Os 30 mitos mais comuns sobre o uso da bicicleta e como respondê-los

Falácias sobre o uso da bicicleta

Falácias sobre o uso da bicicleta – Cycling Fallacies.com

Todas as cidades do mundo em algum momento tiveram de lidar com mitos relacionados ao uso da bicicleta. Em alguns lugares os pressupostos equivocados sobre a importância da mobilidade em duas rodas movidas a pedais são coisa do passado.

Há no entanto um longo caminho para garantir que verdades comuns para quem pedala rotineiramente sejam transformadas em senso comum.

O site “Cycling Fallacies” (falácias ciclísticas) traz resposta para algumas das argumentações mais comuns de quem é contra o uso da bicicleta mas usa informações incorretas para disfarçar.

É possível ter resposta para questões bastante corriqueiras sobre “como não somos iguais a Holanda”, ou sobre a falta de apreço dos ciclistas pelas regras de trânsito. Cada mito que cai é certamente um giro no pedal para que mais pessoas descubram as maravilhas do uso regular da bicicleta para as pessoas e as cidades.

O site foi traduzido do inglês britânico para o português europeu então algumas expressões de uso corrente em Portugal podem soar estranhas aos ouvidos brasileiros. Talvez o ajuste mais notório de tradução seja o de substituir “estradas” por “ruas”. Mas no geral, os argumentos estão por lá.

Paternidade, crianças e espaço público

Crédito: Nelsina Vitorino/DB/D.A Press. Brasil. Campina Grande - PB.

Crédito: Nelsina Vitorino/DB/D.A Press. Brasil. Campina Grande – PB.

A paternidade é um videogame repleto de desafios em que cada fase concluída é apenas o início da seguinte. Criar uma criança acostumada a circular pela cidade é desafio maior do que qualquer jogo.

Após o nascimento de uma criança o corpo vai se amadurecendo aos poucos. Da firmeza do pescoço até o caminhar os músculos vão se construindo. Ao mesmo tempos os ossos se alongam, as conexões no cérebro se multiplicam.

Junto com a criança, nasce também o medo dos pais. A pequenez e fragilidade da vida está lá demonstrada a todo o momento, mas tal como um passarinho que aprende a voar jogando-se do ninho, assim também somos nós.

A mais divertida das tarefas de educar uma criança é apresentar o mundo ao redor. Tal introdução envolve conduzir pelas ruas uma vida pelo qual somos totalmente responsáveis.

Face a agressividade motorizada e dos riscos de um ambiente urbano criado nos moldes de autoestradas, muitas famílias blindam-se. As crianças então circulam presas nas carruagens de aço e vão de um espaço fechado ao outro.

Da aurora da nossas vidas que é a infância, leva-se tudo e quase nada. Ficam gravadas as marcas dos hábitos que vão se formando e das habilidades adquiridas. Apresentar o mundo para uma criança em uma grande cidade envolve permitir que elas circulem livres pelas calçadas.

O olhar atento e a companhia próxima são vacina contra a imprudência de automobilistas e as inúmeras saídas de garagem. Mas são nos canteiros de flores, nas árvores, grades e escadas pelo caminho que nossos filhos podem conhecer o espaço onde vivem para futuramente dominá-lo.

Chega um dia então que é hora de envolver transportes ativos na equação, primeiro um patinete, logo então uma bicicleta sem pedais. Aumenta a velocidade e o pai torna-se atleta enquanto a criança se apaixona pelo vento no rosto.

Na mais tenra idade, poder voar em liberdade é privilégio. Prazer e alegria que marcam de forma indelével o resto de nossos dias.

Muitos de nós lembram das primeiras pedaladas, quem nos ensinou e guardam na memória a sensação da conquista do equilíbrio. Por meio de uma bicicleta de equilíbrio, antes dos 2 anos de idade, ser ciclista entra na parte das memórias gravadas no inconsciente.

As memórias conscientes costumam aparecer somente após os 3 anos de idade, a bicicleta quando introduzida desde a mais tenra infância é portanto das marcas que se assentam na alma, é como a nossa língua materna que nossa razão nos diz que sempre soubemos, mas que na realidade aprendemos cedo demais para nos lembrarmos.

