Na Contramão da História?

Bicicletas Estacionadas

Improviso nas Ruas do Rio

A nova administração municipal do Rio de Janeiro encampou uma campanha de inestimável valor para a sociedade. O lema desde o primeiro dia de governo é o “Choque de Ordem”. Uma série de ações tem mostrado ao carioca que há um novo governo e que a prefeitura irá privilegiar a organização da cidade.

No entanto a medida que segue em seus esforços, podem haver erros. Um deles foi cometido com a apreensão de bicicletas estacionadas em postes nos bairros do Flamengo e do Catete. Segundo a Prefeitura elas pertenciam a estabelecimentos comerciais e obstruíam a calçada dificultando o trânsito de pedestres.

Por mais bem intencionada que possa ser a medida de deixar livres as calçadas do Rio de Janeiro, cortar correntes e apreender bicicletas é uma medida que não só é polêmica, mas acima de tudo um enorme retrocesso na promoção da qualidade de vida na cidade. Bicicletas em todo o mundo são incentivadas e é desejo de qualquer prefeito no planeta ter uma cidade melhor. Certamente as magrelas fazem parte da melhoria na qualidade de vida urbana. Silenciosas, limpas e esguias, deslizam pelas ruas sem poluir e sem gerar engarrafamentos.

Bicicletas nas calçadas são um problema, com certeza. No entanto a solução não passa pela remoção pura e simples da bicicleta, tratando-a como um “obstáculo”. Onde bicis demais tomam o espaço do pedestre, um bicicletário torna-se necessário. Estabelecimentos comerciais fazem entrega em bicicleta, parabéns. A Prefeitura deveria facilitar o contato para que eles solicitem a instalação de um bicicletário em local adequado junto a loja.

Bicicletas na Rua

Espaço adequado para o estacionamento de bicicletas

O Rio de Janeiro tem muito a se beneficiar com a adesão cada vez maior dos cariocas as bicicletas, mas não se pode deixar de lado a mobilidade dos pedestres e a limpeza das calçadas. Bicicletários bem localizados e adequados são portanto a melhor solução para resolver um problema e ao mesmo tempo impulsionar a solução de outros.

– Mais:
Bicicletas Confiscadas – O Eco
Prefeitura do Rio desestimula o uso da bicicleta – Vá de bike
Sr. Prefeito do Rio, não ataque as bicicletas! – O Globo

Estação Paraíso, Rio de Janeiro

Há pouco mais de dois anos foi inaugurada a Estação Cantagalo do Metrô. Trata-se do último acesso a rede de trilhos antes do bairro de Ipanema. Desde antes da inauguração já se sabia que o local deveria ser integrado ao uso da bicicleta.

Atualmente, com a recém inaugurada estação de bicicletas públicas, a Praça Eugênio Jardim, onde fica a Estação Cantagalo é uma espécie de paraíso para as bicicletas. Elas estão aos poucos tomando os espaços e refletem o uso crescente das magrelas. Excelente veículo para viagens curtas e perfeito para cruzar a cidade quando integradas ao transporte sobre trilhos.

Iniciativa pública e empresas estão juntas fazendo a sua parte e trazendo melhorias a mobilidade urbana no Rio de Janeiro.

Sinalização nos trens indicam que há um bicicletário,
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Bicicletário gratuito dentro da estação,
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Postes ao redor repletos de bicicletas,
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Bicicletário externo SulAmérica em ambas as saídas,
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e Bicicletas Públicas.

Uma perna e duas rodas

DSC00778Foto: Edu Bernhardt (janeiro/2008)
Alarico Alves de Moura, 62 anos, atleta e artista plástico é deficiente físico, mas não é e nunca foi limitado pela deficiência. Ele considera a amputação de sua perna esquerda o melhor presente que Deus lhe deu. Só isso já impressiona, imagine então saber que ele patina, corre, surfa, mergulha, joga futebol, frescobol e que, em 15 anos pedalando, se tornou octocampeão de provas de ciclismo.

Susto, dor, trauma, internação, amputação, reaprender a andar, pedalar e se superar. Em uma linha pode-se resumir os últimos 20 anos da vida desse carioca da Ilha do Governador. Só não dá pra transmitir a intensidade dessa vida. Há muitas histórias de superação impressionantes, mas poucas estão tão próximas da nossa realidade e são tão inspiradoras.

Acrecente-se à vasta lista de benefícios da bicicleta a devolução da liberdade aos amputados. A pé eles precisam de muletas e transitam com dificuldade, mas sobre duas rodas circulam de igual pra igual.

Atleta de mountain bike, Alarico depende de doações e auxílio toda vez que viaja pra competir. Porém, ele tem uma limitação técnica. Ladeira acima ele pedala muito bem, mas nas descidas, pra ficar de pé na bike e amortecer as irregularidades o pedal fica pra baixo, bate em todos os obstáculos do caminho, às vezes ele cai e sempre perde rendimento. Uma bicicleta com suspensão traseira ajudaria, mas é um equipamento muito caro.

