A mais bela ciclovia e falsas polêmicas

Uma matéria publicada no Jornal “O Globo” gerou reações apaixonadas por quem gosta ou promove a bicicleta. O título já resume a questão:

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Surfando nos comentários, o humor imperou: “Dirige olhando pra frente! Se quiser olhar pro mar compra um barco“.

Uma das mais belas pistas construídas no Rio de Janeiro, a avenida Niemeyer sempre foi local inóspito para os pedestres e ciclistas. Sendo as maiores dificuldades sofridas por quem vai a pé, equilibrando-se na mureta entre o despenhadeiro e o trânsito motorizado.

A via compartilhada entre pedestres e ciclistas irá garantir o acesso à paisagem e principalmente a segurança e tranquilidade de todos que desejem ir do Leblon à São Conrado fazendo o uso da própria força.

Por conta da comoção em torno da inadequação da reportagem, ciclistas cariocas elaboraram uma carta ao jornal que até o momento ainda não foi acolhida ou publicada. Em resumo, os ciclistas devolveram nos anos 1990 a vista do mar através das ciclovias na orla da Zona Sul, antes bloqueadas por automóveis estacionados.

Agora alguns pequenos trechos entre o Leblon e a Barra terão bicicleta e seu azul como paisagem para os motoristas e passageiros por ventura presos em congestionamentos. Abaixo o texto, compartilhado inicialmente no facebook.

Carta-resposta à matéria “Ciclovia na Niemeyer e em São Conrado atrapalhará a visão do mar para quem estiver de carro”, publicada em 20 de setembro no jornal O Globo

Prezados editores e repórteres do jornal O Globo,

Fazemos parte de um grupo de pessoas que utiliza e promove a bicicleta como meio de transporte na cidade do Rio de Janeiro. Visitamos as obras da ciclovia da Av. Niemeyer em abril deste ano. O geólogo da Geo-Rio e fiscal da obra da ciclovia, Élcio Romão, que lamentavelmente não foi ouvido na matéria “Ciclovia na Niemeyer e em São Conrado atrapalhará a visão do mar para quem estiver de carro”, nos mostrou os desafios técnicos para execução do projeto que beneficiará, principalmente, os moradores do Vidigal e da Rocinha. É uma obra complexa que envolve diversos tipos de tecnologias, desapropriações de imóveis, tratamento de encosta e realocação de árvores e vegetação.

Em resposta à matéria publicada no dia 20 de setembro no jornal O Globo, seguem algumas considerações:

Já no título, o jornalista parte do ponto de vista do motorista do carro. Rapidamente passamos a perceber que as falas escolhidas como opiniões mais dizem contra do que a favor das ciclovias.

Vamos aos argumentos:

“No trecho em que a ciclovia está na altura da tubulação da Cedae, quem estiver de carro não verá o mar” – a fala é do arquiteto e urbanista Canagé Vilhena. Como o Presidente da Comissão de Segurança do Ciclismo do Rio, Raphael Pazos, bem afirmou, o motorista que usa a Niemeyer não pode se distrair observando a paisagem, ele deve estar concentrado na direção do veículo. O tempo de travessia de um automóvel a 40 km/h é de 1 minuto e 48 segundos. Devemos prescindir de infraestrutura e segurança para o pedestre e o ciclista para que o motorista veja o mar por menos de dois minutos? Além disso, crescemos num Rio de Janeiro de monstros, construções catastróficas como a Perimetral, que tornaram áreas densamente povoadas cuja arquitetura é um patrimônio da cidade, em desertos cinzas e violentos. Considerando a quantidade de viadutos e vias expressas da cidade, a construção da ciclovia da Niemeyer causará um impacto mínimo pra não dizer nulo na paisagem. Além disso, está prevista a construção de mirantes ao longo do trecho, possibilitando ao carioca novas formas de vislumbrar a cidade. Com certeza, a Niemeyer estará muito mais aberta às pessoas e atrairá muitos turistas.

“Com a mureta de proteção da ciclovia, será impossível ver o mar para quem estiver dentro de um automóvel”. Canagé complementa sua fala anterior citando uma possível mureta. No entanto, não existe mureta prevista no projeto e sim uma grade de proteção, como pode ser visto neste video: https://www.youtube.com/watch?v=cEKWK0s37z0
Ou seja, a ciclovia não irá atrapalhar a visão dos motoristas e sim os ciclistas que por ela passarão a circular. Vale lembrar que, em 1992, os ciclistas brindaram os motoristas com a vista exuberante da orla de Copacabana que, antes da ciclovia, era uma área tomada por carros estacionados.

