Três dimensões da qualidade de vida nas cidades

A maioria absoluta das cidades é incapaz de conceder três simples desejos: ter uma economia local forte, qualidade de vida e moradia com preços acessíveis. Um levantamento recente nos Estados Unidos pesquisou as 100 maiores zonas urbanas do país e encontrou apenas três que concentram as qualidades fundamentais que todos buscam.

É possível conseguir sucesso em até duas das variáveis, mas quase nunca em todas. Com o mínimo de observação é possível visualizar esse tripo dilema, ou “trilema” dentro de uma única cidade.

Fortalecimento econômico muitas vezes gera melhoria na qualidade de vida que costuma ser acompanhado de um aumento no custo de moradia. É possível ainda ter qualidade de vida à preços acessíveis, mas sem pujança econômica.

Inúmeros exemplos em terras brasileiras demonstram a dificuldade em conciliar o acesso à moradia com maior desenvolvimento econômico. Seja nos morros cariocas ou na periferia paulistana, para ter emprego e renda muitas pessoas são forçadas a buscar o que se define em termos técnicos como “habitações subnormais”.  Chamamos aqui de favelas, o que se trata de um o fenômeno global, pessoas de baixa renda com tetos precários sobre suas cabeças.

A análise passa menos por medir a qualidade das construções das favelas, mas no acesso à cidade pelos mais pobres. Ou simplesmente nos três simples desejos que qualquer pessoa pediria ao gênio da lâmpada: ter qualidade de vida, acesso à renda e conseguir ter onde morar.

Precisamos primeiro partir pressuposto que vivemos em um mundo maioritariamente urbano. Afinal, o êxodo rural foi um fenômeno do século XX. A população do mundo hoje é composta por urbanóides. Uma população que nasce, cresce e morre nas colméias humanas, nossos zoológicos de pedra.

Através do comparativo das cidades norte-americanas, é possível ter uma pequena dimensão do desafio que representa para uma nação economicamente periférica como o Brasil equacionar as necessidades de sua população. Nosso cobertor é ainda mais curto do que o estadunidense, mas nossos habitantes também partilham de desejos fundamentais que são certamente universais.

Desafio de urbanização tropical

Traduzir um modelo de urbanização tropical envolve centrar os maiores esforços em políticas de igualdade social em que o maior número de pessoas possa ter acesso ao maior horizonte de possibilidades possível.

O exemplo brasileiro mostra com clareza que cidades apenas para alguns, são cidades para ninguém. Os muros nunca serão tão altos, as blindagens nunca serão tão resistentes para deixar de fora a massa de excluídos. Realizar os três desejos urbanos só é possível quando são concedidos para todos.

Um primeiro passo certamente é uma melhor distribuição territorial das oportunidades econômicas, dentro do território urbano e também nas diversas cidades do país.

O simbolismo de São Paulo, locomotiva do país é justamente o erro que trouxe a cidade ao seu atual quadro de inchaço urbano com moradia cara e sem qualidade de vida.

Bicicleta é bom, mas não é tudo

O papel da bicicleta é acima de tudo marginal. Pelas margens das pistas congestionadas, pelos bordos das ruas e avenidas ciclistas desbravam outras cidades possíveis.

Para usar a bicicleta sempre, o ideal é ter trabalho perto de casa, ou os deslocamentos diários tornam-se maratona atlética em busca de dinheiro. É preciso portanto garantir moradia perto dos empregos unindo uma economia local forte e moradia acessível.

Já qualidade de vida é inerente ao uso das magrelas. Deslocar-se utilizando as próprias pernas envolve necessariamente um ambiente agradável, do contrário ser ciclista torna-se um eterno nadar contra a corrente em um rio infestado de piranhas e jacarés famintos.

De maneira resumida, a bicicleta sozinha pode não resolver todos os problemas, mas certamente é capaz de abrir os primeiros caminhos para as soluções desejadas e necessárias.

Leia mais:

Only Three US Cities Have Good Jobs, Affordable Housing, and High Quality of Life (Gizmodo)
The Housing Trilemma (Oregon Office of Economic Analysis)

Bicicultura, de evento a movimento

Slowride, devagar para chegar mais longe

Slowride, devagar para chegar mais longe

Quem participou da edição paulistana do Bicicultura 2016 pode nem se lembrar do caminho pedalado até aqui. Dentre os números, um favorito, mais de 800 bicicletas “manobradas” pelo serviço de estacionamento.

Dentre as iniciativas que promoveram a cultura da bicicleta, vale buscar na memória qual momento mais épico.

A primeira emoção foi ver os relógios públicos da cidade convocando para o Bicicultura, um passo rumo ao “ativismo main stream”. Depois faixas espalhadas pelas ruas do centro de São Paulo indicando interdições no viário, as famosas abertura de ruas para a convivência de pessoas.

O viaduto do Chá teve arrancadas, bike polo, mas foi também espaço aberto para o caminhar errático. Perto dali, no caminho até o a estação de metrô do Anhangabaú, foi possível ter a rua Xavier de Toledo inteira para brincar, domingo foi dia de empinar bicicletas.

