Extremos Climáticos

Mesmo quando a neve cai, Copenhague continua sendo ciclável. Nada de especial nas bicicletas e nem mesmo seus ciclistas são mais poderosos do que os nossos. Apenas para garantir que um número relevante de pessoas continue pedalando, a prefeitura tem tratores especiais que limpam as ciclovias.

As alternativas fazem com que pedalar, mesmo no frio, sejam vantajosas. Afinal a bicicleta possibilita pontualidade, como sempre, e é prática como em qualquer lugar o ano todo. No entanto os transportes públicos ficam mais cheios por conta do frio e torna-se uma questão de análise racional de opções.

Para fazer um paralelo com o Brasil, ao invés de neve em janeiro, temos chuvas (em algumas regiões) e o calor. Pode parecer surpreendente, mas os incentivos e atitudes individuais dos ciclistas tem de ser similares tanto na neve quanto em tempo chuvoso ou no calor.

O desconforto climático de pedalar com grandes casacos é similar ao que tem de enfrentar um ciclista tropical e a atitude a ser tomada é a mesma, manter um ritmo constante e mais lento do que quando o clima está ameno. Já para quando a neve ou a chuva caem, o certo é reduzir a velocidade e tomar mais cuidado nas curvas, afinal a aderência dos pneus da bicicleta diminui. Em caso de calor o ciclista também deve optar por rotas mais arborizadas, afinal sombras são sempre mais agradáveis do que asfalto e concreto por todos os lados.

Para incentivar os ciclistas a seguirem pedalando mesmo com condições climáticas aparentemente adversas, medidas simples:

– Bicicletários seguros e cobertos para garantir que a bicicleta não vai ficar exposta as intempéries além do estritamente necessário, isto é, quando em movimento;

– Vestiários para quando o suor for além do aceitável. Afinal o costume indígena do banho diário chegou até os dias de hoje entre os brasileiros. E o calor tropical é também um grande incentivo a esse hábito;

– Por fim, ruas mais arborizadas e medidas de promoção a um micro-clima mais saudável nas cidades. Afinal árvores ajudam a resfriar a temperatura e ao mesmo tempo aliviam das chuvas mais fortes.

Quebra-Cabeças pós crise

Em outubro de 1973 o mundo inteiro descobriu que a dependência pelo petróleo era inimiga da economia. Foi a primeira crise, um baque que desacelerou o mundo macro-economicamente e forçou a buscas por alternativas. Mas são justamente os momentos de crise que ressaltam grandes oportunidades e principalmente novos caminhos.

Vale pinçar, dentre as diversas medidas de mitigação das crises do petróleo (houve logo depois a de 1979), dois países que são hoje exemplos para o mundo, por motivos distintos, Brasil e Dinamarca. Um nórtico e rico e o gigante latino americano em seu momento “Ame-o ou deixo-o”.

O Brasil do final dos anos 60 e início dos anos 70 era uma versão latina da China atual. Franca expansão econômica das “indústrias de base”. O milagre durou pouco, mas o ideario de “aumentar o bolo” ainda continua vivo na política econômica tupiniquim.

Com o primeiro choque do petróleo, o governo brasileiro voltou-se para o etanol a base de cana-de-açúcar como alternativa viável para abastecer a frota de automóveis nacionais que precisava continuar chegando ao mercado. Importar o petróleo tornou-se proibitivo, mas não só no Brasil.

Mesmo a rica Dinamarca passou por dificuldades com a crise. Mas as alternativas foram bem diferentes das adotadas no país tropical. O frio nórdico e a extensão territorial não abriam caminho para biocombustíveis. A solução foi diversificar as fontes geradoras de eletricidade para poder garantir o abastecimento dos aquecedores domésticos no inverno. Para os deslocamentos das pessoas, o país redescobriu a bicicleta. Veículo que facilita cidades mais densas e que por ser individual, é alternativa racional ao automóvel particular em curtas distâncias. Afinal, no espaço urbano a maior parte das viagens são curtas o suficiente para serem percorridas a pedal.

No século XXI os biocombustíveis são a moda e as bicicletas presença obrigatória para o bom planejamento urbano. Mas a ousadia dinamarquesa só tem sido efetivamente valorizada nos últimos anos. Planejar cidades que incentivem pessoas a pedalarem mais vezes e mais longe é algo que gera um círculo virtuoso de impacto local e global. Em Copenhague as pessoas simplesmente pedalam por ser a bicicleta uma excelente alternativa, mas foi uma decisão política tomada décadas atrás que construiu as facilidades.