Cada criança que descobre o vento no rosto torna-se possibilidade futura de cidades livres de parabrisas e blindagens. Liberemos então as calçadas para a infância e avancemos por grandes distâncias carregando em nossas bicicletas, sentadas nas cadeiras as mais preciosas vidas que temos, aquelas que trouxemos ao mundo em nome das quais defendemos cidades amigas da bicicleta.

Um carrinho de bebê ou um adulto com uma criança no colo circulando pelas ruas é documento vivo sobre a necessidade de espaços agradáveis e seguros para circulação humana. Uma criança livre em um meio de transporte ativo, ou sentada como passageira em uma bicicleta é mostra concreta de que outras cidades são possíveis.

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Pedalar é uma forma de teletransporte

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Qualquer pesquisa básica na internet irá dar muitos resultados sobre os benefícios para a saúde do uso da regular da bicicleta. Já quem se dispuser a organizar um desafio intermodal, rapidamente comprovará o óbvio: pedalar é o meio de transporte mais rápido nas cidades.

Um novo estudo no entanto prova o que antes parecia conversa de ciclista. Pedalar leva você de um lado a outro INSTANTANEAMENTE, ou seja sem gastar NENHUM tempo.

Os dados da pesquisa vieram da análise dos hábitos de deslocamento de 50.000 pessoas na Holanda. A maioria delas, naturalmente, pedalava com alguma regularidade ao longo da semana.

A conclusão foi que para cada 75 minutos gastos no selim da bicicleta (11 minutos por dia em média), há um acréscimo de 6 meses na expectativa de vida. Até aí, sem novidades, várias pesquisas já indicam resultados similares.

Sempre a mesma história, tenha hábitos de alimentação saudáveis e coloque seu corpo para se exercitar. Boa comida e um coração batendo forte no peito são garantias de uma vida longa.

É importante, no entanto, analisar os números com atenção. Onze minutos por dia são 3.906 minutos por ano. Ao final de 70 anos, serão 273.385 minutos o que é uma outra forma de representar seis meses.

É exatamente o tempo que sua expectativa de vida irá aumentar se você pedalar 11 minutos por dia.

Ou seja…

Cada minuto que você gasta pedalando aumenta sua expectativa de vida em um minuto.

E não é só isso, a bicicleta irá também aumentar seus níveis de endorfina (o hormônio da felicidade). Basta lembrar aquela primeira pedalada até o trabalho (ou a escola) e a poderosa sensação que veio depois de chegar.

Assim, na próxima vez que for decidir qual a melhor forma de ir até onde precisa, esqueça os cálculos de tempo do Google Maps. Montar na bicicleta e sair pedalando é basicamente tempo livre. Cada minuto sobre pedais, flutuando sobre ruas, avenidas e ciclovias irá voltar para você. Todo o tempo investido será revertido, sem qualquer perda.

Na ponta do lápis, a bicicleta é basicamente um meio de teletransporte. Um teletransporte que deixa você mais feliz e ainda economiza dinheiro.

Vida longa e próspera.

Esse texto é uma tradução adaptada de: Bicycles are instantaneous teleportation devices, says science | PeopleForBikes

 

Caminhos para qualificar e fortalecer a bicicleta nas cidades

Entre os dias 27 e 29 de abril de 2016 foi realizado o IV Workshop – A Promoção da Mobilidade por Bicicleta no Brasil com o tema: “Qualificando e fortalecendo as organizações”.

Durante os três dias foi possível traçar um caminho completo desde as origens da sociedade civil até a sempre necessária lembrança sobre o que nos une, fortalece e dá forças para seguir em frente: a bicicleta.

Quem somos, para onde vamos, por quê vamos?

Clarisse Linke - Foto: Michelle Castilho

Clarisse Linke – Foto: Michelle Castilho

Clarisse Linke, diretora executiva do ITDP Brasil, foi a responsável por dar o contexto histórico logo no primeiro dia. Ao mostrar a evolução do conceito de sociedade civil em relação ao Estado e ao mercado, ela demonstrou a importância do autoconhecimento para as organizações.

O mergulho nas referências deixou claro  como a marcha da história define o papel das organizações. Desde os tempos do Leviatã de Hobbes, até as conceituações de Gramsci e Habermas, a sociedade civil define-se como essa força entre o Estado e o Mercado.

