A Invisibilidade da Diáspora

Relações possíveis e impossíveis entre um plano cicloviário e a barroquíssima Capital Reconvexa

Lucas Jerzy Portela*

A população cicloviária de Salvador é quase toda pobre, negra e periférica (lembrando que como o Rio de Janeiro, Salvador tem “periferias” no centro, inclusive entre bairros nobres – e não apenas na periferia propriamente dita, como em São Paulo ou Recife). Uma população que não faz idéia de que a bicicleta é um meio legítimo de transporte, sobre o qual incide algumas regras. Em geral ela sequer deduz intuitivamente estas regras, achando que o correto é andar na contra-mão dos carros, e que os refletores atrapalham ao invés de ajudar…

Isso se dá pela pobreza de capital linguístico em que se encontra (além da material), mas também pela posição de invisibilidade que ocupa. É comum o visitante de Salvador se surpreender: “onde estão os tão falados 80% de população negra?”. Estão invisíveis.

Se a bicicleta já é por si um veículo em diáspora e da diáspora, invisível, em Salvador ele se faz invisível exponencialmente, e duplamente diaspórico: é bicicleta de preto (isto é: pobre) – e de preto que não se autoriza a usá-la como outro veículo qualquer. É uma bicicleta que não se coloca apenas à margem – mas à margem da margem.

Claro está que isso vem de uma histórica segregação da população em relação a cidade. A reforma do Pelourinho, durante o carlismo, retirou de lá uma população identificada com o bairro – e mandou pra conjuntos habitacionais no subúrbio. E o Pelô virou um shopping pra gringo, que nem como Shopping funciona. Mais do que isso: antes, seis linhas de ônibus chegavam até sua principal entrada, a Praça da Sé. Hoje, apenas 4 vão até a Rua da Ajuda. A Sé foi lacrada para carros, mas isso não significa uma boa apropriação para os pedestres. Ao contrário, como Shopping, a principal via de acesso ao Pelô são estacionamentos, pagos, entrando pelos fundos – isto é, pelo Vale da Barroquinha.

A diferença é gritante se se compara com a única etapa da reforma já feita fora do carlismo, o Carmo e o Santo Antônio Além do Carmo – em que a população continua morando, e por conseguinte os índices de violência e pobreza são muito menores. Curiosamente, é um bairro pedestre, apesar de histórico é pouco turístico – e se usa bicicleta, não obstante seja no topo de uma montanha.

Não é sempre que a população pobre, e negra, de Salvador deixa de sentir a cidade como patrimônio seu legítimo e que deve usar sem vergonha – embora isto seja a regra. O Solar do Unhão, Museu de Arte Moderna da Bahia, com belíssima praia dentro e ao lado da favela da Gamboa de Baixo, é totalmente apropriado. Moleques mulatos vão a nado para o MAM, abusam dele como querem – e o amam e cuidam. Não se envergonham de lá estar de calção de banho, enquanto a alta burguesia toma café e ouve jazz. Fazem parte visível da paisagem – sem o que o MAM não teria a menor graça. Seria um MAM sem pôr-do-sol.

Oxalá esta venha a ser a regra – também para que as bicicletas, um dia, como os Tambores da Liberdade, e o Tapete de Turbantes dos Filhos de Gandhy, ocupem as ruas da SanFrancisco Nagô-Malê, da Lisboa Sudanesa revisited. A bike bem que poderia ser um atributo mágico de um novo Exú, em banda-larga, nascido do rum, do rumpi e do lé, lá no Terreiro do Afonjá. Larô-iê!

* Lucas Jerzy Portela é psicólogo, mantem o blog de crítica cultural O Último Baile dos Guermantes e é ex-namorado de arquiteto – o que acaba por ser um atributo importante para um cicloativista newbie.

Mais:
Bó de Bike, Salvadô
Tuas ladeiras e montes, tal-qual um postal

Propostas para o Clima Urbano

A conferência da ONU sobre mudanças climáticas irá começar no dia 07 de dezembro em Copenhague. Até lá os países debatem entre si e internamente qual será o papel que irão se comprometer a assinar quando chegarem na Dinamarca. O Brasil por hora está comprometido com a redução do desmatamento da Amazônia, maior gerador de emissões do país. No entanto os compromissos a serem firmados podem colaborar para desenhar um futuro de prosperidade ambiental para os brasileiros.