“Se a ideia era construir uma ciclovia, a prefeitura poderia muito bem ter investido numa estrutura mais larga, pensando também nos pedestres”. Mais uma pessoa que demonstra desconhecer o projeto. A frase é da vice-presidente do IAB, Fabiana Izaga. A ciclovia da Niemeyer é uma ciclofaixa compartilhada, ou seja, o espaço será compartilhado entre ciclistas e pedestres, como a ciclovia da Lagoa. Na maior parte dos trechos, segue o tamanho padrão para ciclovias. Nos locais que vão de encontro a muros e fachadas das mansões à beira-mar, o trecho será mais estreito. É importante reforçar que, em ciclofaixas compartilhadas, a preferência é sempre do pedestre.

“Aparentemente faltou planejamento” – a frase é da presidente da Associação de Moradores do Leblon, Evelyn Rosenzweig. Gostaríamos de saber em que momento esta senhora se interessou em conhecer o projeto mais profundamente? Quando esteve na prefeitura ou mesmo no canteiro de obras para conhecer os detalhes? Será ela uma usuária da bicicleta, do automóvel ou do transporte público? Como é possível um jornal como O Globo publicar uma opinião que começa com “aparentemente”, palavra vazia que nos remete a uma especulação. Como ciclistas diretamente envolvidos com a implantação de ciclovias junto à prefeitura sabemos o tempo que demora para um projeto como este acontecer: são muitos anos entre o início do planejamento e a execução. Ou seja, se alguma coisa faltou não foi o planejamento.

Infelizmente, o jornal não cumpriu sua tarefa de informar bem os seus leitores. Nenhuma das fotos que ilustram a reportagem foi feita por profissionais do jornal, e a matéria dá a entender que o repórter nem esteve no local para ver o trecho que cita. Faltam apuração e informações essenciais para o entendimento da falsa denúncia. A matéria parece estar muito mais preocupada em surfar na falsa rivalidade entre motoristas e ciclistas do que realmente informar os cidadãos sobre seus direitos e propor um debate sério sobre o tema.

Por 99 anos (desde a inauguração da Avenida Niemeyer), pessoas em bicicletas ou a pé são muito mal recebidas no local. Pela agressividade costumeira do motorista carioca, circular pela Niemeyer é difícil, perigoso ou no mínimo desconfortável. Nesses 99 anos, O Globo nunca se deu ao trabalho de questionar a falta de acesso à “visão do mar” para quem não está de carro. O jornal é feito para quem? Nitidamente, não para o bem comum, não para a cidade do Rio de Janeiro.

Enviamos esta carta à redação do jornal O Globo e até o presente momento não tivemos retorno. Por favor, compartilhem.

Assinam esta carta: André Casati, Andréa Cals, Arlindo Pereira Jr., Bê Lima, Carlos Aranha, Carolina Queiroz, Crix Lustosa, Eduardo Bernhardt, Elcio Cardoso da Silva, Blé Binatti, Maysa Blay, Michelle Castilho, Michelle Chevrand, Raphael Pazos Español, Renan Braga, Rosa Maria Mattos, Tati Carvalho, Tiago Moraes Leitman, Ze Lobo.

Pedalemos, na mais bela das ciclovias, onde será ainda mais fácil e tranquilo ultrapassar mais de 100 carros em 5 minutos.

Um perfil de quem usa a bicicleta no Brasil

Estão disponíveis os primeiros dados da pesquisa “Perfil do Ciclista” que irá traçar um panorama de quem utiliza a bicicleta como meio de transporte no Brasil. Ainda preliminares, os dados já dão um grande panorama sobre quem já pedala e nos ajuda com pistas para que mais pessoas escolham pedalar.

A maioria dos ciclistas brasileiros entrevistados tem entre 25-34 anos, concluiu o ensino médio, recebe até 2 salários mínimos, pedala até 30 minutos no seu deslocamento principal, não se envolveu em incidentes de trânsito recentemente e, principalmente, gosta de pedalar. A  bicicleta é o principal meio de deslocamento das pessoas ouvidas que pedalam no mínimo 5 dias por semana de porta a porta, sem integrar com qualquer outro meio de transporte.

