncias e veículos de emergência poderão cruzar o bairro com facilidade, assim como taxis para deficientes.

Aos poucos nossas cidades aprendem a se readequar aos cidadãos, e o Réveillon em Copacabana é um bom ensaio para adequar a demanda de deslocamentos de muitas pessoas em festas e eventos no espaço público.

Leia notícia sobre as restrições de circulação motorizada em Copacabana no Réveillon 2013.

Ciclofaixas e ciclomodismo

A Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou que irá lançar ciclovias operacionais aos domingos, será inicialmente um corredor isolado por cones dedicado ao trânsito de bicicletas. O plano é conectar o Parque do Aterro do Flamengo na Zona Sul, à Quinta da Boa Vista na Zona Norte.

É importante no entanto entender o nascimento desse tipo de infraestrutura. O termo “ciclovia operacional” é mais conhecido pelo apelido paulistano “ciclofaixas de lazer”. Criadas em agosto de 2009 pela Secretaria Municipal de Esportes, com o apoio de um patrocionador, de imediato esse parque ciclístico teve um sucesso estrondoso, se espalhou por São Paulo e pelo Brasil.

Inspiradas em parte nas “Ciclovias” de Bogotá na Colômbia, a versão paulistana tem dois grandes diferenciais, sinalização horizontal e vertical permanente e o fato de ser exclusiva para bicicletas.

A capital colombiana iniciou nos anos 1970 uma política de estímulo as atividades ao ar livre. Diversas avenidas durante algumas horas aos domingos e feriados tornaram-se exclusivas para a circulação de pessoas em transportes ativos. Bicicletas, patins, skates, patinetes, pessoas a pé, todos circulando livremente em um sentido das avenidas enquanto no sentido oposto o trânsito motorizado seguia seu fluxo. Muito parecido com o que acontece todos os domingos e feriados na orla carioca. As pistas junto ao mar somente para pedestres e transportes ativos (exceto a bicicleta, que contam com a ciclovia) e as pistas junto aos prédios com o fluxo motorizado em um único sentido.

Ao traduzir para a realidade carioca a iniciativa paulistana, o Rio de Janeiro visa promover o uso da bicicleta como veículo de lazer, uma estratégia válida na valorização da bicicleta, mas que também parece desconhecer o histórico da cidade. As ruas de lazer são um enorme sucesso, avenidas abertas para pessoas, independente do veículo, são transformadoras.

As ciclovias operacionais são um enorme sucesso de público Brasil afora, mas a sinalização permanente confunde e deseduca ciclistas e motoristas durante a maior parte do tempo em que a iniciativa não está em operação. Além disso, concede um privilégio aos ciclistas em detrimento de skatistas, patinadores e principalmente pedestres. Afinal basta uma caminhada na Avenida Paulista em um domingo para ter a alegria de ve-la repleta de bicicletas em circulação e a tristeza de ver que as calçadas seguem lotadas demais. Pedestres, skatistas e patinadores certamente preferem ruas de lazer.

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Editorial: Ciclomodismo