A escolha de facilidades é portanto um excelente orientador para cidades e países. Aos militares brasileiros interessava incentivar a expansão industrial centrada na produção de automóveis. Os dinamarqueses ensinaram a viabilidade econômica de fazer mais, com menos. Os cidadãos e as cidades só tem a agradecer até hoje.

Parafraseando Jan Gehl em relação aos quase 40 anos da revolução ciclística dinamarquesa: o pode ser feito no Brasil para que a cada dia acordemos em cidades um pouquinho melhores do que ontem?

O mais simples meio de transporte

Caminhar é a maneira mais antiga de ir de um ponto a outro, mas é sempre bom relembrar. Conhecer o próprio bairro a pé, ou refazer um trajeto rotineiro andando é certamente uma atividade lúdica e até mesmo científica. É oportunidade para descobrir a moda das ruas e a arte dos muros, a melhor maneira de conhecer o comércio e ver in loco quem frequenta os botecos.

As grandes cidades vão muito além da capacidade humana de absorver conhecimento. Tanto acontece ao mesmo tempo e muda com frequência tão grande que nem mesmo a criatura que criou a cidade é capaz de compreende-la e conhece-la. Caminhar pelas ruas é por isso a melhor maneira de, sem sucesso, entender a urbe. Flanar é arte antiga, mas as vezes ir pelos próprios pés procurando algo que não se acha é ser objetivo e sonhador com um pé depois do outro.

O trajeto nunca é o mesmo quando caminhamos, em cada lado da rua, uma calçada. Em cada calçada pontos de interesse distintos, prédios, perspectivas e sempre encontros fortuitos com o inesperado. Um amigo na esquina, moça bonita que passa, rapaz faceiro que segue seu rumo. Casal de idosos de mãos dadas.

Caminhar é o meio de transporte mais antigo e certamente nunca pode ser esquecido. Por mais que sejamos incapazes de entender a diversidade da urbe, melhor fazer parte dela movendo-se com os próprios pés. Para saber dos problemas, das vantagens e ao mesmo tempo sentir-se vivo e fazer parte de onde se vive.

Uma música de flaneur apaixonado a beira mar:

Wilson Simoninha – É bom andar a pé.

E foi um Feliz Ano Velho

O ano de 2009 acabou. É o tempo que segue seu rumo sem nunca parar, um pouco como a bicicleta que só existe em pé quando está em movimento. Na entrada de 2010, um bom momento para dar uma breve olhada para trás, para logo seguir o rumo. Por isso preparamos um mini-site especial com a retrospectiva 2009

Ao olhar para trás, fica a certeza de que o caminho à frente é longo. Por isso vale conferir um pouco da trajetória passada. Confira abaixo alguns destaques do ano que passou, e que seja também um feliz 2010.

  • Publicações Internacionais.
  • A Transporte Ativo novamente é citada em publicações internacionais como referência de boas práticas. Fomos capa da Revista Fietserbond Vogel Vrije Fietser com a matéria:Pioneiros do Exterior

  • Palestra Cidades e o Uso do Espaço Público.
  • A convite da Prefeitura e do ITDP, realizamos uma palestra de conscientização e sensibilização sobre o tema na coletiva de imprensa para lançamento das atividades do Dia Mundial sem, Carros no Cidade do Rio de Janeiro no Palácio da Cidade.

  • Contagens de Tráfego de Bicicletas.
  • Curso Introdução ao Mundo Cicloviário na Holanda.
  • Convidados pela organização Holandesa Interface for Cycling Expertise, ICE para mininstrar treinamentos para que o curso pudesse ser replicado por outras organizações em outras cidades do Brasil e do Mundo, o treinamento foi realizado em Soesterberg, Holanda.

    Ano novo, viva!

    Pai e filha pedalam por um caminho e param perto de um lago. O pai diz adeus à filha e se vai. A filha espera seu retorno, por toda a vida.

  • Também disponível no Youtube.
  • O desenho animado, do diretor holandês Michael Dudok de Wit, ganhou o Oscar de melhor curta de animação em 2001. Está disponível no volume 2 da coleção Anima Mundi.

    A trilha sonora contribui para dar um aperto no coração, mas é a metáfora da vida de todos nós, feita de perdas, despedidas, sonhos, esperanças e coisas boas e simples, que se renovam em ciclos, como andar de bicicleta.