– Confira os resultados preliminares da pesquisa nacional do perfil do ciclista 2015.

Rio de Janeiro, cidade que ama pedalar

Dos dados preliminares do Rio de Janeiro, o que salta aos olhos é a frequência com que as pessoas entrevistadas pedalam. Cerca de 81,2%  utiliza a bicicleta no mínimo 5 vezes por semana. Desse total 37,20%  pedala de domingo à domingo, 27% utiliza 5 vezes por semana e 17% pedala 6 dias por semana.

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As pessoas que usam a bicicleta no Rio são em sua maioria jovens entre 25-34 anos (27,7%). Já 21,9%  tem entre 35-44 anos e 19,4% 15 a 24 anos.

Em relação à renda 59,8% recebe até 3 salários mínimos. Sendo 30,7% entre 1 e 2 S.M., 16,2% de 2 a 3 S.M. e 12,9% até um salário.

A integração modal é mais representativa do que na média nacional, com 34,5% das pessoas utilizando a bicicleta somada a outro meio de transporte.

Na variável tempo, 83,6% utiliza a bicicleta para deslocamentos de até 30 minutos. Sendo 56,6% mais de 10 e menos de 30 min. e 27% pedala no máximo 10 min. em sua viagem mais frequente.

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São Paulo vive revolução cicloviária que precisa alcançar a periferia

Um olhar específico sobre as cidades mostra a diversidade local e também algumas consistências em relação aos dados nacionais. Nos dados preliminares de São Paulo, chama a atenção o desejo por mais infraestrutura e como o aumento da malha cicloviária impulsionou o uso da bicicleta. O levantamento conduzido pela Ciclocidade já nos traz reflexões que estão além dos números.

Como forma de melhorar seus deslocamentos diários, 50% dos entrevistados sugerem a implantação de mais vias exclusivas para ciclistas na cidade. Já dos entrevistados que disseram nunca usar ciclovias em suas viagens, 80% estão na periferia.

Sobre quando a bicicleta começou a ser usada como meio de transporte, dois extremos se destacam entre as respostas: 29% dos entrevistados pedalam há mais de 5 anos, enquanto 19% há menos de 6 meses. O alto número de “novatos” pode se dever à influência da expansão da malha cicloviária na cidade – nas áreas central e intermediária, praticamente 40% dos ciclistas começou a pedalar há menos de um ano.

Com relação à renda, quase 40% dos ciclistas da capital paulista ganham entre 0 (sem renda) e 2 salários mínimos (R$ 1.576).

Com relação a faixa etária, também quase 40% dos ciclistas têm entre 25 e 34 anos. Ciclistas entre 35 a 44 anos compõem a segunda faixa etária mais presente, com cerca de 27%.

Mais de 70% dos ciclistas afirmam usar a bicicleta pelo menos 5 vezes por semana, indicando que a bicicleta é, de fato, o principal meio de transporte para muitos paulistanos. Este resultado se repete entre homens e mulheres.
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O tempo dos deslocamentos em São Paulo mostram a distribuição espacial da cidade das longas distâncias. Ainda que 54,2% pedalem entre 10 e 30 minutos, 29,2 % pedala entre 30 min e uma hora. A longa distância entre os locais de moradia e os de emprego e estudo é certamente o maior drama paulistano, mais um que a bicicleta ajuda a contornar.

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Em breve iremos publicar também os dados preliminares das outras cidades.

Faça o download das planilhas:

Saiba mais:

Quem são os ciclistas brasileiros
Quase 75% dos ciclistas de São Paulo pedalam em área sem ciclovia
Maioria dos ciclistas do Rio são de baixa renda

Comprovado: infraestrutura gera demanda

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Contagem realizada pela Transporte Ativo comprova que a infraestrutura cicloviária em implementação em Laranjeiras será um indutor de demanda por mais viagens em bicicleta na região. A ciclovia ainda nem está pronto e o movimento já é grande, vai aumentar muito ainda.

Foram 12 horas de contagem automática, realizada no dia 3 de setembro em trecho já dotado de ciclofaixa. O resultado foi surpreendente, 975 ciclistas, confira o relatório em PDF.