O cenário, com o passar do tempo, torna-se complexo ampliam-se às fontes de recurso, as regulações legais e práticas de gestão. Evoluiu o capitalismo e houve fortes impactos nos caminhos possíveis para o terceiro setor que funciona com híbrido na busca por benefícios coletivos utilizando recursos privados. Equilibra-se assim entre o Estado e seus recursos públicos e o Mercado de benefícios privados.

Certamente a principal conclusão é que precisamos conquistar legitimidade, representatividade e credibilidade, através de uma abordagem centrada no ser humano com princípios éticos que facilitem, capacitem e catalisem formas de participação e o empoderamento das pessoas.  E tudo isso ainda com eficiência e efetividade, tal como a bicicleta, o meio de transporte mais eficiente jamais inventado.

Ferramentas participativas de análise

Montado o pano de fundo histórico, era a hora de colocar a mão na massa. Renata Florentino, coordenadora geral da Rodas da Paz, e Gabriela Binatti, da Transporte Ativo, apresentaram algumas ferramentas participativas de análise que podem ajudar as organizações da sociedade civil a alcançar melhores resultados.

Foi possível conhecer um pouco e sentir como trabalhar na execução de um mapa de atores, simular uma elaboração de cenários e uma análise de fortalezas, oportunidades, fraquezas e ameaças (FOFA ou SWOT).

Assim como em um oficina mecânica, cada ferramenta serve para determinado ajuste. Uma elaboração de cenários precisa de uma grande diversidade de participantes e boa divulgação. Só através da ampla participação será possível produzir resultados além da caixa dos convertidos.

Já um mapa de atores é uma ferramenta de uso interno e não divulgável. Através dela, as pessoas de uma organização podem entender de quem precisam se aproximar para conseguir mais apoios e a quem precisam estar atentos para não ter sua trajetória interrompida por forças contrárias.

Geralmente utilizada em processo de planejamento estratégico, a ferramenta FOFA é de fácil aplicação e por isso bastante popular. Através da união entre o diagnóstico externo e o interno é possível debater uma visão de futuro e a missão da organização.

Formações em Ciclomobilidade

Foto: Michelle Castilho

Marcia Menêses, Renata Florentino, Phelipe Rabay e Renata Falzoni – Foto: Michelle Castilho

Em um painel com mediação de Renata Falzoni, participantes do Workshop puderam conhecer as diferentes aplicações de oficinas de formação em ciclomobilidade em diversas cidades brasileiras. Compuseram a mesa: Daniel Guth da Ciclocidade (São Paulo), Renata Florentino da Rodas da Paz (Brasília), Phelipe Rabay da Ciclovida (Fortaleza) e Marcia Menêses da Mobicidade (Salvador).

O tema da formação foi mais uma oportunidade de entender como cada cidade tem suas motivações e ações bem distintas para alcançar o mesmo objetivo final.

Com mais de 10 anos de atuação, a Rodas da Paz faz uma capacitação do voluntariado para suas ações. O grande benefício é manter uma base atuante de voluntários e ao mesmo tempo ter por perto os “dinossauros”. Um caminho em que se preserva a memória institucional e constrói-se um futuro através da renovação de quadros.

A Mobicidade Salvador fez sua primeira formação em 2016, capacitar para ação também foi o viés. Era importante qualificar as discussões em audiências públicas sobre o plano diretor e o plano de mobilidade. As bicicletas precisavam entrar na pauta e a melhor maneira de garantir que a mobilidade ativa fosse incluída no futuro da cidade era através da multiplicação de vozes, com mais ciclistas em defesa das magrelas.

A Ciclocidade já realizou duas formações, em uma mistura do que é feito em Brasília e Salvador. Buscou-se inicialmente capacitar ciclistas nas mais diversas áreas da cidade a tornarem-se atores relevantes na discussão das pautas relacionadas à mobilidade. O enfoque foi mais centrado nos meios de como realizar incidência política em favor da bicicleta na cidade.

O sucesso da primeira formação foi o catalisador para o aumento das inscrições através do boca a boca o que mostra um caminho necessário (ainda que longo) de investir em trazer cada vez mais pessoas para a discussão.