O modelo de desenvolvimento do século XX já se mostrou fadado ao insucesso e as nações mais ricas do mundo já começaram a rever diversos conceitos. Todas as grandes capitais européias já estão refazendo o desenho de futuro urbano, e o uso da bicicleta naturalmente não para de crescer e ser incentivado. Nessa disputa informal entre as cidades, Amsterdã e Copenhague saíram a frente no planejamento cicloviário. Ambas redescobriram a bicicleta nos anos 1970 e hoje oferecem excelentes condições para que seus cidadãos possam pedalar para todos os lugares.

Reduzir as emissões de CO2 dentro das cidades é uma meta a ser debatida e que implicará diversos ganhos. No contexto urbano a queima de combustíveis fósseis mostra suas desvantagens comparativas de maneira mais clara. Natural portanto que o transporte público e o uso da bicicleta sejam prioridade absoluta. Reduzir o uso de derivados de petróleo no transporte urbano ajuda a reduzir as emissões globais de dióxido de carbono além de melhorar a qualidade do ar nas cidades.

As esferas locais, estaduais e o governo federal no Brasil tem nas metas de redução das emissões de carbono uma maneira de se alinharem ao futuro que já está sendo traçado. Os erros cometidos no século XX nas cidades mais ricas do planeta não precisam ser repetidos por nós para chegarmos a conclusão de que as melhores cidades do futuro serão aquelas em que todos podem ir e vir sem impactar negativamente o clima global, nem poluir o ar que respiram.

Mais cedo ou mais tarde o Brasil terá de se alinhar a “nova economia de baixo carbono” e o quanto antes for iniciada a transição, maiores serão os benefícios e menores os custos.

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Mais:
Política Estadual sobre Mudanças Climáticas (AM)
Política de Mudança do Clima no Município de São Paulo
Projeto de Lei da Política Estadual sobre Mudanças Climáticas (SP)
Rich cities: Don’t repeat our mistakes – Cop15.dk
Brasil não deve ter meta de emissão de CO2 – estadao.com.br

Abaixo um vídeo da Campanha TicTac sobre as cidades:

22 Pessoas, 2 Cachorros e o Clima from Leão Filmes on Vimeo.

Democracia à Propulsão Humana

O trânsito e o transporte afetam a sociedade como um todo. Todas as pessoas, indistintamente, têm necessidade de se deslocar de um lugar a outro, por qualquer meio de transporte que tenham ou estejam dispostas a usar.

A característica fundamental da sociedade brasileira é a desigualdade social. Em vez de atuar como indutor de mudanças, o Estado é usado secularmente como mantenedor de privilégios. No caso dos automóveis, soma-se uma política econômica que serve e submete-se a interesses de grandes grupos nacionais e multinacionais, há décadas.

Com isto, políticas públicas de trânsito e transporte têm sido exclusivamente favoráveis aos automóveis particulares, historicamente patrimonialistas, sem distinção entre interesses públicos e privados. Calçadas e espaços públicos são invadidos por proprietários particulares, sem que haja fiscalização ou embargos. Ruas e avenidas são duplicadas para atender pequeno número de moradores de condomínios de luxo. Permite-se estacionamentos em ruas e sobre calçadas para satisfazer interesses de comerciantes locais. Não há estudo do impacto destas obras na cidade como um todo. Ou, no máximo, as ruas são vistas como via de passagem e não espaço democrático.

Valorizar pedestres e ciclistas, impondo restrições a automóveis e priorizando o transporte público coletivo, são medidas que necessitam de uma verdadeira mudança de paradigma nas políticas públicas do município, estado e país. É necessário que os órgãos técnicos de trânsito estejam abertos à participação comunitária, por meio de orçamento participativo, grupos de trabalhos representativos e canais de comunicação eficientes e funcionais, seja na internet ou em debates abertos e audiências públicas.

É imprescindível que qualquer projeto de melhoria ou expansão da malha rodoviária passe por discussões abertas, que sejam consultados e ouvidos representantes de pedestres, ciclistas e deficientes físicos, e não unicamente orientados por interesses econômicos ou eleitoreiros.