Com as obras da infraestrura cicloviária ainda em andamento o volume de ciclistas foi maior que o encontrado nas contagens realizadas recentemente, com a mesma metodologia, nas já consolidadas ciclofaixas das ruas Figueiredo de Magalhães e Toneleros em Copacabana.

 

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A rua das Laranjeiras é grande via principal que liga o Cosme Velho ao Largo do Machado ponto central para quem vem e vai em direção ao Flamengo, Botafogo e Catete. O longo eixo viário Laranjeiras-Cosme Velho concentra todo o tráfego de ônibus, bicicletas, carros, motos e pedestres em um espaço limitado. De acordo com as possibilidades, a infraestrutura em implantação vai da via compartilhada à ciclovia.

No trecho onde foi feita a contagem, a implantação de uma ciclofaixa de mão dupla em substituição as vagas de automóveis transformou a dinâmica da via, facilitando os deslocamentos em bicicleta e aumentando a segurança viária.

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O trecho estudado tem uma importante função de conexão, ligando às ciclorotas de Cosme Velho até o terminal de Cosme Velho; à Ciclovia Fluminense (para Botafogo); à ciclofaixa até o Largo de Machado (a ser implantada no próximo mês) e a partir do Largo do Machado conectando à ciclovia de Aterro de Flamengo. Foi apenas a primeira contagem de bicicletas automática feita no local e será repetida após a implantação completa das obras cicloviárias e depois anualmente.

Com a rede completa, aos poucos a tendência é a humanização dos fluxos com o compartilhamento nas vias incentivando a convivência segura entre pessoas, estejam elas na condução de veículos motorizados ou pedalando.

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Saiba mais:
Bicicletas e ciclovias, da sala de aula para a rua
Equipamento utilizado para a contagem de ciclistas.
Resultado das outras contagens citadas:

Na França bicicleta pode circular no contrafluxo

O Code de la Route, o Código de Trânsito da França, foi alterado como parte do plano nacional de incentivo ao uso da bicicleta. A premissa é garantir que lógica de circulação de quem pedala seja incorporada à legislação do país. Afinal, toda regra é uma construção social.

Com iniciativas piloto realizadas em diversas cidades francesas desde 2012, ciclistas poderão circular no contrafluxo em todas as ruas com limite de velocidade igual ou menor que 30 km/h de acordo com novas regras de trânsito adotadas nacionalmente. A contramão fica liberada a não ser em caso de proibição expressa.

Ciclistas também não precisarão mais seguir pelo bordo da pista, poderão utilizar o centro da pista. A idéia não é irritar motoristas, mas garantir a segurança de quem pedala contra a desatenção de quem por ventura abre a porta do automóvel.

Além disso, a bicicleta também pode circular livremente em zonas de pedestres (calçadões, por exemplo) em ambos os sentidos a não ser que expressamente desautorizado pela autoridade local.

A adaptação gradual do Code de la Route foi promessa do ministro dos Transportes Alain Vidal como prosseguimento do “Plano de Ação para a mobilidade ativa” (Pama) lançado pelo seu antecessor no começo de 2015. O plano e as alterações no Código de Trânsito francês fazem parte do apoio do governo federal para que as comunidades locais possam promover cada vez mais o uso da bicicleta. O anúncio das mudanças legais foi feito em junho durante o VeloCity 2015 em Nantes, elas foram promulgadas no mês seguinte e passam a valer no dia 01 de janeiro de 2016.

Porque ciclistas circulam na contra-mão

Pessoas que pedalam regularmanente sabem que mão e contra-mão de direção são regras estabelecidas para a segurança e conveniência dos condutores de veículos motorizados. Pedestres e também ciclistas, buscam sempre o caminho mais curto e seguro possível.

Desde 2012 diversas cidades francesas vem permitindo e sinalizando a circulação de bicicletas no contra-fluxo e tal medida comprovou que não aumentam as ocorrências de trânsito, pelo contrário, a medida agiliza a circulação de ciclistas e dá mais comodidade. O governo francês apenas adotou como norma um uso das ruas comum por parte de quem pedala e com isso incentivou ainda mais o uso da bicicleta.

Ao questionar a lógica dos sentidos de direção, os órgãos de trânsito na França puderam caminhar em direção a humanização do viário no país. Afinal, limites de velocidade motorizada menores favorecem aquilo que é a utopia viária, a convivência nas ruas com base na atenção às pessoas. Menos placas, menos lógica rodoviária nos espaços urbanos e mais olho no olho e atenção aos mais frágeis.