Memorável mesmo foi a Feira da Bici que pareceu pequena até. Estava plantada na rua que se deu o nome de praça Ramos de Azevedo. Durante os 4 dias de evento, aquele espaço voltou a honrar seu nome.

Por ali o trânsito era leve. Pelas faixas vermelhas pintadas no chão cruzavam as bicicletas, no asfalto entre as barracas e a ciclofaixa caminhavam participantes do Bicicultura e a população flutuante do centro. Foi possível flanar na rua que se chama praça. Tomar café, fazer compras, comer um hambúrguer ou saborear um churros.

Nas calçadas da mesma praça Ramos teve campeonatos e manobras, mas teve também a lentidão do Slow Ride e simples caminhadas.

Além de todas as atividades no espaço das ruas, teve ainda a praça das Artes. Daqueles locais novos, ainda sem alma própria, mas com traço arquitetônico moderno e uso público com hora para fechar.

Por lá teve Mão na Roda, estacionamento para bicicletas, espaço bicicletinha palquinho e inúmeras atividades ao ar livre. Que além dos papos e encontros, somou-se às palestras e painéis que aconteceram simultaneamente nos espaços fechados.

Mas o destaque maior dos espaços fechados foi certamente a sala Olido, antigo cinema que viu no palco a união do mais engajado ativismo unido ao poder público e a iniciativa privada.

A abertura do Bicicultura 2016 foi um pouco de música para quem acompanha há mais de 10 anos esse tal de cicloativismo.

A história do Bicicultura

Foi exatamente em 2006 que São Paulo sediou o II Fórum brasileiro de mobilidade por bicicletas também conhecido como  2º Encontro Nacional de Cicloativistas. Nascido em Florianópolis em 2005, o evento foi embrião da fundação da União de Ciclistas do Brasil, que aconteceu no III Fórum no Rio de Janeiro.

Muitas das pessoas presentes no modesto espaço da Biblioteca Anne Frank em 2006 puderam testemunhar o crescimento da cultura da bicicleta em São Paulo nessa última década.

Mais do que um crescimento no número de participantes, cresceu a importância da bicicleta como movimento em prol da humanização das cidades. A cada revolução dos pedais do cicloativismo aumenta a intensidade e principalmente a diversidade de um grupo tão leve e forte quando as rodas das nossas amadas magrelas.

Esse foi apenas uma impressão do Bicicultura, centenas de outras seguirão circulando pela internet, nas festas e na alegria de uma verdadeira União de Ciclistas do Brasil.

O Bicicultura cresceu

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Após duas tímidas edições, a primeira em Brasília 2008, e a segunda em Sorocaba 2010, vem aí uma nova edição do Bicicultura. Desta vez repleta de atividades dentro de diversas vertentes do uso da bicicleta. Da infraestrutura à economia, do ativismo ao governo, do campeonato de arrancadas ao slow bike. Tudo concentrado em 4 dias na cidade de São Paulo, de 26 a 29 de Maio.

Estima-se a presença de mais de seiscentos ciclistas de norte a sul e de leste a oeste do país com participações por sul-americanas e até malaios. Será uma grande festa da bicicleta onde será possível ver e ouvir de tudo um pouco, uma oportunidade para troca de informações sobre esse maravilhoso veículo que neste inicio do século XXI, volta a demonstrar todo o seu potencial para melhorar nossas cidades no presente e no futuro.

A Transporte Ativo estará presente mediando o painel “ Bicicleta cargueiras e courrier: solucionando a logística de entregas nos centros urbanos“. Apresentaremos o projeto Ciclo Rotas Centro, no painel “Planejamento Cicloviário”, participaremos do painel “Mapeamento colaborativo – produzindo e compartilhando dados georreferenciados”, relançaremos o livro “Frota de Bicicletas” e ainda realizaremos a atividade externa “ slow bike” em parceria com Pedalentos.

Inscreva-se, participe, faça parte dessa grande festa da bicicleta no Brasil.

Paternidade, crianças e espaço público

A paternidade é um videogame repleto de desafios em que cada fase concluída é apenas o início da seguinte. Criar uma criança acostumada a circular pela cidade é desafio maior do que qualquer jogo.

Após o nascimento de uma criança o corpo vai se amadurecendo aos poucos. Da firmeza do pescoço até o caminhar os músculos vão se construindo. Ao mesmo tempos os ossos se alongam, as conexões no cérebro se multiplicam.

Junto com a criança, nasce também o medo dos pais. A pequenez e fragilidade da vida está lá demonstrada a todo o momento, mas tal como um passarinho que aprende a voar jogando-se do ninho, assim também somos nós.

A mais divertida das tarefas de educar uma criança é apresentar o mundo ao redor. Tal introdução envolve conduzir pelas ruas uma vida pelo qual somos totalmente responsáveis.