Obras cicloviárias precisam passar pelo mesmo crivo. Se forem mal projetados e construídos, bicicletários, ciclovias e ciclofaixas não serão usados. Tornam-se um desperdício de recursos e fonte de argumentos para manutenção da cultura rodoviarista que teoricamente aquelas facilidades pretendiam contrapor.

Quanto mais democrática uma administração pública, mais obras para pedestres e ciclistas ela fará.

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Mais no blog:
Calçadas e Democracia

Para Identificar Problemas

A falta de ciclovias não é a única causa do pouco uso da bicicleta nas cidades brasileiras. Nem o trânsito violento. As causas são várias, complexas e se interligam, num círculo vicioso que se retroalimenta. Há problemas de infraestrutura e barreiras psicológicas individuais, além de uma educação deficiente e políticas públicas distorcidas por interesses e privilégios de grupos.

No dia a dia das cidades é possível ver as consequências que são conhecidas de todos. Excesso de uso do automóvel, problemas de saúde, deterioração do espaço urbano e colapso das cidades.

Estamos longe de conquistas fáceis e soluções simplórias. Pessoas, ONGs, empresas e prefeituras precisam trabalhar em conjunto para somar esforços e atuar nos seus campos de competência.

E o rio Pinheiros continua sendo…

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Vai haver uma ciclovia na margem do rio Pinheiros em São Paulo e os ciclistas foram chamados a conhecer o trajeto e um projeto arquitetônico para a área. Apesar da baixa qualidade da água a paisagem ao redor do rio é bonita, esquecida depois das pistas de alta velocidade e do trem as águas fluem banhando capivaras. Passam por pontes, estações de oxigenação, pela Usina da Traição. Passam e seguem.

O asfalto a beira do rio, perfeito para a fluidez de bicicletas está liso entre a usina da traição, na altura da estação Vila Olímpia, até Jurubatuba. Por isso será esse o primeiro trecho a ser inaugurado. São aproximadamente 14 quilômetros hoje utilizados como via de manutenção dos equipamentos públicos no rio. O pequeno volume de tráfego motorizado, alguns caminhões, caminhonetes e automóveis de funcionários constrasta com o engarrafamento constante nas pistas da Marginal Pinheiros. Na mesma margem do mesmo rio, diferentes usos do asfalto, trânsito motorizado intenso, enquanto mais próximo do leito do rio os ciclistas terão contato mais direto com os problemas e belezas do rio. Serão potencialmente os maiores fiscais para a melhoria da qualidade da água.

Cabe ressaltar que os planos para a ciclovia as margens do rio Pinheiros não é idéia nova e persiste um grande problema, os acessos. Ciclovias totalmente segregadas costumam ser promovidas como oasis para a segurança viária dos ciclistas. No entanto os acessos, cruzamentos e entroncamentos são os locais de problemas e conflitos. Na ciclovia do rio Pinheiros esse conflito é ainda mais dramático. Cercado por água, trilhos e diversas pistas de uma via expressa a ciclovia tem nos acessos mais do que um calcanhar de Aquiles, uma perna inteira. Serão inicialmente apenas dois acessos já prontos que serão adaptados. Um na vila Olímpia por uma passarela de serviço e outro em Jurubatuba.

Uma das demandas dos ciclistas em relação a essa nova via expressa para bicicletas (a mais longa a ser implantada em São Paulo) é justamente como inserir o fluxo de bicicletas nessa via segregada. A maneira como o espaço segregado para os ciclistas irá dialogar com o resto do tecido urbano é ponto chave para o sucesso do projeto. A cidade (e os ciclistas) seriam beneficiados se passos fossem dados em relação a equacionar o fluxo de pedestres (e de bicicletas) em todos as pontes do rio Pinheiros. Além disso, o positivo investimento em infraestrutura cicloviária deve vir junto de campanhas educativas pela segurança viária para além da ciclovia.

O Rio de Janeiro e as ciclovias na beira da orla são um bom exemplo da necessidade de compatibilizar infraestrutura e campanhas educativas. Ciclistas precisam saber como se portar em uma via exclusiva para eles e ao mesmo tempo (e mais importante), o motorista precisa saber que o fluxo de bicicletas vai além das ciclovias e tem direito e prioridade no uso de todas as ruas da cidade. Na cidade maravilhosa o fluxo de bicicletas só agora começa a ganhar nas ruas o respeito previsto em lei.

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Documento aberto de sugestões de ciclistas para a obra.

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