Leia mais:

Francia autoriza circular en contrasentido

Quem são os ciclistas brasileiros

Foto: Carlos Aranha

Foto: Carlos Aranha

A Transporte Ativo, em parceria com outras 9 organizações em defesa da bicicleta, está realizando um levantamento do perfil dos ciclistas brasileiros. O objetivo é entender o que motivou as pessoas a começarem a pedalar e o que as faz seguir em frente. Com base na pesquisa, será possível  direcionar com maior eficiência os esforços de promoção ao uso da bicicleta

A iniciativa faz parte da “Parceria Nacional pela Mobilidade por Bicicleta” que busca mapear o Brasil que pedala. Serão levantadas idade, renda, motivação para usar a bicicleta, o tempo médio do principal trajeto feito em bicicleta, para onde é esse trajeto, se ela é combinada com outros meios de transporte. Além disso, as organizações parceiras poderão escolher até 4 perguntas específicas para suas cidades.

A quantidade de entrevistados varia de acordo com o tamanho da população, em São Paulo serão 1.784 questionários aplicados por 9 pesquisadores. E em todas as cidades o levantamento será feito nas áreas centrais, intermediárias e periféricas  em pontos que já possuem infraestrutura cicloviária, pontos que ainda não possuem e os chamados “pontos de intermodalidade”, nos quais a bicicleta se relaciona com outros modais de transporte.

Relatos de uma pesquisa de campo em bicicleta

Mais do que dados a serem planilhados, a pesquisa acaba mergulhando em histórias. São ciclistas já idosos que nem ao menos lembram quando pedalaram pela primeira vez ou histórias de neófitos desbravando a cidade com prazer e vento no rosto.

Para enxergar um pouco do que não será tabulado, Marina Harkot, pesquisadora pela Ciclocidade em São Paulo compartilhou duas histórias de pessoas que usam a bicicleta na mais populosa cidade brasileira.

esse é o Julião. ele mora na rua há tanto tempo que já nem lembra mais até que série estudou. faz de tudo um pouco e acha que a melhor coisa da bicicleta é conseguir carregar suas poucas posses de cima pra baixo, pela cidade inteira. pedala desde sempre, não consegue pensar em um período de tempo exato.
quando pedi pra tirar uma foto sua, demorou uns 5 minutos pra se arrumar – tirou o boné, soltou os cabelos e se escondeu atrás dos óculos escuros. pediu para ver a foto, achou que tinha ficado escura e disse que era pra eu “comprar um celular melhorzinho”. foi embora tão sorrateiramente quanto chegou – e nem me deu tempo para agradecer a conversa e dizer o quanto que gente como ele me faz sentir viva.

O triciclo de Lineu, por Marina Harkot

O triciclo de Lineu, por Marina Harkot

o dono desse triciclo é o Lineu. ele tem ataxia cerebelar – uma doença degenerativa – e começou a usar a bicicleta para recuperar massa muscular (disse que hoje em dia tem “até bunda de novo”).
Lineu deixa uma cadeira de rodas “estacionada” no bicicletário da estação Sé e usa o triciclo pra rodar por aí – visita a família na Freguesia do Ó pedalando desde a Barra Funda, em duas horas de caminho.
quando chega na Sé, troca o triciclo pela cadeira de rodas e segue de metrô para a Leste, onde mora. amanhã está de volta aqui pelo centro.

Cada pessoa em bicicleta merece sempre os maiores incentivos. Por vezes ouvir suas histórias já representa um carinhoso agradecimento. Fica o convite para que as pesquisadoras e pesquisadores Brasil afora compartilhem conosco seus relatos e seus personagem.

Por mais pessoas felizes em bicicleta.

Saiba mais:

A “Parceria Nacional pela Mobilidade por Bicicleta” é uma iniciativa da Transporte Ativo, com patrocinio do Banco Itaú e parceria com as organizações Ciclocidade (São Paulo), Mobicidade (Porto Alegre), BH em Ciclo (Belo Horizonte), Rodas da Paz (Brasília), Ameciclo (Recife), Bike Anjo Salvador, Ciclourbano (Aracaju), Pedala Manaus, Mobilidade NiteróiPROURBObservatório das Metrópoles , ITDP Brasil.