Mês passado um amigo de Alarico conseguiu uma doação anônima em dinheiro suficiente pra comprar um quadro com suspensão traseira sem que ele soubesse. A entrega surpresa foi armada para o encerramento de uma palestra do Alarico na Recicloteca no Rio de Janeiro. Convidado pela Transporte Ativo ele prontamente atendeu o chamado e no dia 4 de março de 2009, às 21 horas, após uma palestra pra 38 pessoas sobre superação através da bicicleta, as cortinas se abriram no melhor estilo ‘Portas da esperança’. Pendurada no teto, a surpresa calou o sempre falador atleta. Num ambiente tomado por emoção as palmas interromperam o choro do homem-lenda que não se curva facilmente e que ficará ainda mais rápido nas trilhas.

Epitáfio
Alá esteve internado por 6 dias até que na sexta-feira 13 de janeiro de 2023, seu coração imenso parou e o Wolverine do pedal fez a passagem. Há vidas que valem por duas ou três. Esta valeu por umas 10 tanto pela sua história quanto pela inspiração e superação. Continuaremos a pedalar por ele e com ele. Alá vive!

Saiba mais:
As dez melhores fotos da palestra
Entrevista do Alá
Depoimento do Alá na Novela Viver a Vida
Alarico no Instagram 

Mudanças Culturais pelo Ar

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A Secretaria do Verde e Meio Ambiente da cidade de São Paulo realizou uma audiência pública para explicar a população o funcionamento e os motivos do programa de inspeção veicular. A queima de combustíveis fosséis gera gases e é responsável por uma série de efeitos negativos para a população. No entanto a região metropolitana de São Paulo precisa dos motores a combustão.

Quebrar a resistência da população em relação a mais uma tarifa para onerar os cidadãos foi o primeiro desafio. Expostos os malefícios para a saúde de todos e o potencial de melhorias, hoje a população já quer uma inspeção mais ampla e melhor. De maneira democrática a Secretaria do Verde foi capaz de conscientizar a todos e escrever um novo capítulo em prol do ar mais limpo na maior conurbação urbana do Brasil.

Há por trás da inspeção veicular uma vontade confessa de iniciar um mudança cultural. A ambição é criar na população motorizada de São Paulo a cultura de manter sempre seus motores regulados. Esse novo paradigma aos poucos mudará o panorama em relação a manutenção veicular. Oficinas mecânicas, a indústria e mesmo a prefeitura estão envoltos em um processo de aprendizado. A lição final é que todos tem o dever de zelar pelos impactos que geram.

Ao que tudo indica, os ciclistas de São Paulo permanecerão isentos de qualquer taxa e continuarão seguindo livres dos congestionamentos a qualquer hora do dia.

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Uma Polêmica Reversível

O trânsito motorizado no eixo viário que liga a praia de Botafogo a Lagoa no Rio de Janeiro para por completo durante o pico de fim de tarde. Automóveis e ônibus movem-se lentamente. As motocicletas trafegam com enorme dificuldade. Apenas ciclistas são capazes de seguir devagar e sempre em meio ao enorme engarrafamento.

Equacionar esse problema é desejo da administração municipal, dos moradores da região e de todos que passam por lá. Como medida para desafogar o trânsito a Prefeitura implantou uma faixa reversível com 530 metros de extensão no sentido Botafogo-Lagoa. A medida visa facilitar o escoamento de automóveis, mas já chegou coberta em polêmica.

No primeiro dia um atropelamento, congestionamentos no sentido oposto e desaprovação por parte dos moradores. Faixas reversíveis são comuns na cidade. Funcionam no sentido centro pela manhã e na direção oposta durante o pico da tarde. Elas trouxeram benefícios para a fluidez motorizada, mas não ajudam a equacionar o problema dos congestionamentos na cidade.

Para fazer o carioca ir e vir com mais facilidade, a Prefeitura precisa pensar além dos automóveis. A mobilidade deve estar ligada ao fluxo de pessoas, a capacidade de transportar cidadãos de casa até o trabalho de manhã e no retorno ao lar no fim do dia. Dentro dessa lógica, criar facilidades para o trânsito do carro particular irá apenas dificultar o cotidiano de todos.

Moradores reclamam com razão dos transtornos trazidos pelo excesso de congestionamentos. São os que mais perdem em qualidade de vida por terem engarrafamentos gigantescos na porta de casa. Para garantir a qualidade de vida dos moradores da região e dos que precisam cruzar o bairro de Botafogo, a Prefeitura do Rio de Janeiro deve trabalhar em favor dos cidadãos, criando facilidades e opções para que as pessoas possam optar pelo transporte público, pela bicicleta ou até ir a pé.

Faixas exclusivas para ônibus, calçadas melhores, e a inserção da bicicleta no trânsito irão beneficiar a todos e colocar o Rio de Janeiro no rumo certo para equacionar o problema dos congestionamentos.