O aprendizado portanto requer alternativas locais, mas é acima de tudo um esforço que se soma aos poucos nas diversas organizações ao redor do Brasil em busca de aglutinar um país com grupos fortes e unidos em buscas da qualidade de vida nas cidades por meio de uma mobilidade mais humana.

Como transformar informação em ação

 Foto: Michelle Castilho

Victor Andrade – Foto: Michelle Castilho

No caminho para a conclusão do Workshop, Victor Andrade, do Laboratório de Mobilidade Prourb-UFRJ, nos trouxe um panorama dos desafios atuais com riscos globalizados e descontrolados.

Os bichos humanos mudaram fisicamente muito pouco nos últimos milhares de anos, enquanto a organização social transformou-se drasticamente. Nos tornamos incapazes de lidar com a modernização que alcançou tal estágio de complexidade que tornou-se um problema em si mesma.

Urbano por excelência, o planeta moderno do antroproceno é ambiente de gráficos em ascensão exponencial. A taxa de habitantes, sua concentração nas cidades, os gases de efeito estufa etc. Em tudo, a única constante é a velocidade, sempre crescente.

É possível no entanto partir da premissa que o desenho urbano está diretamente ligado aos padrões de comportamento da sociedade. Os resultados do passado são colhidos no presente. Nossas cidades muradas sofrem com epidemia de obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis e a depressão como mal do século XX ainda nos impacta.

Felizmente o horizonte é repleto de possibilidades. Temos no momento o dever de agir para um futuro urbano centrado nos animais frágeis que somos. A política urbana tem  o papel de identificar alternativas de adaptação do atual cenário para maximizar resultados positivos e minimizar as consequências negativas.

Um caminho possível, num horizonte de debate democrático é através da conexão entre ativismo, política e políticas públicas. Embasados em dados de qualidade seremos cada vez mais fortes e capazes de construir novos caminhos. É possível ver janelas de oportunidades nos becos sem saída em que nos prendemos voluntariamente e daí, abrir portas para um futuro com uma humanidade mais saudável.

Organizações de excelência na promoção ao uso da bicicleta

Foto: Michelle Castilho

Marcio Deslandes – Foto: Michelle Castilho

Marcio Deslandes representou a Federação Européia de Ciclistas (ECF) e a World Cycling Alliance para falar sobre “Governança da Bicicleta”. Foi de certa forma a possibilidade de visualizar os efeitos práticos da implementação ao longo dos anos do que foi o aprendido durante o Workshop.

Através da identificação do potencial da bicicleta em diferentes áreas, do mapeamento dos atores e da governança, é possível alcançar grandes distâncias e facilitar para que cada vez mais pessoas pedalem.

De maneira resumida, a governança envolve responsabilidade corporativa (em inglês, compliance), prestação de contas, transparência e equidade.

Transparência é fundamental quando se entende o caráter de benefícios públicos que uma organização da sociedade civil deve promover. É preciso, antes de mais nada, o desejo de tornar público os caminhos seguidos, tanto como prestação de contas, quanto para colaborar no aprendizado coletivo de todo o setor.

Para além de todos os conceitos teóricos, governança no terceiro setor envolve estabelecer parcerias, construir pontes e criar alianças que com o passar do tempo fortalecem o grande objetivo comum, ter mais pessoas em mais bicicletas mais vezes.

O Amor à Bicicleta

Foto: Michelle Castilho

Renata Falzoni – Foto: Michelle Castilho

Renata Falzoni,  cicloativista do “Bike é Legal” brindou a todas as pessoas no Workshop com a mais bela e empolgada declaração de amor pelas duas rodas movidas a pedal.

A palestra de encerramento foi o momento da pura inspiração e o momento para relembrar porque é preciso dedicar tanto esforço, na maioria das vezes puramente voluntário, em prol das bicicletas.

Falzoni, claro, passou por todas as vantagens da bicicleta, eficiência, justiça social, eficiência energética etc.  Seguiu por entre as mais diversas definições do que a bicicleta representa para as pessoas. De óculos para ver a realidade social até a capacidade que a magrela tem de levar-nos para além dos nossos próprios sonhos.

O percurso foi então para a analogia dos ciclistas como um grupo de viciados em endorfina que busca sempre aliciar mais gente para o consumo da “droga da felicidade”. Aquela que nosso corpo produz sozinho, sempre que praticamos o esforço físico repetitivo de girar os pedais.