Face a agressividade motorizada e dos riscos de um ambiente urbano criado nos moldes de autoestradas, muitas famílias blindam-se. As crianças então circulam presas nas carruagens de aço e vão de um espaço fechado ao outro.

Da aurora da nossas vidas que é a infância, leva-se tudo e quase nada. Ficam gravadas as marcas dos hábitos que vão se formando e das habilidades adquiridas. Apresentar o mundo para uma criança em uma grande cidade envolve permitir que elas circulem livres pelas calçadas.

O olhar atento e a companhia próxima são vacina contra a imprudência de automobilistas e as inúmeras saídas de garagem. Mas são nos canteiros de flores, nas árvores, grades e escadas pelo caminho que nossos filhos podem conhecer o espaço onde vivem para futuramente dominá-lo.

Chega um dia então que é hora de envolver transportes ativos na equação, primeiro um patinete, logo então uma bicicleta sem pedais. Aumenta a velocidade e o pai torna-se atleta enquanto a criança se apaixona pelo vento no rosto.

Na mais tenra idade, poder voar em liberdade é privilégio. Prazer e alegria que marcam de forma indelével o resto de nossos dias.

Muitos de nós lembram das primeiras pedaladas, quem nos ensinou e guardam na memória a sensação da conquista do equilíbrio. Por meio de uma bicicleta de equilíbrio, antes dos 2 anos de idade, ser ciclista entra na parte das memórias gravadas no inconsciente.

As memórias conscientes costumam aparecer somente após os 3 anos de idade, a bicicleta quando introduzida desde a mais tenra infância é portanto das marcas que se assentam na alma, é como a nossa língua materna que nossa razão nos diz que sempre soubemos, mas que na realidade aprendemos cedo demais para nos lembrarmos.

Cada criança que descobre o vento no rosto torna-se possibilidade futura de cidades livres de parabrisas e blindagens. Liberemos então as calçadas para a infância e avancemos por grandes distâncias carregando em nossas bicicletas, sentadas nas cadeiras as mais preciosas vidas que temos, aquelas que trouxemos ao mundo em nome das quais defendemos cidades amigas da bicicleta.

Um carrinho de bebê ou um adulto com uma criança no colo circulando pelas ruas é documento vivo sobre a necessidade de espaços agradáveis e seguros para circulação humana. Uma criança livre em um meio de transporte ativo, ou sentada como passageira em uma bicicleta é mostra concreta de que outras cidades são possíveis.

Leia mais:

Why Are Little Kids in Japan So Independent?

The benefits of biking to school

Pedalar é uma forma de teletransporte

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Qualquer pesquisa básica na internet irá dar muitos resultados sobre os benefícios para a saúde do uso da regular da bicicleta. Já quem se dispuser a organizar um desafio intermodal, rapidamente comprovará o óbvio: pedalar é o meio de transporte mais rápido nas cidades.

Um novo estudo no entanto prova o que antes parecia conversa de ciclista. Pedalar leva você de um lado a outro INSTANTANEAMENTE, ou seja sem gastar NENHUM tempo.

Os dados da pesquisa vieram da análise dos hábitos de deslocamento de 50.000 pessoas na Holanda. A maioria delas, naturalmente, pedalava com alguma regularidade ao longo da semana.

A conclusão foi que para cada 75 minutos gastos no selim da bicicleta (11 minutos por dia em média), há um acréscimo de 6 meses na expectativa de vida. Até aí, sem novidades, várias pesquisas já indicam resultados similares.

Sempre a mesma história, tenha hábitos de alimentação saudáveis e coloque seu corpo para se exercitar. Boa comida e um coração batendo forte no peito são garantias de uma vida longa.

É importante, no entanto, analisar os números com atenção. Onze minutos por dia são 3.906 minutos por ano. Ao final de 70 anos, serão 273.385 minutos o que é uma outra forma de representar seis meses.

É exatamente o tempo que sua expectativa de vida irá aumentar se você pedalar 11 minutos por dia.

Ou seja…

Cada minuto que você gasta pedalando aumenta sua expectativa de vida em um minuto.

E não é só isso, a bicicleta irá também aumentar seus níveis de endorfina (o hormônio da felicidade). Basta lembrar aquela primeira pedalada até o trabalho (ou a escola) e a poderosa sensação que veio depois de chegar.

Assim, na próxima vez que for decidir qual a melhor forma de ir até onde precisa, esqueça os cálculos de tempo do Google Maps. Montar na bicicleta e sair pedalando é basicamente tempo livre. Cada minuto sobre pedais, flutuando sobre ruas, avenidas e ciclovias irá voltar para você. Todo o tempo investido será revertido, sem qualquer perda.

Na ponta do lápis, a bicicleta é basicamente um meio de teletransporte. Um teletransporte que deixa você mais feliz e ainda economiza dinheiro.

Vida longa e próspera.

Esse texto é uma tradução adaptada de: Bicycles are instantaneous teleportation devices, says science | PeopleForBikes