Com um efeito similar aos opióides, a endorfina atua no nosso sistema nervoso central, inibindo a dor, trazendo euforia, aumentando o bem estar, prevenindo contra a depressão e controlando a ansiedade. Em resumo, é um medicamento que não se vende com benefícios individuais que contrabalançam praticamente todos os efeitos negativos do desenho urbano segregador praticado ao longo do século XX.

Nas palavras de Renata, essa paixão que nos move enquanto pedalamos precisa ser radical no amor, ou seja, praticada com um certo amadorismo daqueles que acreditam nos seus ideais e os promovem para além de cálculos puramente financeiros.

Que venha o V Workshop e que a inspiração que circulou no Studio-X Rio, com o apoio do Banco Itaú possa se propagar pelas ruas brasileiras. Obrigado a todas e todos e pedalemos juntos até 2017.

Doutor Carrocrata

Ou porque parei de falar de carros e passei a amar mais a bicicleta.

Trocar idéias sobre bicicletas, trânsito, espaço urbano e cidades em geral pode ser um grande desafio na esfera doméstica. Eventualmente em um jantar de família irão surgir perguntas sobre “indústria da multa, radares, ciclovias…” Eis que então surge o desafio.

Impactos do automóvel na organização das cidades

Antes de mais nada é preciso entender o papel da popularização do transporte individual motorizado na organização urbana. O viés histórico rende muitas horas de conversa e naturalmente teses de mestrado e doutorado.

Foi exatamente para simplificar a discussão e exemplificar as transformações em prol das pessoas em Amsterdã que a canadense radicada na Holanda, Cornelia Dinca, mergulhou em fotografias antigas da cidade paraíso para as bicicletas. Daí nasceu a tese para seu mestrado em planejamento urbano. A idéia foi explorar a conexão, muitas vezes esquecida, entre transporte e planejamento urbano.

Automóvel, luxo, privilégio ou necessidade?

Invarialmente, apontar os malefícios do uso desenfreado do automóvel nas cidades gera reações adversas. A tese de que a mobilidade individual motorizada é um privilégio soa agressivo para quem por ventura nasceu e cresceu vendo no carro particular um símbolo de status, ascenção social e principalmente de conveniência. Mas do que seu valor simbólico, as carruagens com motor carregam aspectos práticos das pessoas que sentem como imutável suas escolhas de mobilidade.

Exatamente pelos riscos de confronto, o caminho mais confortável para repensar a mobilidade em conversas no ambiente doméstico é deixar de lado a história e a sociologia do planejamento urbano e trazer à tona os aspectos práticos. Ao olhar para qualquer grande cidade brasileira, Amsterdã pode parecer utopia, mas como provam as fotos desse post, a cidade holandesa já foi muito parecida com a distopia urbana em que milhões de brasileiros vivem hoje.

Os custos sociais da mobilidade individual

Tema ainda mais espinhoso é o dos custos sociais do uso do carro particular, uma conta que passa por cima e extrapola IPVA, IPI e qualquer outra fonte de arrecadação. O governo dinamarquês, através da sua “Embaixada da Bicicleta”, calcula periodicamente o quanto custa para todas as pessoas as decisões de mobilidade de cada uma delas.

Para se chegar ao total os métodos são complexos, a lógica é simples. Cada quilômetro pedalado, economiza dinheiro de todos pelos benefícios individuais e coletivos que gera. Por outro lado, cada quilômetro percorrido em automóvel gera prejuízos sociais imensos, que passa pelos congestionamentos, poluição do ar, mortes no trânsito etc.

Qual o modelo de cidade que queremos?

amsterdam

Certamente não somos dinamarqueses, muito menos holandeses e como define a mestranda Cornelia: “Não se trata de tornar todas as cidades iguais à Amsterdã. Trata-se de tornar cada cidade uma versão melhorada delas mesmas”.

Então, da próxima vez que surgir o assunto mobilidade urbana no jantar de família ou no almoço de Páscoa, tenha na memória as origens e os processos de desenvolvimento urbano, mas leve a conversa para o lado da esperança, trazendo as mudanças possíveis na sua cidade para que ela venha a ser melhor a cada dia.

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